Reflexões de um capelão de hospital

Contemplemos o quadro da descida da cruz: Ele morto e muito maltratado. A Mãe inconsolavelmente chorosa. Terão eles pecado para tanta cruz? Certamente que não.

Os cristãos que chegam ao hospital com doenças de variada gravidade julgam, ou julgam os outros, que foi castigo de Deus. E nalguns casos é. Um alcoólico facilmente concordará que foi o seu vício que lhe danificou o fígado; do mesmo modo um dependente de drogas terá de concluir que foi a sua alienação que o arruinou. Na maioria dos casos, porém, a doença e o sofrimento não dependem de comportamentos conscientes ou de responsabilidade do próprio. Então?

O problema do sofrimento e, especialmente, as suas formas mais universais – a doença e a morte – sempre preocuparam o espírito humano desde as mais recuadas culturas. Nos nossos hospitais ainda circulam as convicções de que, duma maneira geral, as provações da doença derivam do castigo de Deus. Se o nosso instinto é sermos imortais, porquê a doença e a morte? Que é que de errado aconteceu no princípio para que ficássemos condenados às passividades da doença e da morte? Porquê eu? Porque é que Deus me castigou? Ou então, uma resignação passiva: Deus sofreu, eu também, tenho de sofrer!

Será este desabafo manifestação do instinto antigo de não podermos vencer forças ocultas superiores, ou catequese e homiliética moralista que se ouve nas paróquias?
O capelão de hospital circula diariamente entre dores e angustias que lhe imploram a clareza de algum sentido.

A terminologia do Antigo Testamento

O Antigo Testamento é rico em imagens da dor profundamente sentida, mas não utiliza preferentemente nenhum termo específico: serve-se de expressões variadas que rodeiam o assunto como: doença, revés, aflição, angustia, amargura; atribuídos indistintamente à dor física ou espiritual. A terminologia rabínica utiliza igualmente uma variedade de termos como: mal, infortúnio, castigo, aflição.

As concepções do mundo do Antigo Testamento são tributárias da mentalidade das várias culturas do médio oriente e do delta do Nilo, bem como das planícies do Tigre e do Eufrates: babilónios, assírios, hititas. O pensamento comum destes povos a respeito do sofrimento, da desgraça e da doença e que estes males derivam da vontade dos deuses a quem convém aplacar com a oração, a confissão dos pecados próprios e das suas famílias, juntamente com a realização de alguns ritos mágicos. As diversas tentativas de explicação de dor ou sofrimento – pessoal ou colectivo – radicam todas, nos diversos livros do Antigo Testamento, em Génesis 3, 16-19 (a condenação da mulher e do homem após o pecado original).

Os profetas entendem que o sofrimento do povo tem como causa a infidelidade a Javé. Mas, sublinham os profetas, o castigo do povo deverá trazer consigo a salvação. Com os profetas maiores – Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel – já se pretende catequizar o povo que o pecado tem uma responsabilidade pessoal e, portanto, consequências ou castigos para o pecador e não para a família inteira ou para a nação. De facto, o ditado popular lamentava: “nossos pais é que comeram uvas verdes e a nós é que apodrecem os dentes” (Jeremias 31, 29, Ezequiel 18, 2).

Tão antiga como a crença no carácter de castigo próprio do sofrimento ou da dor, é o protesto contra a sua vigência universal. As antigas tradições narrativas (Génesis 18, 23-ss: diálogo de Abraão com Javé a respeito do castigo a Sodoma e Gomorra) põem na boca do homem queixas contra Deus por o castigo atingir também os inocentes, ou ser um castigo para todo o povo (João 7, 7), ou por ser um sofrimento claramente imerecido (Êxodo 5, 22-ss: Moisés queixa-se a Javé por permitir que todo o povo suporte a tirania do Faraó). O aspecto mais elevado do sentido do sofrimento, relacionado com a expiação vicária, aparece somente nos textos depois do exílio (ano 600/500 AC). A versão mais conhecida desta maneira de encarar o sofrimento é o célebre Cântico do Servo de Javé, em Isaías 53.

A terminologia no Novo Testamento

No Novo Testamento Jesus não afirma que a doença e a morte sejam castigo do peca-do (João 9, 3: nem o filho nem os pais pecaram para que ele nascesse cego). Jesus manifesta-se plenamente como homem pelo facto de experimentar a dor (Lucas 19, 41: viu a cidade e chorou sobre ela); João 11, 35: Jesus comoveu-se interiormente e ficou conturbado diante do túmulo de Lázaro. “O teu amigo está doente”, mandaram as irmãs de Lázaro dizer a Jesus. Mas ele ainda se demorou alguns dias. Lázaro, entretanto, morreu. Só depois Ele o foi ressuscitar. Este episódio de intensa emoção verifica-se em muitos dos nossos problemas de saúde ou de angústia da vida, mas com a diferença de que Deus parece que nem ouve o nosso recado e nem mesmo acaba por chegar.

Quem está numa cama de hospital, está numa cruz. A cruz, só por si, não nos salva. No alto do Calvário, ao lado de Jesus estavam dois crucificados: um salvou-se, o outro, não. Assim também nas enfermarias do hospital. Encontramos pessoas que vivem os seus fins com intensidade de fé; e outros que se apagam revoltados.

A Maria José tinha cancro do intestino. Estabeleceu o seu calendário provável de duração de vida e escolheu na enfermeira chefe e no capelão a família que precisava para se sentir acompanhada. Com este aconchego de família e de fé, foi recebendo os tesouros do coração e da alma em dia e hora que escolheu. É despediu-se de nós: “Agora, sim, já posso morrer!” O sr Hermínio tinha passado uma vida de muita violência e de muito sangue; fora mercenário em África e na Ásia. Não contava pormenores, mas, também, não se queixava nem de Deus, nem da vida. Conversava com o capelão sobre coisas aparentemente vulgares, da doença e da improvável recuperação. Acabou por oferecer amparo e abrigo na sua casa a um outro doente desgraçado que já só tinha doenças. Deus tinha passado pelo seu sofrimento a convidá-lo à generosidade evangélica.

Uma queixa frequente de quem sofre é a diferença entre o relógio de Deus e o dos homens. O sr Filipe organizou todas as despedidas, inclusivamente o lugar da sepultura, e ficou à espera. No relógio de Deus ainda não estava na hora. E ali ficou, na cama do hospital, encolhido como um bebé, durante mais três dias, à espera de ressuscitar com Ele. O sr Francisco tinha pressa. Nas eucaristias longas no seu quarto, perguntava se era pecado pedir a Deus que o levasse…E Deus teve com ele um adianto de relógio!

As vivências do sofrimento e da morte são diversificadas, conforme a vivência de fé de cada um. Nenhum de nós, porém, conhece os recônditos da interioridade dos outros. Não temos o relógio de Deus. E quanto à fé, oxalá seja, ao menos, do tamanho de uma semente …O mistério persiste.

Augusto Cima (Capelão)