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 Cardeal Ratzinger e o Renovamento Carismático

 Por Vittorio Messori

 

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“Do Diabo, disse alguém, acaba-se sempre falando demais ou muito pouco.”Denunciando o muito pouco de hoje, o Cardeal insiste em tornar ao risco oposto aodemais“O mistério da iniquidade deve ser inserido na perspectiva cristã fundamental, a da Ressurreição de Jesus Cristo e da vitória sobre as Potências do Mal. Em tal ótica, a liberdade do cristão e a sua tranquila segurança ‘que afasta o temor’ (1Jo 4, 18) assumem toda a sua dimensão: a verdade exclui o temor e, por isso mesmo, permite reconhecer a potência do Maligno. Se a ambiguidade é a característica do fenômeno demoníaco, a existência do cristão no combate contra o Demônio consiste em viver, dia após dia, na claridade da luz da fé”.

 

Foi observado, além disso, que, para não desequilibrar a verdade católica, deve ser recordada aos crentes a outra face da verdade que a Igreja, de acordo com a Escritura, sempre professou, isto é, a existência dos anjos bons de Deus, aqueles espíritos que vivem em comunhão com os homens, tendo como função ajudá-los na luta cotidiana.

 

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 Naturalmente, tocamos aqui o reino do “escandaloso” para uma mentalidade moderna que julga tudo saber. Mas na fé tout se tient (tudo se encaixa), não se pode isolar ou retirar tijolos do complexo do edifício: aos anjos misteriosamente “decaídos” e aos quais foi concedido um obscuro papel de tentadores junta-se “a visão luminosa de um povo espiritual unido aos homens na caridade. Um mundo que tem amplo espaço na liturgia do Ocidente e do Oriente cristãos e do qual faz parte a confiança naquela ulterior prova de solicitude de Deus pelos homens que é o ‘anjo da guarda’, dado a cada um e ao qual se dirige uma das orações mais amadas e difundidas da cristandade. É uma presença benéfica que a consciência do povo de Deus sempre cultivou como um sinal concreto e ulterior da Providência, do interesse do Pai pelos seus filhos”.

Mas o Cardeal sublinha que “a Realidade oposta à categoria do demoníaco é a Terceira Pessoa da Trindade, é o Espírito Santo”. Explica: “Satanás é, por excelência, o desagregador, o dissociador de toda relação: a do homem consigo mesmo e a dos homens entre si. É, portanto, o contrário exato do Espírito Santo, ‘Intermediário’ absoluto, que assegura a Relação na qual todas as outras se fundamentam e da qual derivam: a Relação trinitária, por meio da qual o Pai e o Filho constituem uma só coisa, o único Deus na unidade do Espírito”.

Hoje, observo eu, processa-se uma redescoberta do Espírito Santo, talvez esquecido demais pela teologia ocidental. É uma redescoberta não apenas teórica, mas que envolve crescentes massas populares nos movimentos chamados de “Renovação carismática” ou “Renovação no Espírito”.

 

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“De fato”, confirma ele. “O período pós-conciliar pareceu corresponder bem pouco às esperanças de João XXIII, que esperava um ‘novo Pentecostes’. Sua oração, entretanto, não ficou sem resposta: no coração de um mundo feito árido pelo ceticismo racionalista, nasceu uma nova experiência do Espírito Santo que assumiu a amplidão de uma moção de renovação em escala mundial. Tudo o que o Novo Testamento escreve a propósito dos carismas que apareceram como sinais visíveis da vinda do Espírito não é mais história antiga apenas, encerrada para sempre: essa história torna-se hoje vibrante de atualidade”.

Não é por acaso, sublinha ele, em confirmação de sua visão do Espírito como antítese do demoníaco, que, “enquanto uma teologia reducionista trata o Demônio e o mundo dos espíritos maus como uma mera etiqueta, no contexto da Renovação surgiu uma nova e concreta tomada de consciência das Potências do mal, unida, bem entendido, à serena certeza da Potência de Cristo, que a todos submete”.

O dever institucional do Cardeal é, porém — nisto como em outras coisas — examinar as possíveis outras faces da medalha. No que diz respeito ao movimento carismático, ele adverte: “É preciso, antes de tudo, salvaguardar o equilíbrio, evitar uma ênfase exclusiva sobre o Espírito, que, como lembra o próprio Jesus, não ‘fala por si mesmo’, mas vive e age na vida trinitária”. Semelhante ênfase, diz ele, “poderia levar a opor, a uma Igreja organizada sobre a hierarquia (fundamentada, por sua vez, em Cristo), uma outra Igreja, ‘carismática’, baseada apenas na ‘liberdade do Espírito’, uma Igreja que se considere a si mesma como ‘acontecimento’ sempre renovado”.

 

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“Salvaguardar o equilíbrio”, continua, “significa também manter o justo relacionamento entre instituição e carisma, entre fé comum da Igreja e experiência pessoal. Uma fé dogmática sem experiência pessoal permanece vazia; uma mera experiência sem ligação com a fé da Igreja é cega. Enfim, não é o ‘nós’ do grupo que conta, e sim o grande ‘nós’ da grande Igreja universal. Só esta pode fornecer o contexto adequado para ‘não extinguir o Espírito e manter o que é bom’, segundo a exortação do Apóstolo”.

Além disso, para atingir os últimos recônditos dos “riscos”, “é preciso precaver-se de um ecumenismo fácil demais, pelo qual grupos carismáticos católicos podem perder de vista a sua unidade e ligar-se de modo acrítico a formas de pentecostalismo de origem não-católica, em nome exatamente do ‘Espírito’, visto como oposto à ‘instituição’. Os grupos católicos da Renovação no Espírito devem, pois, mais do que nunca sentire cum Ecclesia, agir sempre em comunhão com o bispo, também para evitar os danos que surgem toda vez que a escritura é desenraizada do seu contexto comunitário: o fundamentalismo, o esoterismo e o sectarismo”.

Após ter advertido para os riscos, o Prefeito vê, no entanto, favoravelmente o irromper na ribalta da Igreja do movimento de Renovação no Espírito?

“Certamente”, confirma ele, “trata-se de uma esperança, de um positivo sinal dos tempos, de um dom de Deus à nossa época. É a redescoberta da alegria e da riqueza da oração contra teorias e práxis sempre mais enrijecidas e ressecadas no racionalismo secularizado. Eu mesmo constatei pessoalmente a sua eficácia: em Munique, algumas boas vocações ao sacerdócio vieram-me do movimento. Como em todas as realidades entregues ao homem, dizia eu, também esta é exposta a equívocos, a mal-entendidos e a exageros. O perigo, porém, seria ver apenas os riscos, e não o dom que nos é oferecido pelo Espírito. A necessária cautela não muda, portanto, o juízo positivo do conjunto”.

 

(Trecho extraído do livro-entrevista “Rapporto sulla fede”, publicado no Brasil como “A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga”).

 

 

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