Nova Evangelização e Renovação Carismática

1. Na história da experiência cristã, vivemos uma nova época
Foi o próprio Concílio que declarou, na Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo: «as condições de vida do homem moderno sofreram tão profunda transformação no campo social e cultural, que é lícito falar duma nova era da história humana» (GS 54; cfr. ainda 4-10). Um grande teólogo dos tempos do Concílio Vaticano II, Heribert Mühlen, iniciou um dos seus melhores livros, dedicado à «renovação da fé cristã», precisamente com uma importante reflexão sobre o que vem a ser «o início de uma nova época na história da fé» .

2. Uma nova época, uma renovação, uma Nova Evangelização
Dentro da Igreja, a nossa época manifesta-se em movimentos de renovação. O próprio Concílio foi o maior destes movimentos, colocado pelo Papa João XXIII sob a súplica de «um Novo Pentecostes sobre a Igreja e o Mundo». Os chamados “novos movimentos e as novas comunidades eclesiais”, alguns anteriores e outros posteriores ao Concílio, são sinais de renovação. E a Nova Evangelização é, de certo modo, uma recapitulação do anseio de renovação espiritual e apostólica.

A esta luz, a presente Medita(cita)ção será feita pela leitura de alguns excertos do já citado livro de Heribert Mühlen; a que apenas se acrescentar breves referências extraídas das lições do Padre Jesus Castellano Cervera O.C.D., professor na Pontifícia Faculdade Teológica Teresianum, onde rege duas importantes cadeiras. A primeira, intitulada: “Espiritualidade Contemporânea. O dinamismo do Espírito na Igreja e no mundo do século XX antes e depois do Concílio Vaticano II”. E a segunda, intitulada: “Movimentos Eclesiais Contemporâneos. Actualidade, características, discernimento”.

3. Aspecto da mudança epocal: do “eu” para o “nós”
Procurando identificar aspectos desta mudança epocal, no respeitante à história da fé, Mühlen escreve: «numerosos movimentos, no nosso século XX, indicam claramente que, e em que sentido, terminou certa época. Todos eles têm em comum a passagem do “eu” para o “nós”, de uma espiritualidade individualista, centrada no sujeito, para a descoberta da comunidade eclesial, da Igreja como grandeza social (e já não, meramente, como sociedade composta de muitos indivíduos). (…) Se o início do chamado “tempo moderno” se caracterizou pela centração no sujeito, no “eu”, os movimentos do nosso século XX anunciam uma orientação para o “nós”.

Esta sofreu certamente a influência do processo universal da socialização… Daí brotou, por sua vez, um novo interesse pelas formas de comunidade da Igreja primitiva, e particularmente pela estrutura fundamental carismática das primeiras comunidades e pelas suas formas de oração. Em alguns desses movimentos, irrompe assim, novamente, a vitalidade pentecostal da Igreja, e isso de um modo imprevisto: a força missionária de comunhão espiritual manifesta-se sob uma forma que já se pode chamar de característica epocal» .

4. Associações eclesiais e movimentos espirituais
Heribert Mühlen continua a sua apreciação da espiritualidade do nosso tempo de mudança epocal, chamando a atenção para uma importante distinção. Escreve ele: «de um ponto de vista de sociologia religiosa, devemos distinguir entre, por um lado, associações eclesiásticas e, por outro lado, verdadeiros movimentos, que põem algo em acção até se chegar efectivamente à “segunda conversão” do indivíduo, capaz de libertá-lo para um testemunho intensivo da fé. Estas duas formas de socialização eclesial são estruturalmente distintas, muito embora sejam possíveis coincidências mútuas» .

«As associações eclesiais apelam para o direito natural do homem e, de acordo com regras que são constitucionais para o funcionamento da vida global da sociedade, pretendem intervir para servir os interesses religiosos ou eclesiásticos. (…) Nos movimentos, pelo contrário, trata-se de uma renovação que vai além do que existe e que rejeita mais ou menos claramente o que já era». Ora hoje são inegáveis a evidência e a relevância dos novos movimentos eclesiais que precisamente correspondem a uma acentuação do segundo dos dois tipos daquela distinção.

5. Os movimentos espirituais de renovação 
«Seja qual for a classificação que se dê à mensagem pentecostal de Lucas (como “tradição particular”, como ilustração simbólica de uma experiência fundamental, etc.), o conteúdo doutrinal é sempre este: a Igreja Cristã é um movimento que se baseia no testemunho missionário. Por isso, os movimentos de renovação que surgem em tempos de estagnação e decadência, ou também em tempos de transformações conjunturais, pertencem constitutivamente ao ser mais íntimo da Igreja como Igreja. A origem pentecostal da Igreja deve reactualizar-se sempre através de movimentos, se ela não quiser vir a ser mera associação de defesa do estabelecido» .

