A Fé

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ensinamento fe 2 

 

Boa noite

Todos os dias me lembro do meu querido amigo Pe Lapa e aqui convosco, com as irmãs e irmãos da Pneumavita, torna-se ainda mais forte e viva essa lembrança.

Peço-vos que se unam comigo rezando uma Avé Maria pelo Pe José da Lapa, pedindo ao Senhor por ele e pedindo-lhe a sua intercessão junto de Deus por todos nós e pelas nossas famílias, bem como pela Pneumavita que em boa hora o Espírito Santo o inspirou a fundar.

Quando rezava pedindo ao Espírito Santo que dissesse ao meu coração o que queria que eu falasse, ou melhor, meditasse convosco, a palavra que me vinha ao coração era sempre: Fé!

 

A Fé parece a todos nós, de uma forma geral, um dado adquirido, ou seja, algo que temos, que nos foi dado pela graça de Deus a quem pedimos muitas vezes que nos aumente a Fé.

Mas será que verdadeiramente vivemos a Fé, a total dimensão da virtude da Fé, graça de Deus para todos aqueles que d’Ele se aproximam de coração aberto, ou que tentam conhecê-Lo seja de que modo for?

Muitas vezes ouvimos pessoas dizer, (se calhar nós próprios o dizemos), que têm muita fé que vai acontecer uma determinada coisa, por exemplo o Benfica ganhar o campeonato, (eu nisso não tenho fé nenhuma porque sou adepto do Porto), ou que determinado partido vai ganhar as eleições, ou até, que é preciso ter fé para ganharmos ou alcançarmos isto ou aquilo.

 

Ora esta não é a Fé, virtude teologal, como aprendemos em Igreja, mas apenas e tão só, querer acreditar, vá lá, ter esperança que algo que desejamos vai acontecer.

Ouvimos muitas pessoas dizer que têm muita fé que Deus lhes vai conceder isto ou aquilo, uma cura de uma doença, a resolução de uma situação difícil, um trabalho melhor, etc.

Mas esta fé, não é verdadeiramente uma Fé em Deus, mas sim naquilo que achamos ou queremos acreditar Deus nos concederá.

Ou seja, se aquilo que desejamos não acontece a fé morre, porque essa fé era baseada na nossa vontade, naquilo que queremos e achamos melhor para nós, para alguns quase um negócio, ou seja, Deus dá-me o que eu quero e eu acredito n’Ele, Deus não me concede isso e eu não acredito, por isso mesmo tantos vão procurar as videntes, as magias, os espíritas, etc., ou seja, vão procurar fora de Deus aquilo que desejam para si.

 

ensinamento fe 1

 

 

Esta não é a Fé em Deus, mas sim uma fé apenas à nossa dimensão humana, ou seja, não ultrapassa o obter coisas, não ultrapassa as coisas efémeras e como tal é uma fé que morre, quando acontece algo que não gostamos ou que nos contraria.

Então mas a Fé em Deus não nos leva a acreditar que Ele nos pode conceder o que Lhe pedimos?

Claro que sim! Mas numa dimensão diferente, isto é, primeiro acreditamos em Deus, que Ele tudo pode, que nos ama com amor infinito e que conhecendo-nos como nós não nos conhecemos, só Ele sabe o que é melhor para nós e assim, na vivência desta Fé, os nossos pedidos têm sempre uma condição extremamente importante e que é pedir segundo a vontade de Deus.

Assim quando estamos a pedir, estamos a reconhecer que só Deus sabe o que é melhor para nós, e essa Fé leva-nos a dar graças a Deus porque nos concedeu o que pedimos ou porque Ele não nos concedeu o que pedimos.

Ou seja, essa Fé leva-nos a dar graças a Deus em tudo o que nos acontece, mesmo naquilo que nos parece ser menos bom segundo os nossos desejos.

 

Como aliás nos diz São Paulo «Em tudo dai graças.» (1 Tes 5, 18)

Mas a Fé em Deus vai muito para além do pedir “coisas”, porque vai muito para além da nossa humanidade, do nosso mundo.

A Fé verdadeira transcende-nos, leva-nos a acreditar e a ver, aquilo que a razão pura não consegue acreditar nem ver.

E isto não significa que a Fé e a Razão sejam antagónicas.

De modo nenhum, porque pela razão podemos acreditar que existe um deus, um ser superior que foi o criador de todas as coisas, isto pela observação das maravilhas do mundo, da maravilha que é o próprio homem, etc., etc.

Mas essa Razão precisa de ser iluminada pela Fé, para que ultrapasse o simples reconhecimento da existência de um deus, para que se torne verdade para o homem o Deus que se revelou aos homens desde o Antigo Testamento até Jesus Cristo, Revelação Final e completa de Deus, como nos ensina a Igreja.

