Encontro RCC de Lisboa   Santa Maria dos Olivais, 15 Dezembro de 2019

 Sair com Cristo ao encontro de todas as periferias    As obras de misericórdia

“Sair com Cristo ao encontro de todas as periferias” – é o caminho que a Igreja de Lisboa nos propõe neste ano pastoral. É o caminho proposto a cada Paróquia, a cada movimento, a cada colégio, a cada grupo de oração.

“Sair” – não é uma palavra nova. Desde o início do seu Pontificado, o Papa Francisco tem proposto uma Igreja em saída, uma Igreja em missão que não vive instalada nos seus esquemas e modos de proceder, uma Igreja que arrisca sair para encontrar a todos.

Mas sair como e sair para onde? Sair para quê?

Em primeiro lugar é preciso considerar com quem saímos. “SAIR COM CRISTO”, não vamos sozinhos. Mas se saímos com Cristo é necessário primeiro estar cá dentro com Cristo…

Caminho de interioridade – na minha vida tenho dado espaço a Cristo, tenho deixado que ele cresça em mim, tenho deixado que a sua graça me transforme, renove, reconstrua, dia após dia?

Ou o meu estar com Cristo é superficial? Tomo de Cristo apenas o que me convém ou deixo que Cristo transforme de facto a minha vida?

Para sair com Cristo é necessário deixar primeiro encontrar-me por ele? A minha pertença ao grupo de oração tem feito de mim uma pessoa diferente? Tenho experimentado renovação interior?

Em que se traduz essa renovação? Tenho em mim os mesmos sentimentos de Cristo que sendo rico se fez pobre, sendo Senhor se fez escravo, esvaziou-se até à morte e morte de cruz?

Vivo para servir ou procuro ser servido?

Tenho percorrido o caminho da pobreza? Na carta recente sobre o presépio, o Papa Francisco afirma: “Nos nossos Presépios costumamos colocar muitas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, as de mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. No Presépio, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial. Do Presépio surge, clara, a mensagem de que não nos podemos deixar iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado.

Tenho experimentado esta transformação interior? É que se não tenho de nada me vale sair porque só vou fazer barulho.

Sair com Cristo significa ser imagem de Cristo, presença de Cristo, Palavra de Cristo, olhos de Cristo, mãos de Cristo…

Sair – Tem muito a ver com o Tempo do Natal que vamos celebrar daqui a pouco tempo.

No Natal, Jesus sai do Céu, desce do Céu para assumir o desconforto, o incómodo. Na fragilidade, humildade, pobreza assume o desconforto, sai do conforto do Céu para visitar a humanidade.

Com Jesus aprendemos a sair – trata-se de assumir o desconforto, ir aonde ninguém quer ir, fazer o que ninguém quer fazer, abandonar as seguranças, os modos adquiridos, experimentar fazer de novo e de nova maneira.

Só sai quem está disposto a abandonar o seu estatuto – quando saímos e deixamos os nossos “poleiros” não levamos os títulos nem os direitos; vamos transparentes e de mãos vazias, somos convidados a levar apenas Cristo e a disponibilidade de Cristo para se tornar vizinho, companheiro.

Não basta dizer: “Senhor, Senhor, sois misericordioso e eu também quero ser” (cf. Mt 7, 21). Os santos desejos e os bons propósitos só valem quando se traduzem em gestos concretos. Acreditar em Deus significa agir segundo a fé. Um coração que se abre ao Evangelho, deixa-se transformar por ele e pelos princípios da misericórdia. A misericórdia não é uma teoria. São obras de misericórdia.

Saímos com Cristo ao encontro das periferias para sermos rostos de  misericórdia. A misericórdia não pode ficar reduzida a um sentimento vago de benevolência ou a discursos acalorados de serviço social. A misericórdia concretiza-se necessariamente em obras de misericórdia.

Nos catecismos facilmente encontramos a enumeração de 14 obras de misericórdia. Não se trata de uma lista exaustiva, mas da indicação de uma série de situações em que importa exercitar a misericórdia em gestos bem concretos.

