Uma experiência Missionária em Moçambique

Votos de utilizador:  / 0
FracoBom 

 

 

No dia 1 de Outubro, festa de Stª Teresinha, embarquei sózinha para Moçambique, no avião da L.A.M. (Linhas Aéreas Moçambicanas).

Atravessei mares e meridianos, chegando a Maputo no dia seguinte, 2.10.03, pelas 10h da manhã. Fiquei em Maputo, em casa de uns amigos até ao dia 3. Só havia avião para Pemba nesse dia. Ao acordar pensei "será que estou em Maputo ou estou a sonhar?"

Abeirei-me da janela, 5 da manhã, com um sol radioso. Às 9h parti para Pemba, com escala na Beira, onde cheguei pelas 13:30h.

O Paulo, mais a Rebeca, estavam à minha espera. Foi grande a emoção. Eu estava em África! Era um mundo novo com que tinha sonhado há muitos anos. A recepção em casa do Paulo foi do melhor, a Paulina e o Atanásio, (2 empregados) abraçaram-me, deram-me um beijo e disseram: "Bem-vinda à nossa terra mamã." 
Não poderei esquecer.

Nesse mesmo dia o Paulo partiu para o mato, a Rebeca foi comigo às irmãs Salesianas.
Conheci a irmã Ursulina onde fui com ela nesse dia às 7:30h visitar as 5 escolinhas.
    1- escolinha Stº Agostinho - Bairro Gincone (onde fiquei mais tempo)
    2- escolinha S. Carlos Luanga - Nahak Mahat
    3- escolinha de Nª Sª da Esperança - Natite
    4- escolinha de D. Bosco - Cariocó
    5- escolinha de Stª Teresinha - Leoci

Neste dia a emoção foi de mais, cada uma das escolas mais pobre que a outra, uma coisa tinham em comum: carinho, a amizade, a alegria das crianças e monitores.

No dia seguinte visitei o "lar da Esperança", um lar de meninos abandonados, bebés que chegam a pesar 1,200kg, mal nutridos nos quais se pode estudar anatomia porque se contam os ossinhos todos.
Este lar é dirigido por uma rapariga leiga italiana, a Laura, que é extraordinária! O amor, o carinho, a dedicação que ela dá a estas crianças é extraordinária.
Também acolhe raparigas em risco, meninas de 14 e 15 anos grávidas, leprosos e deficientes mentais.

Em pleno século XXI ainda há lepra nas ruas de Maputo e Pemba. Devo dizer que Pemba é uma cidade pobre, dentro da província mais pobre de Moçambique.

Moçambique é um país do 3º mundo. Vejamos a província mais pobre de Cabo Delgado e a cidade mais pobre, que tem as aldeias (freguesias) mais pobres do mundo, onde não há nada. Os meninos comem e escrevem sentados no chão, não há cadeiras nem mesas.

Um lápis é dividido por três ou quatro, e o quadro?!!! Será preciso que Nª Srª resuma todos os dons no dom do discernimento para perceber o que lá se escreve, pois está mais do que gasto.

Há meninos que nunca comeram bananas, embora seja o fruto mais barato em Moçambique. Nunca poderei esquecer aquelas carinhas lindas, sedentas de carinho e de amor, aquele povo que me acolheu de braços abertos, com um sorriso de orelha a orelha, e que sentimos que é verdadeiro.

Como digo: "Bendito seja Deus" que durante um mês, nem ouvi, nem disse, nem nunca pensei mal de ninguém. É um povo que sabe partilhar o pouco que tem, um povo que sabe amar com o coração.

Não esquecerei o alimento daquela gente, do qual eu também comi, a famosa "chima", farinha de milho cozida em água e amassada até ficar dura, que depois é partida à mão e amassada com os dedos. Molha-se num molho frito com cebola, tomate (quando há), óleo de amendoim, imaginem, junta-se-lhe folhas de feijoeiro, ou folhas de abóbora, cortada tipo caldo verde.
Só vos digo que é um rico pitéu.