 

É essa Fé que nos leva a acreditar, e acreditando, ver!

São Tomé não estava com os Apóstolos quando Cristo lhes apareceu no 1º dia da semana, já depois da Ressurreição.

Porque não viu com os seus olhos, porque não tocou com as suas mãos, ele não conseguiu acreditar.

Disse mesmo que se não visse e não tocasse, não acreditaria.

Somos tantas vezes assim!

Mas Tomé é um crente, é um homem de Deus, é um homem que anseia por esse encontro com Deus e por isso mesmo tem o seu coração aberto à presença de Deus.

Por isso mesmo, quando Jesus Cristo lhes aparece novamente e o chama para O ver, para Lhe tocar, Tomé já não faz nada disso, mas nesse mesmo momento faz uma profissão de Fé que até então não tinha sido feita por nenhum dos Apóstolos, pois reconhece Jesus Cristo como: “Meu Senhor e meu Deus!»

 

Tomé, perante Jesus Cristo, acreditou e como acreditou pode ver, ou seja, Jesus Cristo já não era só aquele homem extraordinário que ele tinha seguido, Jesus Cristo era/é Deus.

É esta Fé que Tomé tão bem nos mostra, que nós, que acreditamos, devemos ansiar ter.

É a Fé que nos leva a acreditar que na hóstia consagrada está verdadeiramente Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

E ao acreditarmos pela Fé, vemos também com os olhos do coração.

Em muitas passagens dos Evangelhos, lemos que Jesus se admira com a fé daqueles que d’Ele se aproximam e a muitos diz no fim: vai, a tua fé te salvou!

Um caso flagrante é o do paralítico que aqueles 4 homens levam à sua presença, como podemos ler em São Lucas capítulo 5 versículo 17 e seguintes.

 

Coloquemo-nos na posição do paralítico e até daqueles 4 homens, que são no fundo aqueles que intercedem por ele.

Pedimos a Deus a cura de uma doença, a resolução de uma situação, e Ele aproxima-se de nós e diz-nos: «os teus pecados estão perdoados.», exatamente como disse àqueles homens.

Parece-me que alguns de nós, (eu também, claro), diríamos qualquer coisa como: “Ah, Senhor muito obrigado, mas o que eu queria mesmo era andar, porque sou paralítico!”

Mas qual é a maior prisão: o pecado que escraviza e mata, ou a paralisia que impede de andar fisicamente, mas não impede de viver o caminho da salvação?

Sabemos que Jesus, por causa da maledicência de alguns que ali estavam, curou a paralisia daquele homem.

Mas esse foi, desculpem, um milagre secundário, um milagre que permitiu ao homem andar pelas suas pernas.

O outro milagre, muito mais profundo e importante foi o perdão dos pecados, porque esse permitiu ao homem o caminhar espiritual em comunhão com Deus.

 

E tudo por causa da Fé daqueles homens.

A Fé verdadeira leva-nos a acreditar, para além de qualquer dúvida, que aquilo que Deus permite nas nossas vidas unidas a Ele, é tudo o que precisamos e é melhor para nós, sobretudo para a nossa salvação.

E esta Fé, (a única e verdadeira Fé), leva-me a uma relação tão única, pessoal e intima com Deus, que, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo nos momentos em que nada me é concedido, mesmo nos momentos em que Deus parece muito longe, a aceitação de tudo é uma constante certeza de fazer a vontade de Deus, e assim sendo, saber intimamente que Ele nunca me abandona.

(E dizia: «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres.» Mc 14,36),

Por isso mesmo esses momentos não são nunca um fim, mas um eterno recomeço na procura da Sua vontade.

Por isso a confiança e a esperança não morrem, mas estão sempre vivas, porque Ele faz novas todas as coisas, («Eu renovo todas as coisas.»Ap 21,5), e se são sempre novas, também a vida é abundante e cheia de sentido, porque vive no sentido da Fé.

 

Diz-nos o Catecismo da Igreja Católica:

150. Antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus. Enquanto adesão pessoal a Deus e assentimento à verdade por Ele revelada, a fé cristã difere da fé numa pessoa humana. É justo e bom confiar totalmente em Deus e crer absolutamente no que Ele diz. Seria vão e falso ter semelhante fé numa criatura.

Poderia assim parecer que a fé era algo que partia do homem para Deus e que apenas dependia do homem “adquirir” essa fé e com ela viver.

Mas a verdade é que, se a fé é a adesão pessoal do homem a Deus, ela não deixa de ser sempre um dom de Deus dado ao homem, que procura Deus.