Ser misericordioso é sair de si, exilar-se do próprio comodismo e interesses, e fazer do outro o seu centro; é assumir o mal alheio como seu, é ter a capacidade de chorar com os que choram e a ousadia de os consolar. A misericórdia é o amor que vive a miséria do outro como se fosse a sua. O profeta da misericórdia dá-se, é do outro, expropria-se em favor do outro.

Misericórdia e Perdão são duas realidades que se tocam. Perdoar não é pactuar com o mal feito ou fechar os olhos como se nada tivesse acontecido. Perdoar é vencer o mal com o bem; no fundo é vingar-se da ofensa amando em tom maior, em generosidade sem limites; perdoar é passar de acusador a advogado de defesa; é tratar das feridas de quem nos ofende, passando de ferido  a enfermeiro; é ultrapassar a contabilidade amargurada das ofensas recebidas, fazer festa com os pródigos que batem à porta do arrependimento.

O Coração aberto de Cristo na Cruz é a lição profética mais eloquente da misericórdia em toda a história humana. Também eu estou disposto a abrir o meu coração, tornando-o pousada de misericórdia? Só assim posso sair ao encontro das periferias.

Por fim, é necessário olhar para as periferias! Quem são as minhas periferias? Quem são as periferias do meu grupo de oração? Quem são as periferias da minha paróquia?….

Em Mt 25 Jesus mostra-nos as periferias: os famintos, os sedentos, os nus, os presos, os que estão sós, os doentes….. é preciso avaliar. A quem é que o Senhor me envia neste Natal?

Vamos ao presépio onde celebramos a saída de Cristo que se consuma no mistério Pascal. Como afirma o Papa na Carta sobre o Presépio: “Ao fixarmos esta cena no Presépio, somos chamados a reflectir sobre a responsabilidade que cada cristão tem de ser evangelizador. Cada um de nós torna-se portador da Boa Nova para as pessoas que encontra, testemunhando a alegria de ter conhecido Jesus e o seu amor; e fá-lo com acções concretas de misericórdia. Os Reis Magos ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo. Diante do Menino compreendem que Deus, tal como regula com sabedoria o curso dos astros, assim também guia o Curso da História, derrubando os poderosos e exaltando os humildes.

Humildade, pobreza, assumir o desconforto – do Natal à Páscoa que se concretiza na história pessoal de cada filho de Deus. Luz que irrompe nas trevas, graça que fecunda o solo estéril do coração, vento que abre as portas e empurra para a missão. Prólogo de São João: A Luz veio para o que era seu mas as trevas não a receberam. Mas àqueles que o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”.

As 14 obras de misericórdia não são uma expressão de saudosismo de velhos costumes, nostalgia do tempo em que não havia organizações consolidadas como a segurança social, seguros, bombeiros e serviços de emergência médica. Na sua actualidade, os actos de misericórdia, por mais simples que sejam, são mais importantes do que centenas de grandes projectos – as obras de misericórdia continuam a interpelar cada um de nós a comprometer-se, com determinação e generosidade, no exercício da caridade.

O Papa Francisco recorda-nos sempre a missão, imperiosa e urgente, de anunciar a misericórdia de Deus, pelo testemunho de práticas de misericórdia humana: “A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia o seu convicto anúncio. Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa, cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo. A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo”. (MV 25).

Exposição do Santíssimo Sacramento

Vamos agora estar coração a coração com o Senhor da Misericórdia:

  1. Dar-me conta da presença de Deus;
  2. Contemplar o Amor misericordioso de Deus que se faz presente, que está próximo.
  3. Contemplar a Saída de Deus – Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho nascido de uma mulher. Desceu dos Céus para se encontrar com a humanidade.
  4. Deus assume o desconforto, o incómodo. E eu, estou disposto a assumir algum incómodo?
  5. Deus pede-me para sair ao encontro de todas as periferias. Estou disposto a sair com Cristo? Primeiro, tenho estado com Cristo, tenho permanecido n’Ele, morado n’Ele e tenho deixado que Ele more em mim?
  6. Quem são as minhas periferias? Onde é que o Senhor me envia hoje, neste Advento, neste Natal…
  7. Interceder pela Paróquia, pelo grupo de oração, pelos amigos, pelos inimigos…. levar homens ao coração de Deus.