Do Cenáculo de Penumavita para a Missão Eclesial nos Espiritanos

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O Pe. Pedro Fernandes, de 39 anos de idade, entrou para a congregação dos Missionários do Espírito Santo em 1988, tendo nela professado em 1992 e nela sido ordenado padre em 1996. Desde o ano da sua ordenação presbiteral encontra-se em missão no norte de Moçambique, na paróquia de S. José de Itoculo, diocese de Nacala, Província de Nampula. Durante a sua mais recente vinda a Portugal, o Pe. Pedro concedeu à Revista Pneuma a entrevista que passamos a apresentar, desde já agradecendo a sua disponibilidade.

 

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Pe. Pedro, de que maneira o RCC influenciou a sua vida de jovem católico?


Pertencendo a uma família cristã, fui baptizado e educado na Igreja Católica, tendo feito a primeira comunhão e seguido a catequese. No entanto, durante algum tempo afastei-me da prática e da fé da Igreja e só viria a recuperar uma forte ligação à prática cristã durante a adolescência, depois dos meus pais terem conhecido o Renovamento Carismático e eu, a partir da sua influência, ter também começado a participar no grupo de oração que, nessa época, se reunia na capela da Casa Provincial dos Espiritanos, em Lisboa. Foi aí que se reacendeu e cresceu de maneira mais consistente a minha relação com Deus e o meu compromisso de Igreja. Foi também aí, por uma forte experiência de oração em comunidade, que se iniciaram os meus primeiros questionamentos vocacionais que, depois de algum tempo de discernimento e caminhada com os Espiritanos, viriam a conduzir-me à casa de formação religiosa e missionária.


Podemos, então, dizer quer o Pe. Pedro é um fruto do Renovamento? 


Em grandíssima parte, sim. Foi o lugar que Deus escolheu para, sobretudo naquela fase da minha vida, me fazer conhecer a alegria da vida cristã, a intimidade com Deus e o compromisso de fé que me permitiram escutar outros apelos. 


De que maneira o RCC influenciou a sua vida de missionário? 


O Renovamento Carismático foi sobretudo uma escola de oração: foi nessa escola que eu percebi que, sem oração e sem relação pessoal com Cristo, nada faz sentido e nenhuma acção apostólica pode ter fruto. Se a acção da Igreja, qualquer que seja, tem sentido e pode produzir frutos é precisamente pelo facto de que não se trata simplesmente de uma força apenas humana investida num projecto, por muito bom que seja, mas trata-se de uma acção humana que é movida pelo Espírito de Deus, animada por Ele e alicerçada na sua vontade. Se não for assim, "somos os mais infelizes de todos os homens", como dizia S. Paulo. Se não partimos da experiência de relação com a pessoa viva de Cristo, nada mais faz sentido. Esta experiência de fé foi-me dado fazer, como dom, já nos meus tempos de participação activa no grupo de oração carismática. De muitos modos fui redescobrindo essa realidade ao longo da minha experiência de vida religiosa e sacerdotal. Sem essa chama, não há futuro nem para a acção missionária ad gentes, nem para nenhuma iniciativa de acção da Igreja. Um outro aspecto marcante na minha experiência de Renovamento Carismático foi a dimensão da fraternidade: a inserção numa comunidade concreta de fé, com relações pessoais concretas e positivas, foi também uma grande escola do que é o ser Igreja e do que significa viver como irmãos em Cristo. 


O que sentiu quando chegou à região onde está em missão e viu aquele povo pela primeira vez? 


Encontrei um povo com uma cultura e uma história muito diferentes da cultura e da história do meu povo de origem, mas também profundamente aberto à comunhão e à experiência de fé. O povo macua, com que trabalho, é um povo maioritariamente não cristão (cerca de 90%), mas verdadeiramente sensível à dimensão espiritual. Ao mesmo tempo, por muitas razões, um padre sente-se realmente útil e necessário naquelas terras. Embora também aqui haja falta de missionários, aquilo que um jovem padre sente, ao chegar a Moçambique, é que a seara é mesmo gigantesca e os operários são mesmo tremendamente poucos. Estar lá e assim responder ao apelo de Deus é muito gratificante. Ao chegar, foram várias as dificuldades de adaptação e integração, mas penso que o mais marcante foi mesmo essa consciência de estar no lugar para onde Deus me enviou e de ter o privilégio de participar, ainda que muito modestamente, na grande obra de evangelização e na grande missão da Igreja. 

Depois de uma caminhada de vários anos, o que é que sente agora? 


Sinto-me no meu lugar, o lugar que Deus quis para mim. Como religioso, gosto de pensar que a minha casa é a obediência: estamos bem onde Deus nos quer e Deus quer-nos onde a Igreja nos manda. Ali ficarei até que a Igreja, pela minha Congregação, me mande para outro sítio. 



