I – A interioridade da vida espiritual

No início da Quaresma, logo no dia de quarta-feira de cinzas, a liturgia da Palavra escolheu a leitura do Evangelho segundo S. Mateus (6, 1-6; 16-18). Dessa leitura, resulta muito claramente que Jesus recomenda fortemente que a oração, a esmola, o jejum não devem ser feitos para os homens verem, mas sim inteiramente para Deus. Se estes sacrifícios forem feitos para que os homens os vejam, então só dos homens será recebida a recompensa, mas não de Deus.

A recomendação é evidente: cortar com a nossa ansiedade por sermos bem vistos pelos homens; e centrar na relação com Deus a nossa oração, o nosso jejum e a nossa esmola. Mesmo a nossa esmola, que é, destas três coisas, aquela que só pode fazer-se na relação com os outros e com amor pelos outros.
Esta recomendação era importante no tempo de Jesus, em que rezar, dar esmola e jejuar em público era motivo de vanglória. Mas hoje já não é socialmente assim, nem para a oração, nem para o jejum. De facto, a oração é vista com desdém; e o jejum só tem prestígio se for feito para a saúde ou a estética do corpo, mas não para a santificação da alma. Por isso, a recomendação cristã mantém o seu valor espiritual, mas perdeu a acuidade prática; e, pelo contrário, hoje, estas coisas já só se fazem meio às escondidas, para fugir à censura dos homens.

E quanto à esmola? Também aqui há diferenças. Se concebida como doação individual personalizada, a esmola também perdeu o seu estatuto de prestígio social; mas ganhou um enorme prestígio entendida como contribuição social, isto é, como solidariedade geral e abstracta, politicamente defendida. Esta esmola vista como solidariedade social pode-se dizer que está muito bem vista hoje pelos homens. A tal ponto que sucede que até alguns católicos, dentro da Igreja e perante o mundo, frequentemente não apenas exercitam a esmola-solidariedade, mas sobretudo a proclamam e reclamam com ar escandalizado contra os católicos que alegadamente não a praticam – porque são intimistas, espiritualistas, e por aí adiante.

Portanto, dir-se-ia que, evidentemente no plano espiritual, vale a pena aplicar a recomendação de Jesus a esta esmola-solidariedade, na sua versão política actual – o que não quer dizer desvalorizar as políticas da solidariedade. E manter a recomendação da esmola escondida. A qual, diga-se a propósito, pode ser esmola material ou espiritual – hoje, do mesmo passo que se valorizam as esmolas materiais, esquecem-se as esmolas espirituais: aquelas que a tradição chamava obras de misericórdia espirituais. Reflexo da maior importância do corpo e da menor importância da alma. Mesmo no seio da Igreja?

II – As três faces da atitude quaresmal

Mas outro aspecto deve ser salientado, nesta leitura de quarta-feira de cinzas, que vale para abrir toda a Quaresma. E esse aspecto é que as três coisas, oração, jejum e esmola, resumem o triângulo essencial das preocupações espirituais do cristão. A saber: na relação com Deus: oração; na relação consigo próprio: jejum; na relação com o próximo: esmola.
A oração é a relação pessoal com Deus, em todas as usas manifestações possíveis, e são muitas. Mas relação intencional: na oração não podemos relacionar-nos com Deus senão subjectivamente. Sintetizando: a oração é essencialmente diálogo. Na oração é essencial falar e escutar; estar consciente e deliberadamente na presença de Deus.

O jejum é o símbolo da nossa relação connosco, no que cristãmente implica renúncia ou auto-domínio.
A esmola torna-se evidente, é a nossa doação (de nós próprios ou das nossas coisas) aos outros.
A santidade é isto: primeiro, amor a Deus; segundo, a renúncia a nós mesmos enquanto somos contrários, contradições ou rivais de Deus; terceiro, amor aos irmãos. É preciso acrescentar que sem o primeiro não há os dois outros; e sem o segundo, também não há o terceiro.

Portanto: grande sabedoria a da Igreja, que propõe para a Quaresma: oração, jejum e esmola. Assim o entendamos bem; e o pratiquemos.

Mário Pinto