 

ensinamento fe 3

 

Quando Pedro questionado por Jesus sobre quem Ele era, Lhe responde: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo» (Mt 16,16), Jesus Cristo logo lhe diz: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu.» (Mt 16,17), afirmando que Pedro só podia ter tido aquela resposta, como resposta ao dom da fé nele incutido por Deus.

Assim, podemos exprimir com verdade que a fé, sendo um acto humano, (realizado na liberdade do homem), não deixa de ser, sempre, um dom de Deus, que «só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo.» (Cat. Igr. Cat. 154)

A Fé verdadeira é então uma vivência de Deus, em comunhão com Deus, em aceitação de Deus e de tudo aquilo que Ele concede às nossas vidas.

É vivendo esta Fé, a única verdadeira, que podemos entender o «deixa tudo e segue-me», o «Amar a Deus acima de todas as coisas», porque desprendidos de tudo, amando a Deus primeiro, estamos disponíveis para os outros e assim podemos amá-los com o amor de Deus em nós.

Pois sendo a fé um acto pessoal, (suscitado pela graça de Deus), não é, não deve ser, um acto isolado, pois este acto apenas tem sentido vivido em comunidade, (a Igreja), porque se cremos em Deus, na Sua revelação, na plenitude da Sua revelação, Jesus Cristo, e assim sendo, no seu amor pelos homens e queremos viver esse amor, não podemos deixar de o viver com os outros e para os outros.

Termino com um testemunho pessoal.

Como muitos de vós sabeis, porque já me ouvistes dar testemunho, vivi cerca de 20 e tal anos afastado de Deus e da Igreja.

Fui no entanto educado na religião católica pelos meus pais, e frequentei sempre colégios católicos onde tive toda a catequese e formação católica que, naquele tempo era bem rigorosa, por isso posso afirmar que em comparação com hoje, eu naquela altura era um “licenciado” em religião.

 

Há uns anos atrás, numa conversa, um sacerdote perguntava-me se nesse tempo de juventude eu tinha fé.

Depois de pensar um pouco, e fazendo a comparação com aquilo que então vivia em relação a Deus e ainda hoje vivo, respondi-lhe que achava que não, que não tinha fé.

Conhecia tudo, sabia tudo, não faltava à Missa de Domingo, nem às orações, nem à Confissão, nem à Comunhão, mas comparando com hoje achava que não tinha fé, porque tudo isso era vivido sem grande entusiasmo, sem grande vontade, ou seja, mais por tradição e rotina, do que por acreditar verdadeiramente em Deus e na Sua presença constante na minha vida.

Com isto não quero de modo nenhum dizer que toda essa aprendizagem, toda essa catequese, todo esse ensinamento e testemunho dos meus pais e irmãs, não foi importante, diria crucial, para eu ser quem sou hoje, ou seja um cristão católico empenhado em Igreja.

Aliás todo esse conhecimento, sem dúvida por graça do Espírito Santo, «esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.» (Jo 14, 26), regressou à minha memória e à minha vida assim que me reaproximei de Deus e da Igreja.

Mesmo olhando para o tempo em que estava afastado, por exemplo quando estive na Guiné, tenho a certeza de que todos os dias praticamente rezava as 3 Avé Maria devoção que os meus pais me tinham ensinado.

 

Porquê? Por fé? Não com certeza, mas apenas por repetição e talvez até por medo que alguma coisa me acontecesse.

Percebo hoje que a Fé que o Senhor derrama em mim é bem diferente de então, pois para além de muitos outros sinais, já passei por situações dramáticas, terríveis, e o meu coração, a minha vida nem sequer se abalaram um pouco, pois a Fé dava-me, dá-me a certeza de que tudo aquilo que Ele permite na minha vida tem um fim que Ele muito bem conhece e é bom para mim, por isso mesmo me entrego todos os dias a Ele, não deixando de lutar para resolução de todas essas situações.

Peçamos portanto todos os dias o Espírito Santo e peçamos todos os dias ao Espírito Santo o dom da Fé, da Fé que nos leva a dizer prostrados: «Meu Senhor e meu Deus!»

 

E quando intercedermos por alguém, temos sempre aquela perfeita oração de petição do leproso que se aproxima de Jesus, como nos conta São Mateus 8, 2

«Senhor, se quiseres, podes purificar-me.»

Reconheçamos Deus, o Senhor, colocando-nos segundo a sua vontade, se quiseres, e pedindo-lhe a purificação que vai para além das curas físicas ou da resolução de situações, pois implica a vontade de arrependimento dos pecados, podes purificar-me.

Assim, podemos rezar esta oração, colocando nela todos os outros:

«Senhor, se quiseres, podes purificar tal pessoa em tal situação.»

Que o Senhor nos abençoe e nos conceda abundantemente o Dom da Fé.

 

 

Monte Real, 14 de Julho de 2015

Joaquim Mexia Alves

 

 

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