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A Virgem estava presente no cenáculo (Act. 1,14). Lucas menciona-a explicitamente na comunidade reunida no cenáculo: a única que ele nomeia pessoalmente junto dos Doze, a única "entre as mulheres" (Lc. 1,42).

 

1. Maria é o modelo da Igreja na sua receptividade ao Espírito Santo, que projecta Cristo no povo de Deus. Este papel de protótipo impõe-se numa comparação: Lucas, historiador do nascimento da Igreja, nos Actos 1-2, é também o evangelista do nascimento de Cristo em Lc 1-2. Ele apresenta aí a Anunciação como um proto-pentecostes, o Pentecostes de Maria. Os termos que ele emprega para caracterizar os dois acontecimentos são idênticos: "O Espírito Santo descerá sobre vós" (Act.1,8).


Será isto intencional? Mais profundamente, é estrutural. A vinda do Espírito suscita o mesmo arrebatamento: visitação para Maria, missão dos Apóstolos nos Actos. Em ambas as narrações, as personalidades saem do lugar fechado onde se realizou a manifestação do Espírito: a casa de Maria (Lc.1,28) e a casa do Pentecostes (Act 1,13;2,2). Em ambos os casos, a vinda do Espírito é seguida de um testemunho à base de louvor: o Magnificat (Lc.1,46-56), e a explosão de louvor dos discípulos enfrentando a multidão (Act.2,4-13).


A comparação não é, portanto, artificial. Maria é o protótipo da Igreja na sua nova relação com o Espírito Santo, para a interiorização de Cristo e o seu nascimento no mundo.


2. É Maria glossólala (pessoa que reza em línguas)?

Maria é, neste sentido, o protótipo, não só dos carismas em geral, mas também da oração em línguas que caracteriza o Movimento do Pentecostes. Onde Lucas diz: "TODOS ... começaram a falar noutras línguas", pode-se objectar a sua tendência para a generalização, ao empregar liricamente esta palavra: "todos". Contudo, no grupo mencinado em Actos 1,13-14, Maria é a única personagem nomeadamente designada com os Apóstolos. Ela aparece, portanto, implicada em primeiro plano nesta oração de louvor colectiva (Act 2,4-13) bem distinta da exortação de Pedro (2,14-36).


3. Será ela também profeta ?

O que confirma e precisa esta conclusão é que Lucas, autor do Evangelho da infância e dos Actos 1-2, manifesta Maria no exercício do carisma da profecia: quando ela canta o Magnificat (Lucas 1,46-56), precisamente depois da efusão do Espírito que "desceu sobre ela". É de sublinhar que se trata de uma profecia tecida de expressões Bíblicas, análoga ao tipo de profecias que renascem hoje e que são também poemas à base do louvor.


Em resumo, o importante é que Maria é o protótipo da Igreja, e mais especialmente o modelo na sua relação com o Espírito e do impulso carismático de toda a vida eclesial, posta em evidência pela teologia pós-conciliar.


O Renovamento do Pentecostes reencontra também a Virgem Maria, como modelo pneumatológico e carismático, como profeta e glossólala, numa confirmação da mesma certeza: a Virgem Maria tem um lugar, discreto sem dúvida, mas importante, incontestável, nas fundações do cristianismo e na Comunhão dos Santos.

 

Maria exclamou :

"A minha alma glorifica o Senhor, e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilde condição da sua serva.
De facto, desde agora todas as gerações me chamarão ditosa, porque me fez grandes coisas o Ominipotente.
É Santo o Seu nome e a Sua misericórdia vai de geração em geração para aqueles que O temem .... 
(Lc. 1,46-50)

 

René Laurentin (teólogo séc. XX)
in "Pentecotisme chez les Catholiques" (pub.
Pneuma, nº3)

 

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