Na Ressurreição de Cristo, o Espírito Santo-Paráclito revelou-se sobretudo como aquele que dá a vida: “Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vós” (1). Em nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja anuncia a vida, que se manifestou para além das fronteiras da morte, a vida que é mais forte que a morte. Ao mesmo tempo, anuncia aquele que dá esta vida: o Espírito vivificante; anuncia-o e coopera com ele para dar a vida. Na verdade, “embora o … corpo esteja morto por causa do pecado…, o espírito está vivo por causa da justificação” (2), operada por Cristo Crucificado e Ressuscitado. Em nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja põe-se ao serviço da vida que provém do próprio Deus, em estreita união com o Espírito e em humilde cooperação com Ele.

(…) Unida ao Espírito Santo, a Igreja é consciente, mais do que ninguém, do homem interior, dos traços que no homem são mais profundos e essenciais, porque espirituais e incorruptíveis. É neste nível que o Espírito enxerta a “raiz da imortalidade” (3), da qual desponta a vida nova, ou seja a vida do homem em Deus, que, como fruto da divina auto-comunicação salvífica no Espírito Santo, só pode desenvolver-se e consolidar-se sob a acção do mesmo Espírito. Por isso, o Apóstolo dirige-se a Deus em favor dos fiéis, a quem declara: “Dobro os joelhos diante do Pai … para que Ele vos conceda … que sejais poderosamente fortalecidos pelo seu Espírito, no homem interior” (4).

Sob a influência do Espírito Santo, o homem interior, isto é, “espiritual”, amadurece e fortalece-se. Graças à comunicação divina, o espírito humano que “conhece os segredos do homem” encontra-se com o “Espírito que perscruta as profundezas do próprio Deus” (5). E neste Espírito, que é Dom eterno, Deus uno e trino abre-se ao homem, ao espírito humano. O sopro oculto do Espírito divino faz com que o espírito humano, por sua vez se abra, diante de Deus que se abre para ele, com intuito salvífico e santificante. Pelo dom da graça, que vem do Espírito Santo, o homem entra “numa vida nova”, é introduzido na realidade sobrenatural da própria vida divina e torna-se “habitação do Espírito Santo”, “templo vivo de Deus” (6). Pelo Espírito Santo, o Pai e o Filho vêm a ele e fazem nele a sua morada (7). Na comunhão de graça com a Santíssima Trindade dilata-se “o espaço vital” do homem, elevado ao nível sobrenatural da vida divina. O homem vive em Deus e de Deus, vive “segundo o Espírito” e “ocupa-se das coisas do Espírito”.

Papa João Paulo II
Carta Encíclica “Dominum et Vivificantem”

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(1) Rom 8, 26 (2) Rom 8, 11 (3) Cf. Sab 15, 3
(4) Cf. Ef 3, 14-16 (5) Cf. 1 Cor 2, 10s (6) Cf. Rom 8, 9; 1 Cor 6, 19
(7) Cf. Jo 14, 23; S. Ireneu, Adversus baereses, V, 6, 1: SC 153, pp. 72-80; S. Hilário, De Trinitate, VIII, 19. 21: PL 10, 250. 252; S. Ambrósio, De Spiritu Sancto, I, 6, 8: PL 16, 752s; S. Agostinho, Enarr, in Ps. XLIX, 2: CCL 38,575s; S. Cirilo de Alexandria. In Joannis Evangelium, lib. I; II: PG 73, 154-158; lib.IX: PG 74, 262; S. Atanásio, Oratio III contra Arianos, 24: PG 26, 347s; Epist. I ad Serapionem, 24: PG 26, 586 s; Dídimo de Alexandria, De Trinitate II, 6-7: PG 39, 523-530; S. João Crisóstomo, in epist. Ad Romanos homilia XIII, 8: PG 60, 519; S. Tomás de Aquino, Summa Theol. Iª. Q. 43, aa. 1, 3-6