“Abri, aliás, escancarai as portas a Cristo!” Por ocasião do início do seu pontificado, o Papa João Paulo II fez-nos este convite solene, usando palavras que, embora talvez demasiado vibrantes para um simples convite mas necessárias para nos despertar e entusiasmar, ainda hoje ecoam profundamente no coração da Igreja, interpelando-nos e desafiandonos para aquela acção que João Baptista, a voz no deserto já profeticamente anunciada por Isaías, proclamava: “Preparai o caminho do Senhor e endireitai as Suas veredas”.

Que portas são estas que devemos escancarar para Cristo? Decerto João Paulo II recordou as palavras de Santo Ambrósio: “Todo o homem tem uma porta pela qual Jesus entra”. É a porta do nosso coração. Mas nem nós abrimos a porta sem a participação de Deus, nem Deus a quer abrir sem a nossa participação. Na verdade, Aquele que entrou no cenáculo com as portas fechadas, permanece à nossa porta e bate até que queiramos abri-la.

Que caminhos são estes que temos de preparar? São os caminhos para a Graça que vem ao nosso encontro, é a Verdade que quer ser acolhida, é o Amor que urge, porque aquele Menino que vai nascer é a salvação que supera todas as expectativas humanas. Por isso, temos de endireitar as veredas mal traçadas da nossa vida e receber o Verbo que consentiu em fazer-se homem para de novo nos tornar participantes da divindade. O Seu filho unigénito, Deus o transformou em filho do homem para que o filho do homem se pudesse tornar Filho de Deus.

No Natal, Deus faz à humanidade a dádiva do Seu amor; o Natal é a epifania da misericórdia de Deus pelo mundo. Como retribuir um presente tão grandioso, uma graça tão sem medida? Talvez fazendo do Natal um tempo precioso para a nossa própria conversão e para a conversão do nosso próximo.

O Natal pode ser para nós o tempo “de um poder e um amor maior que todas as nossas próprias iniciativas, para que possamos edificar uma comunhão segura e dar-lhe a dinâmica da missão fecunda” (Cardeal Ratzinger); pode ser um tempo de unidade e salvação, salvação fundada no amor do único Senhor, salvação que é graça, que é doação: “Pela graça vós sois salvos por meio da fé, e isso não depende de vós, é dom de Deus. Isso não vem das obras, para que ninguém se orgulhe” ( Ef 2, 87-9).

Por isso a fé é a primeira porta que devemos escancarar e Jesus virá a nós na proporção do tamanho da nossa fé pois tudo é possível para quem n’Ele acredita. O amor, a oração e o sacrifício são o ouro, o incenso e a mirra que, neste Natal, vamos oferecer ao Menino, com a mesma simplicidade e humildade com que Ele mantém aberta a porta da gruta onde nasceu para que O possam visitar e adorar todos os que o desejem fazer.

Outra porta que existe no nosso coração, que é o templo onde Deus quer habitar, é a porta da esperança, uma porta bela, como “Bela” era o nome daquela porta do templo de Jerusalém onde aconteceu o milagre do paralítico que ali jazia a pedir esmola.

Se essa porta já está aberta a Jesus, então temos que a abrir ainda mais porque Ele é a nossa esperança personificada, “esperança da vida eterna prometida, antes dos tempos eternos, pelo Deus que não mente” (Tt 1, 2). “Desejamos o reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pomos a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiamo-nos não nas nossas forças mas na ajuda da graça do Espírito Santo” (CIC). Espírito Santo, dom de Deus, cuja obra fundamental é o amor, que unifica no permanecer.

Também podemos entender a esperança como estado de espírito, a espera do sábado porque a festa vai acontecer no domingo, e o efeito da felicidade por estar à espera é divinamente cantado por Isaías: “Até os adolescentes se cansam e se fatigam e os jovens tropeçam e vacilam. Mas os que esperam no Senhor retemperam a sua energia: tomam a envergadura das águias, lançam-se e não se fatigam, avançam e não fraquejam” (Is 40, 30-31).

Deus dá-nos forças para compensarmos as debilidades, dá-nos asas para superarmos os obstáculos, dános luz para vencermos as trevas, dános o bem para vencermos o mal. A esperança vem sempre em nossa ajuda no nosso caminho pessoal de santificação. Por tudo isto, o Natal deve ser uma ocasião privilegiada para o redespertar da nossa esperança.

“O impulso da esperança preserva contra o egoísmo e conduz à alegria da caridade” (CIC). “Se alguém me ama, observará a minha palavra e meu Pai o amará; nós viremos a ele e estabeleceremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23). Cristo está diante da porta da caridade e nós queremos abrir-Lhe esta porta porque reconhecemos e acreditamos no amor que tem por todos nós.

O Natal manifesta a caridade de Deus, a bondade do nosso Salvador, e a coisa mais bonita que podemos oferecer a alguém no Natal é falar no Seu amor infinito, falar na novidade de que Ele nos amou primeiro e que continua, hoje, a fazer-nos a mesma pergunta que fez a Pedro: “Tu amas-me, Pedro?” pois anseia pela nossa retribuição.

E qual será o melhor presente que podemos oferecer a Deus? É amar os nossos irmãos, porque Deus colocou em nós o Seu próprio amor por todos eles: “Recebemos uma medida infinita de amor, a ser distribuído no devido tempo entre os companheiros de servidão” (Lc 12, 42). Assim, ainda que nem sempre possamos dar aos irmãos aquilo que eles pedem, procuremos nunca mandá-los de volta de mãos vazias.

Só amamos a Deus se amarmos os irmãos e só amamos os irmãos se amarmos a Deus. Para isso temos necessidade do dom do amor salvífico do próprio Deus, para nos podermos tornar também nós pessoas que amam.

Tenhamos uma confiança absoluta no Senhor e nas Suas promessas. Façamos subir até Ele frequentes orações e elevemo-nos para Ele através de actos de amor. Imitemos a Sua humildade e docilidade de coração e respeitemos tempos de silêncio, para que O possamos escutar e a Sua vontade seja o critério do nosso ser e do nosso querer.

Maria, assegurando a presença da dimensão feminina no acontecimento da salvação, é o nosso modelo de entrega audaciosa e ilimitada nas mãos de Deus.

“A caridade é a sociedade dos santos. É a única que permanece, mesmo cessadas a fé e a esperança” (Pe. Cantalamessa). E continua, parafraseando Santo Agostinho: “Nós, criaturas humanas, somos como vasos de barro que, chocando-se, se amachucam e se ferem reciprocamente. Mas se os vasos de carne provocam sofrimento recíproco, que se dilatem os espaços da caridade. Qual a oportunidade mais propícia para isso do que o Natal do Redentor?”

A palavra do Apocalipse “Eis que estou à porta e bato” é uma palavra que Deus quer dirigir a toda a Igreja neste Natal. Acolhamos o convite que ouvimos de João Paulo II, abrindo ao Senhor as portas da fé, da esperança e da caridade. E o espaço no mais interior do nosso coração, que é o templo dinâmico onde Ele vai querer ficar para a ceia, não necessitará de nada mais para o clarear, “nem de sol, nem de lua, pois a glória de Deus o iluminará e a sua lâmpada é o Cordeiro” (cf. Ap 21, 22s.).

Isabel Moraes Marques