Graças ao Baptismo, morrendo e ressuscitando com Cristo, chegamos a ser filhos de Deus, marcados com o selo do Espírito e chamados a participar na vida divina. Pela Confirmação, recebemos os dons do Espírito Santo para podermos crescer nesta vida divina, tornando-nos semelhantes a Cristo, e sermos enviados ao serviço do Evangelho, dentro da Igreja.

A efusão do Espírito não é um novo sacramento. Se alguns falam no “baptismo no Espírito”, é uma expressão imprópria porque se presta a confusões. Poderia dar a entender que se trata de outro baptismo e que, consequentemente, o Baptismo propriamente dito havia sido insuficiente. E não é nada disto que se trata. A efusão do Espírito não é mais do que um rito antigo da Igreja primitiva recentemente descoberto. A efusão do Espírito pressupõe um duplo início de caminhada, pessoal e comunitária, para que o Espírito actue livremente em nós, renovando, aprofundando e actualizando de novo a graça do Baptismo e da Confirmação.

Uma decisão pessoal

Ao receber o Baptismo, convertemo-nos em criaturas novas, revestidas de Cristo, de tal maneira que podemos dizer como S. Paulo: “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Ga 2, 20). Mas é necessário que levemos à prática o que já somos em virtude do ser. Nisto consiste a conversão a que somos chamados na nossa vida cristã.

Vamos tentar compreender melhor usando uma comparação. No Baptismo e na Confirmação recebemos uma oferta, um presente maravilhoso. Mas receber não é suficiente; é preciso abri-lo para o descobrirmos e gozarmos plenamente. A efusão do Espírito ajuda-nos a aumentar e a aperfeiçoar o “pacote” das graças recebidas nesses dois sacramentos, renovando assim a nossa vida espiritual.
Claro que é para este crescimento que nós pedimos a efusão do Espírito. Porque tomámos consciência da nossa fraqueza e da nossa impotência para vivermos sozinhos este caminho de conversão e de santificação, e porque compreendemos que a perfeição não se consegue à força de punhos nem de vontade: “Sem mim nada podereis fazer” (Jo 15,5b).

Pedir a efusão do Espírito é, em princípio, um acto de fé. Uma entrega de si mesmo, um desejo de conformidade com Cristo e de abertura aos carismas. É essencialmente um acto de fé no poder do Espírito Santo e um desejo de por Ele nos deixarmos vivificar: “Estes são os filhos de Deus, os que são conduzidos pelo Espírito de Deus” ( cf. Rm 8, 13-14). É também uma renúncia ao voluntarismo pessoal para nos entregarmos ao Espírito Santo, principal artífice da santificação do homem. Esta atitude de abandono não pressupõe nenhuma forma de passividade ou de quietismo porque a fé no poder do Espírito Santo não suprime a necessidade de haver esforço pessoal na nossa conversão. Essa fé acompanha-a e permite-a.

A oração para a efusão do Espírito Santo exprime igualmente uma vontade de pertencer mais totalmente a Deus, de nos entregarmos inteiramente ao Seu Espírito Santo para que nos liberte de tudo aquilo que em nós é obstáculo à Sua acção, para que Ele rompa o nosso orgulho, o nosso respeito humano, o nosso egoísmo, o nosso medo, a nossa indiferença e actue em nós, daqui para a frente, com maior liberdade e poder. A oração para receber o Espírito manifesta também o nosso desejo de sermos cada vez mais conformes à imagem do Homem Novo, Jesus Cristo, cada vez mais filhos do Pai, cada vez mais testemunhas no mundo do amor trinitário mediante o exercício da caridade fraterna.

Por último, esta oração permite que o Espírito Santo manifeste a Sua presença de uma maneira nova para Sua glória e para a edificação da Igreja, renovando os Seus dons e derramando os Seus carismas, que têm como finalidade o crescimento da Igreja e a salvação do mundo.

Uma decisão comunitária

A efusão do Espírito é também uma decisão comunitária. Os membros do grupo de oração acompanham, com a sua intercessão, os que pedem para viver esta experiência. A oração pela qual a comunidade acolhe esta petição é habitualmente acompanhada pelo gesto da imposição de mãos. Este gesto não é um rito sacramental, como no sacramento da Confirmação ou da Ordem, e muito menos um gesto mágico pelo qual se transmite o Espírito Santo. É apenas um gesto que simplesmente exprime a unidade e a comunhão dos que se unem em oração àqueles que expressam ao Senhor o seu consentimento para que o Espírito Santo actue neles.

Por outro lado, se se pede esta graça da efusão do Espírito, é para se converter em pedra viva deste edifício espiritual que é a Igreja, para se converter num membro vivo do corpo de Cristo: “Também vós, como pedras vivas, entrais na construção de um edifício espiritual” (1 Pe 2, 5a).