«Logo na segunda e terceira gerações cristãs, já os profetas ambulantes são expressão dessa estrutura fundamental. Igualmente, na Antiguidade cristã e na Idade Média, os grandes pregadores da penitência. Aqui se deve mencionar o apostolado da pregação das Ordens Mendicantes e a pregação da reforma da Renascença, bem como as Missões populares que nasceram depois do Concílio Tridentino. Foi principalmente S. Vicente de Paula (cerca de 1650), que lhes deu a forma que elas conservaram até ao século XX. Em 1918, foram até prescritas pelo direito canónico da Igreja Católica (ao menos de dez em dez anos: CIC, c. 1349)» .

«Certamente, a Missão Popular tradicional tinha um cunho pronunciadamente individualista (“salva a tua alma”). No nosso século XX, porém, ela centra-se nas mudanças estruturais, internas e externas, da Igreja actual, e procura também ressaltar certas coisas que estão ausentes da vida da Igreja. Cuida, por conseguinte, de chegar a uma “liturgia missionária” mais conforme a 1Cor 14,23. (…) … essa liturgia missionária vive hoje, de modo espantoso, na renovação carismática católica. (…)

Tal renovação pressupõe que cada cristão esteja consciente dos carismas que, segundo a doutrina unânime do Novo Testamento, lhe são dados para o serviço e edificação da Igreja; e pressupõe, também, que se ultrapasse o individualismo da salvação, tendo em vista uma experiência eclesial do “nós”. Ora, estas condições realizam-se ambas em grande escala na renovação carismática católica, e podem ser compreendidas como uma continuação da Missão Popular tradicional. Mas (…) também em outros movimentos se anuncia a transição do “eu” para o “nós”; e assim se torna possível a experiência da presença do Espírito Santo na “assembleia”, sob uma nova forma» .

Nesta linha de espiritualidade renovadora, Heribert Mühlen refere alguns exemplos, desde os anos 30: o Opus Deis, depois os Focolares, o Movimento dos Casais de Nossa Senhora, os Cursilhos , Schoenstatt, o Caminho Neocatecumenal, o Renovamento Carismático Católico .

6. O fenómeno da renovação: o baptismo do Espírito Santo
«O fenómeno muito complexo desta renovação [que se pode verificar desde os anos pré-Concílio e irrompe nos chamados “novos movimentos e comunidades eclesiais”], não pode ser descrito em algumas poucas proposições: abrange, com efeito, a Igreja inteira em todas as suas dimensões.

As finalidades e os elementos essenciais dos [novos] movimentos (…) estão igualmente agindo nessa renovação. Mas o que nela se destaca mais é o apelo a cada um em particular para que se entregue nova e totalmente a Deus, num acto de fé inteiramente pessoal, e numa decisão de fé amadurecida num longo processo de preparação. Este acto e este processo pode-se também chamar de “baptismo do Espírito Santo”, no sentido de Act 1,8; 11,16; Mt 3, 11. A pessoa abre-se para todos os dons de Espírito que Deus lhe queira conceder e que depois deverá usar ao serviço da Igreja» .

7. Os carismas
«O dom carismático primordial é, segundo Paulo, a caridade (1Cor 13). Porém, o primeiro é a eclosão exuberante de um novo louvor a Deus, por causa d’Ele mesmo, o qual tem simultaneamente – por ser proclamado em público e perante testemunhas – o carácter de uma anunciação, possuindo assim uma dimensão essencialmente social (Act 2,4; 11,33).

O que mais caracteriza essa renovação é a experiência da poderosa presença de Deus na assembleia dos fiéis e, consequentemente, também na vida quotidiana (cfr. 1Cor 14,25).O abismo entre fé e experiência, característica da crise universal da fé, é aqui transposto de um modo que tem todos os indícios do começo de uma nova época. A finalidade última é uma Igreja carismaticamente renovada. Já o disse o Concílio Vaticano II, certamente com bastante reserva porém com clareza suficiente:

o Espírito Santo não apenas santifica e conduz o povo de Deus, mas além disso distribui, entre os fiéis de todas as classes, dons especiais que os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos proveitosos para a renovação e edificação da Igreja (cfr. Lumen Gentium, 12)» .

