Chegou lá a casa completamente gelada. Os dedos das mãos inchados e roxos, com as frieiras quase em ferida. Era assim todos os invernos e aquele estava a ser bem frio. Não que se queixasse do desconforto ou do frio. Sempre um grande sorriso, uma alegria genuína por qualquer coisa boa ou um pouco melhor de que usufruísse. E estava contente porque tinha vindo ver a irmã que, por estar doente, vivia em Lisboa, com uma tia, em casa de uma família muito amiga. 

Trazia um vestidinho simples e um casaquito de malha de mangas já muito curtas para o tamanho dos braços. Encolhia-se dentro do casaco, como se pedisse desculpa por ter crescido tanto nos últimos meses. Não que se sentisse inferiorizada por ser menina pobre. Não comparava as suas roupas com as das colegas de turma e muito menos com as dos meninos com quem vinha conviver. Ela era ela. Boa aluna, boa desportista, com muitos amigos, na escola e em todo o lado. E vir a Lisboa passar o Natal era uma grande alegria. Natal em casa da madrinha Nair era sinónimo de magia: árvore de Natal feita pelas crianças, presépio grande, cheio de figurinhas, muitos doces, cantigas, teatros improvisados e, sobretudo, risotas sem fim e segredos secretíssimos partilhados com a irmã. 

Foi acolhida com carinho e muita simpatia. Naquela casa havia sempre lugar para mais um, sobretudo se fosse jovem ou criança. Mais um prato na mesa, uma cama improvisada. Estava sempre tudo bem. Mas daquela vez a “madrinha” olhou preocupada para as roupas dela. E pensou em voz alta: ”Precisamos de te arranjar um casaco novo!” Foi até ao guarda-fato. Tirou de lá um casaco comprido, de cor bege, boa fazenda. O problema é que tinha uma enorme nódoa, mesmo no meio das costas. “Veste lá!” Ela vestiu o casaco, contrafeita. Preferia o frio a ter de vestir aquele casaco de mulher adulta e ainda por cima com aquela grande mancha. A madrinha parecia muito contente quando a viu com o casaco. “Fica impecável!” “Impecável?” Pensou a rapariga. “Estou horrível…” 

No dia seguinte ouviu dizer: “Vamos tingir o teu casaco!”. Com surpresa, viu o casaco ser mergulhado num panelão de água escura a ferver e sair de lá feito um grande trapo azul, que foi estendido a pingar. Passados dias, foi convidada a vestir de novo o casaco, que virara azul-escuro, quase preto. Agora é que estava impecável, mesmo. Mas um pouco triste, sóbrio demais para o seu gosto. A madrinha sorriu com ar misterioso. “Já vamos dar vida ao teu casaco!” Da caixa de costura saíram botões grandes e de um saco cheio de retalhos de tecido, escolheu um bocado de fazenda de xadrez bem alegre: vermelho, verde, amarelo, branco. E dessa bonita fazenda foram for rados os botões , acrescentaram-se virolas às algibeiras, aos punhos e à gola. No final, o casaco estava lindo, nada tinha a ver com o casaco “à velha”, com nódoa nas costas. Quando voltou para casa, de casaco novo, ia bem quentinha e bonita. 

Passaram muitos, muitos anos. A madrinha partiu para outra vida, onde se espera não vivam meninas com frieiras nem com frio, nos dias gelados das férias de Natal. A jovem rapariga cresceu, hoje é mulher madura. Nunca perdeu o grande sorriso e a capacidade de se alegrar com as pequenas ou grandes coisas boas que lhe acontecem. Ao longo da vida foram muitos os casacos que escolheu, pôde comprar e usou. Mas nenhum a agasalhou tão bem, a fez tão feliz, a fez sentir-se tão protegida e amada, como aquele casaco manchado, que de bege passou a trapo azul-escuro e de trapo azulescuro se transformou no mais bonito casaco que pôde usar em toda a vida. 

Diz-nos ela que, quando conta esta história, a gratidão que sente parece-lhe chegar ao céu e trazer-lhe de volta o sorriso de misterioso contentamento da madrinha Nair ao vê-la de casaco novo. A madrinha deixou-lhe em herança uma lição: a verdadeira caridade começa pelo modo como se dá. 

Abençoados sejam todos os que olham como dão!

Fernanda Ruaz