Com muita frequência esta água viva que é o Espírito Santo está em nós como uma fonte estancada. Um dos meios para abrir esta fonte, para remover os obstáculos que impedem o jorrar da água, é pedir a efusão do Espírito no seio de uma comunidade de amor, de fé e de oração. Não se trata de uma efusão que vem de fora mas sim de algo que irrompe de dentro. Este brotar de “rios de Água Viva” é obra do Espírito, que desperta no coração dos cristãos fracos as energias adormecidas, suscitando o exercício de carismas que estão como que extintos. Para uns, trata-se de uma verdadeira conversão; para outros, é o sair da tibieza espiritual; para outros, finalmente, é o sinal de uma nova etapa, um sinal de progresso da sua vida no Espírito.

Os efeitos da efusão do Espírito

São numerosos e multiformes: o redescobrimento do louvor, da escuta da Palavra, do exercício dos carismas, da evangelização. A primeira consequência da efusão do Espírito é um crescimento da vida de oração. Graças a um melhor exercício das virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, descobre-se ou volta-se a descobrir a presença de Deus e o Seu amor. Este facto provoca o estabelecimento ou o renovamento da vida de oração pessoal, permitindo assim uma maior percepção e compreensão do mistério trinitário: o Espírito Santo, o Espírito do Pai e do Filho, faz-nos amar e conhecer melhor Um e Outro.

Amor fraterno

Ao permitir-nos descobrir esse amor que é a própria vida da Trindade, o Espírito Santo ensina-nos a viver um verdadeiro amor fraterno que é, ao mesmo tempo, o testemunho e a prova do autêntico amor de Deus. O exercício deste amor fraterno dentro da comunidade eclesial ensina-nos a amar como Jesus nos ama e dá-nos a alegria de sermos irmãs e irmãos n’Ele, para formarmos o Seu corpo que é a Igreja. Este amor fraterno, dom de Deus, abre-nos a todos, sem distinção de raças, de classes ou idades, e leva-nos ao serviço uns dos outros: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros”.

Deste modo, os grupos de oração convertem-se em verdadeiras comunidades de oração, de fé, de esperança e de amor. As pessoas, os casais, as famílias voltam a encontrar a força de se perdoarem uns aos outros como Jesus nos perdoou, de se reconciliarem uns com os outros como Jesus nos reconciliou com Deus, e de deixarem que a graça cure, pouco a pouco, as feridas do passado. Por vezes, alguns grupos de oração decidem-se por um compromisso ainda mais radical ao serviço de Deus e dos homens e, assim, experimentam uma nova forma de vida comunitária dentro da Igreja. Deste modo, também as paróquias se renovam.

Descobrir de novo a Igreja

O Espírito Santo não é um Espírito de divisão mas, pelo contrário, de comunhão; suscita em nós um novo descobrimento da Igreja como mistério de comunhão com Deus e também como instituição hierarquicamente organizada. E ao descobrirmos que a Igreja é simultaneamente carismática e institucional, já não a julgamos exteriormente visto comprovar-se que ela é, antes de tudo, o Corpo de Cristo, sacramento da Sua presença no mundo, e que a hierarquia é um serviço para o crescimento dessa presença no amor. Na verdade, o Espírito Santo dá-nos um amor acrescido pela Igreja, uma maior atenção e docilidade pelo seu magistério, uma participação mais assídua na liturgia e nos sacramentos e uma devoção mais autêntica a Maria.

Libertação e cura

Ao receber a efusão do Espírito, pode fazer-se a experiência de uma libertação. Com efeito, uma consciência mais viva da presença de Deus e a entrega total do nosso ser à acção transformadora do Espírito produzem em nós a libertação de certas formas de escravidão interior: vícios, violência, alcoolismo, droga, sexualidade desordenada, superstição, egoísmo, ciúmes…E produzem também o desaparecimento progressivo de alguns bloqueios psicológicos: ansiedades, angústias, escrúpulos, inibições, complexos, feridas… Acontecem, assim, verdadeiras curas interiores e até físicas.

A paz e a alegria invadem progressivamente todo o nosso ser. Comprova-se algo importante: que a efusão do Espírito não é uma emoção sentimental ou uma evasão das realidades da vida. A efusão ajuda-nos a mudar a nossa vida, abandonando pouco a pouco atitudes e costumes que não estão de acordo com o plano que Deus tem para cada um de nós. Estes sinais acompanham e confirmam o anúncio da Boa Nova.

Charles-Eric Hauguel

Publicado em “Nuevo Pentecostes”
Traduzido e adaptado por Isabel Moraes Marques

Nota da redacção: Charles-Eric Hauguel é autor de um dos livros mais conhecidos para participantes de Seminários de Vida Nova no Espírito do R.C.C.