8. Necessidade de renovação dos carismas, apesar dos perigos
Ainda se não reflectiu suficientemente sobre a relação entre a “auto-experiência” e a “experiência do Espírito”. Muitas inspirações, acontecimentos e casos cotidianos são atribuídos, por vezes com exagerada facilidade, à actividade directa e imediata do Espírito Santo de Cristo (desta maneira, nasceram historicamente muitas seitas).

No entanto, não se pode pôr em dúvida que se impõe urgentemente uma renovação dos carismas. No projecto “Ministérios e Serviços Pastorais na Comunidade”, preparado para o Sínodo das Dioceses alemãs, lemos o seguinte: “Comunidades vivas em que colaboram multiformes dons do Espírito e em que todos os membros juntos são portadores da responsabilidade pela salvação, eis o que constitui uma das finalidades principais da renovação eclesial”.

E o Papa Paulo VI disse, por sua vez, numa alocução de 23 de Maio de 1973, que devia nascer na humanidade fiel um “movimento verdadeiramente pneumático e, portanto, carismático”» . «… o Renovamento Carismático está reactivando formas de oração e de vida que tinham morrido desde o século IV, ou se haviam mantido insuladas dentro de uma tradição mística isolada» .

9. A Nova Evangelização e os novos movimentos
Nas suas múltiplas manifestações, a Nova Evangelização só pode visar uma renovação; mas, por sua vez, tem de partir de uma renovação. Esta renovação não é exclusivo dos novos movimentos; pelo contrário, é o movimento de renovação que, tudo renovando, também se exprime por «novos movimentos e comunidades».

Apesar de tudo, sobre a renovação e os novos movimentos tem havido uma questão em que, reconheça-se claramente, se manifestou alguma divergência. Talvez o Congresso Internacional para a Nova Evangelização tenha contribuído para minorar dificuldades a este respeito.

No seu conhecido curso, na Pontifícia Faculdade de Teologia Teresianum, sobre «Movimentos eclesiais contemporâneos. Actualidade, características, discernimento», o Padre Jesus Castellano Cervera O.C.D. ensina: «Numa Igreja sempre em movimento, existem necessariamente movimentos sob a acção do Espírito Santo» .

Para isso contribuiu muito o histórico discurso do Papa João Paulo II aos participantes do 1º Encontro Internacional dos Movimentos, em 1981. Disse o Papa João Paulo II: «Os Movimentos no seio da Igreja, Povo de Deus, exprimem aquele múltiplice movimento que é a resposta do homem à Revelação, ao Evangelho; o movimento em direcção ao próprio Deus vivo, que tanto se aproximou do homem; o movimento em direcção ao próprio íntimo, à própria consciência e ao próprio coração, o qual, no encontro com Deus, desvela a profundidade que lhe é própria; o movimento em direcção aos homens, nossos irmãos e irmãs, que Cristo coloca na estrada da nossa vida; o movimento dos filhos de Deus» .

Ainda de acordo com o Padre Jesus Castellano Cervera, «uma primeira característica que nos permite caracterizar o significado do fenómeno (dos movimentos eclesiais contemporâneos) é a prevalência da experiência espiritual, a vida vivida quer pessoalmente quer em grupo com um sério empenhamento apostólico. Um segundo aspecto é o da agregação, ou formação de grupo ou grupos, com acento sobre a comunidade e a comunhão, que é característica da espiritualidade contemporânea na Igreja. Uma terceira nota é o facto da sua contemporaneidade, a sua experiência na vida da Igreja hoje, enquanto se trata de movimentos ou grupos nascidos no nosso tempo» .

A terminar a sua introdução ao Curso dos Novos Movimentos, escreve o Padre Jesus Castellano Cervera: «No caminho da Igreja de hoje, com as novas necessidades missionárias e com a necessidade de uma qualificada presença laical, não há dúvidas de que os movimentos, chamados a viver intensamente a comunhão e a missão da Igreja, e a maturar dentro da Igreja os caminhos da história, são uma providencial presença do Espírito, que sempre vem em auxílio da sua Igreja, segundo as necessidades do momento histórico para a plenitude do Evangelho» .

E a terminar o seu Curso sobre a Espiritualidade Contemporânea, escreveu: «além disso, a Igreja deve, em toda as suas instâncias e realizações, ser mais agressiva e ofensiva, como o próprio Jesus na sua humildade e mansidão, na proposta dos valores essenciais do Evangelho. E isso exige uma Igreja mais mistagógica, mais plasmada no Espírito da palavra vivida no quotidiano, mais em comunhão, mais dependente nos projectos e nas suas realizações do mistério que tem dentro de si, sem ceder à tentação de se adequar às modas e aos princípios deste mundo» .

Mário Pinto