Cada momento que tem vivido em terras de Moçambique é importante e tem o seu significa-do muito próprio. Quer partilhar connosco alguma situação que o tenha especialmente marcado?


O contacto regular com as comunidades cristãs é sempre a grande experiência marcante. Temos setenta e sete comunidades na nossa paróquia e somos apenas três padres, nalgumas épocas dois, para atender tudo isso. Por isso, uma parte importante do nosso trabalho é a visita às comunidades: os caminhos são péssimos, em terra batida (ou às vezes nem isso), e demoramos várias horas para chegar à pequena aldeia de destino. Aí encontramos muitas vezes uma pequena multidão, muitas crianças cheias de alegria e de cor, felizes pelo encontro e felizes pela celebração que envolve a chegada dos missionários. O povo é realmente muito pobre, de um ponto de vista económico, e talvez seja esse aspecto que mais chama a atenção de quem chega pela primeira vez. Mas é sobretudo a fé e o sentido da comunhão o que mais marca estas comunidades: reunimo-nos em capelas muito simples, com paredes de terra e telhado de capim, ou às vezes debaixo das árvores; partilhamos a oração e as novidades dos últimos tempos, que os cristãos sempre fazem questão de contar; no fim, partilhamos também uma refeição habitualmente feita de "Xima" (uma bola de farinha de milho cozida em água) e um pouco de carne ou legumes. É esse, por excelência, o lugar do missionário: perto do seu povo, escutando-o e rezando com ele. É essa a situação marcante por excelência, para além de todos os episódios significativos que nos é dado viver na nossa vida de missionários. 



Qual a situação da Igreja em Moçambique, particularmente na sua paróquia? 


Com a revolução marxista, a Igreja em Moçambique sofreu uma feroz perseguição, que obrigou, naquela época, muitos missionários a retirarem-se; a guerra que devastou o país durante muitos anos veio estragar o resto. Com essa duríssima provação, as comunidades cristãs tiveram que se organizar mesmo sem a presença assídua dos seus sacerdotes, o que permitiu o desenvolvimento de uma Igreja de pequenas comunidades ministeriais: em cada comunidade, frutificaram vários serviços assegurados pelos leigos (os "ministérios"), que passam pela animação da comunidade, pela catequese, pela pastoral juvenil, pastoral dos casais, da mulher, pela animação de justiça e paz, das relações ecuménicas, de diálogo inter-religioso, etc. Hoje o trabalho dos missionários e missionárias é em grande parte formar e acompanhar esses responsáveis leigos, sem os quais as pequenas comunidades cristãs nada seriam. A Igreja em Moçambique é uma Igreja viva, cheia de gente com vontade de colaborar. Mas é também uma Igreja em primeira evangelização: as nossas comunidades são em grande parte comunidades catecumenais e são, em todo o caso, apenas um grão de areia numa sociedade que na sua maioria não é cristã e que atravessa enormes problemas de desenvolvimento económico, de justiça social e de moral pública. Neste mar de desafios e dificuldades, é muito grande a responsabilidade que a Igreja tem, enquanto "sal da terra e luz do mundo". 


Qual a expressão do RCC nessas terras de missão? 
Tanto quanto sei, existem grupos de oração em vários lugares de Moçambique. No entanto, o Renovamento tem ainda um grande caminho a fazer neste país. A organização pastoral da Igreja em Moçambique, tendo partido muito destas pequenas comunidades ministeriais, não desenvolveu, no entanto, um grande espaço para os movimentos e outros dinamismos eclesiais. Talvez se esteja a entrar agora numa nova era, em que o Renovamento Carismático, a par de outras sensibilidades de Igreja e de outros movimentos, poderá dar o seu precioso contributo ao crescimento espiritual desta Igreja. 


Como considera o papel do RCC na Igreja Católica actual?


A Igreja precisa de reavivar o fervor e a consciência profunda da acção de Deus e do Seu Espírito no seio das comunidades e das pessoas. A sua presença no meio da sociedade plural em que vivemos deveria ser uma presença inspiradora, iluminadora, de gente que tem fé, que conhece o tesouro que guarda e que investe na comunicação desse tesouro. Só uma profunda experiência de oração e de descoberta da acção de Deus na vida de cada um poderá levar a um tal investimen-to da vida toda ao serviço de Cristo e do seu Evangelho. Ninguém dá a vida por um conjunto de ideias; a relação pessoal e comunitária com o Deus vivo, com a pessoa viva de Cristo, é decisiva para que a nossa vida se ilumine e o nosso testemunho seja credível. Julgo que será por aí que o Renovamento tem muito a dar à Igreja, enquanto oportunidade de vivência séria da oração, de busca da vontade de Deus, de disponibilidade ao Espírito e aos seus dons. 


