A Quaresma é o tempo forte, de quarenta dias, que precede a Páscoa. É um tempo de preparação da Páscoa. E como nos preparamos para viver com fé a Páscoa, de modo a recebermos os seus frutos?

A Igreja propõe, desde sempre, um programa verdadeiramente essencial: oração, penitência e partilha. Se bem virmos, estas são as três direcções (por assim dizer) do esforço ascético que devemos fazer, na nossa vida de cristãos.

1. Oração
A Oração é a nossa comunicação com Deus, ou a nossa abertura à comunicação de Deus. Toda a nossa atenção a Deus, em pensamentos, palavras e obras, é oração. A oração liga-nos a Deus. Sem oração, desligamo-nos de Deus, embora Deus permaneça sempre disponível para nós na sua Providência e no seu desígnio salvífico.

O Senhor Jesus, O Divino Mestre, deixou-nos uma forte recomendação para a oração em grupo e para a oração individual. Ambas são necessárias.

Para a oração em grupo, garantiu-nos que, sempre que dois ou três nos reuníssemos em seu nome, Ele estaria no meio de nós. Não pode haver melhor garantia de que a oração nos leva à presença de Deus.

E para a oração pessoal, foi ao ponto de nos indicar as condições físicas e psicológicas para rezar: fecha-te no teu quarto, fala a Deus teu Pai, não precisas de dizer muitas palavras porque o teu Pai sabe o que precisas.

Quem pode desprezar estes claros mandamentos de Jesus Cristo?
Ora, se a Quaresma é um tempo de revisão de vida, de renovação da vida espiritual, de progresso na vida ascética e mística, então ela tem de ser tempo de mais e melhor oração.

Há mil livros sobre a oração e de orações. Quem quiser, facilmente os encontra, pode escolher e ler. Por exemplo, a Lectio Divina, modelo de oração que desde há séculos provou ser excelente. Quem tiver dificuldade em fazer oração mental pode, outro exemplo, seguir um livro precioso de oração, na linha carmelita, chamado Intimidade Divina (Ed. Carmelo); ou um livro verdadeiramente companheiro, Hora Milagrosa (Ed. Pneuma).

Tudo isto ajuda muito. Mas a oração é sobretudo um exercício. Na alimentação física, de que servem muitos livros sobre culinária, de que serve termos bons alimentos, se não fizermos o gesto de os levar à boca e mastigar? Assim também na oração: é preciso orar.

A oração comunitária atinge a sua expressão mais elevada na Santa Eucaristia.
Sem dúvida, o nosso sacrifício de louvor atinge a sua expressão mistérica mais sublime no sacrifício da Santa Missa. Não é possível aqui referir senão algumas breves notas.
Reparemos que, depois da consagração do pão e do vinho, para que se tornem em Corpo e Sangue de Jesus Cristo, que faz o sacerdote? Após ter mostrado ao Povo, elevando a Hóstia e o Cálice, o Corpo e o Sangue de Jesus, o Sacerdote ajoelha; e, logo que se levanta, exclama em voz alta: «Mistério da Fé!» O Povo ecoa esta exclamação, afirmando e anunciando os mistérios da Morte, da Ressurreição e da última Vinda de Jesus — isto é, o mistério da Salvação.
O sacerdote continua em oração, dando graças a Deus por nos ter admitido à sua presença para O servir nestes mistérios. E deste modo nos unimos ao serviço eterno da glorificação de Deus, cantado pelas suas criaturas, na Terra e nos Céus — S. João Evangelista, no Apocalipse, deu-nos imagem da glorificação celeste.

2. Penitência
A penitência é, no essencial, a renúncia e o combate ao que, em nós, nos afasta de Deus. Mas também ao que nos impede ou dificulta uma maior intimidade com Deus. É muito errado confundir a penitência com o sofrimento corporal, como infelizmente muitas vezes se caricatura. Deus não quer o nosso sofrimento; Deus quer o nosso amor, à imagem do seu amor, que é dádiva completa. Em Deus não há reserva: Deus é Amor que se dá inteiramente. Ora, nós não amamos assim — salvo em momentos ou actos em que, pela mediação do amor de Deus no nosso coração, também um homem ou uma mulher se entrega e se encontra inteiramente num outro.

A penitência é o exercício (mais uma vez, é esta a palavra) pelo qual renunciamos ao nosso egoísmo, ao nosso prazer, e o sacrificamos em oferta (de amor) de nós próprios a Deus e aos irmãos.

3. Esmola, ou Partilha
A esmola, que talvez seja melhor traduzir por partilha, é dar de si próprio; e naturalmente, como lógica consequência, dar do que é próprio seu.
Que podemos nós dar a Deus? Podemo-nos oferecer; mas que podemos dar? Nada, porque nós tudo recebemos e Deus é infinitamente rico. Para podermos dar alguma coisa a Deus, a mediação que está ao nosso alcance é o próximo. A este podemos dar; e através dele a Deus, que por amor se identifica no nosso irmão, a quem fazemos o bem.

Assim, o serviço de amor a Deus ficaria incompleto e (pior ainda) ficaria falseado, se não se dirigisse também às suas criaturas, por Ele destinadas a ser divinizadas pelo seu amor e a viver na sua intimidade. Temos assim a possibilidade de glorificar a Deus pelo nosso amor ao próximo, pelas nossas obras de misericórdia em favor do próximo.

É bem fácil de compreender como não podia ser de outra maneira. Até nós próprios, nas nossas mais fortes expressões de amor oblativo, descobrimos o mistério desta identificação daquele que ama com aquele que é amado: há um dito popular português que põe na boca da mãe esta belíssima verdade de amor: «quem meu filho beija, minha boca adoça». Nenhum poeta diria melhor. E se quisermos ver isto mesmo em profecia, basta ler o Evangelho do Juízo Final, em que Jesus Cristo se identifica com aqueles a quem oferecemos ou recusamos as nos sas obras de misericórdia, materiais ou espirituais (Mt 25, 34-45).