Leite nem vê-lo. Não sabem que o leite de cabra é comestível, se lá tivesse mais tempo ensina-los-ia a aproveitar o leite de cabra. As crianças só comem farinha de milho feita com água e um pouco de açucar.
Enfim é outro mundo.

Não vi um único brinquedo nas escolinhas, onde as meninas brincam ás 5 pedrinhas e os rapazes improvisam um arco com um gancho e correm com ele ou com uma bola velha.

Vi bebés morrerem com diarreia e má nutrição. Vi fraldas feitas de tudo, mangas de t-shirt's, farrapos que aqui nem para o chão nós aproveitamos. Tudo aquilo que meio Portugal estraga dava para alimentar muitos meninos de Moçambique. 

A malária é uma constante, a saúde é terrivelmente descuidada, quando vão ao hospital ou lhe dão paracetamol para a febre ou o medicamento para a malária. A tuberculose reina em Moçambique. Penso que não exagero se disser que não há uma família intacta. 

Durante 30 dias vi morrer muita gente, crianças e pessoas na casa dos 30 a 40 anos. A média de vida em Moçambique é de 38 anos, quem passa esta barreira talvez chegue aos 70 anos. Não há um planeamento de saúde, nem de formação.
Tive a oportunidade de as ensinar a esterelizar a água através do sol, coisa que não sabiam.

Tudo o que possamos imaginar é pouco para descrever tanta pobreza, mas simultaneamente tanta solidariedade e partilha.

Vim apaixonadíssima por Moçambique, por aqueles meninos a quem dei todo o carinho que pude, por aquela gente tão pobre mas tão amiga.

Lá também há roubos, mas roubam para comer. A maioria das familias só come uma vez por dia.

E no meio disto tudo tem um sol maravilhoso, um céu azul e as águas do Indico cristalinas, onde se podem ver os corais no fundo do Oceano, estando nós à superfície.

Há experiências que não se contam, são realidades que se vivem.
Deixei tudo em Moçambique, desde a Bíblia, os terços, alguns livros, guiões das missões, até a roupa. Só trouxe a roupa que tinha vestida, as malas vieram umas dentro das outras.

Fiz esta viagem para visitar o meu filho Paulo, com a promessa dele, em que eu não iria ficar presa em casa. Foi a proposta que lhe fiz.
Nunca esperei que aos 68 anos realizasse um sonho da minha juventude. 

Gostaria de gritar a toda a gente, aos irmãos em Cristo, reformados e que passam os dias sem nada fazer: vão para Moçambique lá há muito a fazer.

Aos jovens: Jovens deixem a droga, as discotecas, e ide e vede e certamente vos apaixonareis muito mais do que eu.

Lá tendes um campo imenso para trabalhar, e até tendes praias com água quentinha, que é uma maravilha. Lá não há muito lixo porque também não há muito para se deitar fora.

Quando deitares fora uma batata, ou um pedaço de pão, lembrai-vos daquelas crianças que nem sabem o que é uma batata. 

Mesmo que nunca mais volte lá ficará para sempre gravado na minha mente o adeus daquelas crianças: "ti tia, não vás para Portugal!" "Volta, nós queremos que fiques cá!" Daquele povo simples que dizia: "Mamã não vás fica connosco!"

Que Deus e Nª Srª abençoem, protejam e ajudem aquelas crianças amigas, amorosas, carinhosas e aquele povo tão carente e acolhedor.
Nunca vos esquecerei!
Regressei no dia 1 de Novembro dia de Todos os Santos.
Foi o mês mais missionário que tive na minha vida.

 

Benedita da Piedade Santos Serra de Carvalho
(Liamista e Coordenadora do Grupo de Oração Cenáculo - Damaia - Lisboa)

 

 

[página anterior]