Nesta sua última passagem pela assembleia Pneumavita, quais os aspectos que mais o tocaram? 


Uma das coisas que sempre me toca quando revisito esta assembleia carismática é a fidelidade, a alegria e a perseverança de todos estes irmãos, fielmente reunidos todas as semanas. É gente vinda de várias partes de Lisboa, e às vezes até de lugares distantes da cidade, e que mes-mo assim persiste na sua participação na vida desta comunidade de oração. Isso, só por si, tem que fazer pensar: se tantas das nossas comunidades paroquiais, mesmo ao Domingo, têm dificuldade em encher a Igreja, como se explica que esta grande igreja de Santa Isabel esteja sempre cheia, e às vezes muito cheia, com estes cristãos vindos de todo o lado? Qualquer forma de triunfalismo espiritual ou eclesial seria descabida e estéril; mas perceber o que se passa pode ajudar a Igreja toda a crescer na sua capacidade de responder às reais necessidades espirituais dos cristãos. A assembleia Pneumavita erradia alegria, fé, entusiasmo e convicção na vida cristã e isto é sempre tocante. Ao mesmo tempo, mantém-se aquela dimensão de fraternidade calorosa que tanto caracteriza as comunidades carismáticas: esta fraternidade brota da oração e de uma experiência de Deus que é percebido como Pai, como amor que convida ao amor, como fonte de paz, que impele à comunicação da paz. Isso é muito perceptível naquela assembleia e há que dar graças a Deus por todos esses sinais de vitalidade cristã. 



Da sua vivência na assembleia Pneumavita e do conhecimento que tem do RCC, queríamos pedir-lhe algumas palavras de incentivo para a nossa caminhada nesta espiritualidade.


Só posso dar graças a Deus por toda a experiência de fé, de fraternidade e de oração que já estão a viver. Peço ao Senhor que essa experiência dê cada vez mais frutos na vida pessoal e familiar de cada um e também na inserção de cada um na sua comunidade paroquial e na sociedade. A experiência de Deus verifica a sua autenticidade nos frutos que produz frutos de seriedade do compromisso cristão em todas as dimensões da vida: no trabalho, na família, nas relações com os outros, em todas as situações. A riqueza que a assembleia Pneumavita experimenta todas as ter-ças-feiras tem que extravasar a igreja de Santa Isabel e frutificar de modo concreto na Igreja e no mundo, com muita humildade e espírito de serviço, ao lado de todos os outros irmãos da paróquia ou de outros movimentos que, embora não fazendo a mesma experiência de oração carismática, fazem a mesma experiência de vida no Espírito e de inserção na Igreja. 



Nos tempos que atravessamos, em que tantas crises se perfilam no horizonte, que mensagem de esperança é que o Pe. Pedro, que é um jovem, gostaria de dizer aos nossos jovens? 


De facto, é evidente que existem na sociedade em que vivemos muitas situações de crise e muitas razões para desanimar. No entanto, nós, cristãos, temos a grande notícia que transforma em alegria todas as tristezas: Cristo venceu o mundo! Ele mesmo disse repetidamente aos seus discípulos: "Não tenham medo!" Nada nos pode vencer, porque em Cristo já somos vencedores, em Cristo que venceu a morte e que encheu de luz todas as trevas da vida humana. Por isso, a nossa grande tábua de salvação é mesmo a confiança em Deus: confiança de que Deus me ama, quer o melhor para mim, dá sentido às minhas dificuldades, não me abandona nos meus fracassos nem desiste de mim. Esta confiança permite-nos escutar a voz de Deus como uma fonte de vida e de verdadeira felicidade para nós e procurar a sua vontade como o nosso verdadeiro caminho para crescer em liberdade. 
"O que é que Deus quer de mim?" Essa devia ser a grande pergunta de cada jovem, uma pergunta aberta ao futuro, disponível para qualquer resposta que Deus nos dê, pelos caminhos da nossa vida, da nossa oração, da nossa doação à Igreja. Essa é uma aventura cheia de futuro e cheia de alegria: abrir a porta a Jesus Cristo, deixá-lo entrar e deixá-lo conduzir as nossas vidas. Um lugar excelente, e incontornável, para esse encontro com Jesus é a oração diária, com a Palavra de Deus, escutando a sua voz que nos convida a mais compromisso e a mais doação. Aceitar entrar nessa barca será a nossa grande opção de felicidade.

Obrigada, Pe. Pedro, pelas suas palavras amigas e pelo entusiasmo que nos transmi-tiu. Bem haja pelo tempo que passou connosco. Ficaremos unidos e rezaremos sempre por si, pelo seu ministério e pela sua missão. Que o Espírito Santo continue a fecundar o seu trabalho e lhe dê muita alegria e criatividade.

 

Entrevista conduzida por
Isabel Moraes Marques

 

 

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