Os meus Encontros com o Pe. José da Lapa

 

 

1 – Os primeiros contactos 

Não posso precisar exactamente quando tive o primeiro encontro com o Pe. José da Lapa. Mas foi entre 1971 e 1976. Durante esses anos, vivia eu no seminário comboniano da Maia, onde trabalhava numa equipa comboniana mista, como animador missionário e promotor vocacional. Nesse tempo, também fazia parte duma grande equipa diocesana de pastoral juvenil e vocacional, na diocese do Porto. Éramos mais de trinta pessoas, religiosos, religiosas, padres diocesanos e leigos. Foi nesse tempo que eu conheci o Pe. Dr. Serafim, com quem estabeleci uma boa amizade, que se prolonga até hoje — mais tarde, foi consagrado Bispo e foi-lhe confiada a diocese de Leiria - Fátima. 

Durante esses cinco anos, encontrei-me várias vezes com o Pe. Lapa, que então era também animador missionário dos Missionários do Espírito Santo, pregador de retiros para a LIAM e outros grupos. Também me lembro dele quando trabalhava no Secretariado da CNIR (Conferência Nacional dos Institutos Religiosos). A ideia que me ficou do Pe. Lapa é que era um homem muito activo, sempre jovial e bem-disposto. Gostava muito da brincadeira; tinha sempre umas piadas a contar, para dispor bem a companhia. Foi a partir desses tempos que se estabeleceu a amizade entre nós.

Em l976, parti, como missionário, para o Congo, onde permaneci até 1981. No ano lectivo de 1981-1982, estive em Roma a fazer um curso de preparação para ser mestre de noviços em Portugal. Durante esse ano, continuei a frequentar o grupo Maria (um Grupo do Renovamento Carismático Católico), que já tinha conhecido em 1975, onde, salvo erro, o Pe. Lapa tinha recebido a «Efusão do Espírito» em 1974. Foi aí que, a 8 de Dezembro de 1981, também eu recebi a «Efusão do Espírito». 


2 – Os encontros pessoais depois da efusão do Espírito 

Quando cheguei a Portugal, no verão de 1982, encontrei-me em Fátima com o Pe. Lapa. Foi então que soubemos, um do outro, que tínhamos recebido a efusão do Espírito. Ele falou-me da sua actividade no seio do Renovamento Carismático Católico (RCC), desde 1974, quando em Fátima tinham dado início oficial ao RCC em Portugal. Soube então que, já nas Termas de Monte Real, um grupo, que vim a conhecer mais tarde, se reunia com ele. 

Como não podia deixar de ser, quando uma pessoa se deixa possuir pelo Espírito, todas as suas actividades passam a ser marcados por essa presença. Foi o que sucedeu com o Pe. Lapa. Mas é claro que isso nem sempre é bem aceite pelos conservadores apegados ao passado e que têm sempre medo da novidade do Espírito. Não é, pois, de admirar que o Pe. Lapa tenha encontrado muitas dificuldades para poder dar esse cunho do Espírito Santo às suas actividades de sempre.

Mas isso já vem dos primeiros tempos da Igreja! Basta pensar em S. Paulo. Primeiro, a dificuldade que ele teve para aceitar a pessoa de Jesus Cristo e o seu ensinamento, a ponto de perseguir os cristãos. Depois, os obstáculos que ele encontrou para convencer os judeus, convertidos ao cristianismo, de que os pagãos também tinham o direito de entrar na Igreja, sem passar pelo judaísmo. 

O que admirei sempre no Pe. Lapa foi a persistência com que ele remou contra a corrente, para vencer todos os obstáculos que se opunham à aceitação do Renovamento Carismático. Graças a essa tenacidade, podemos hoje contar com a presença do Renovamento Carismático em todas as dioceses de Portugal. 


3 – Quando eu era assistente diocesano do RCC em Santarém 

Em Setembro de 1982, os meus superiores mandaram-me como mestre de noviços para Santarém. Como tinha recebido a efusão do Espírito poucos meses antes, essa chama não se podia apagar. Queria continuar no seio do Renovamento Carismático. Os meus superiores, ao início, tiveram um pouco de medo e recomendaram-me que não deixasse de parte o meu trabalho, em favor do Renovamento Carismático. O que eu procurei sempre respeitar.

Em Santarém, encontrei o Carlos Fernandes, que dirigia um pequeno grupo, ao qual me associei e comecei a frequentar, sempre que me encontrasse em Santarém. Esse grupo foi crescendo e começou a alargar-se a outras paróquias da Diocese. O senhor Bispo, D. António Francisco, nomeou-me então assistente diocesano do RCC. 

Todas as vezes que havia assembleias diocesanas do RCC, encontrava-me em Fátima com o Pe. Lapa, e falávamos longamente das nossas experiências, trocando impressões sobre o que se estava a passar por esse Portugal além. 

Foi sobretudo a partir desse tempo que eu comecei a ter contactos mais frequentes com o Pe. Lapa. Precisava das orientações dele e que ele me guiasse, para que os grupos criados a partir de Santarém não se desligassem dos grupos criados a partir do Grupo Pneumavita. A minha preocupação era que houvesse unidade entre os diferentes grupos que começavam a nascer por toda a parte. 

Durante esses anos, 1982-1989, pude aprender muito da sabedoria e da experiência do Pe. Lapa. Cada vez que me encontrava com ele, falávamos profundamente das nossas experiências no seio do RCC. Ele mostrou sempre muita paciência para escutar as minhas dificuldades e me encaminhar pela estrada certa. 

Algumas vezes fui chamado a Lisboa pela equipa diocesana do RCC, para dar formação aos líderes dos grupos da diocese. Procurei sempre encontrar-me com o Pe. Lapa, para nos pormos de acordo sobre a orientação a dar a esses líderes, para que não houvesse desvios e o RCC seguisse por um caminho bem seguro. Em tudo isso, ele mostrou sempre uma grande sabedoria, que me dava segurança no caminho a trilhar. Algumas vezes também me convidou a ir rezar com o grupo Pneuma Vita, à Estrela. 


4 – Os encontros com o P. Lapa, quando eu vinha de férias das missões

Em Janeiro de 1990, deixei Santarém para voltar para as missões do Congo. Cada vez que vinha de férias, assim que o Pe. Lapa sabia que eu tinha chegado a Lisboa, telefonava-me imediatamente para me convidar a rezar com ele no grupo da Estrela. Umas vezes, pedia-me para presidir à celebração da Eucaristia, ou à adoração eucarística; outras vezes para simplesmente rezar com o grupo. Os convites dele eram ordens. Nunca perguntava se eu podia ou não estar presente. Dizia simplesmente: «tal dia contamos contigo». Como era natural, não podia dizer «não». 

Pedia-me sempre para dirigir uma oração de cura e libertação. Durante essas orações, tive a graça de verificar como o Senhor estava realmente presente nesse grupo. A intensidade da oração não podia ficar sem efeito. O Senhor manifestou-se com grande poder, confirmando a fé do grupo com os sinais extraordinários que Ele realizou. 


5 - De novo em Santarém: 2003-2006 

Em Maio de 2003, regressei das missões e voltei novamente para Santarém. Como animador missionário, comecei a percorrer todas as paróquias do Oeste, do Ribatejo e da Beira Baixa, levando por toda a parte esse fogo do Espírito que tinha levado comigo para a missão e donde tinha voltado ainda mais vivo.

Durante os 14 anos passados nas missões, mantive-me sempre muito comprometido no RCC. Nas duas missões onde trabalhei, fundei o RCC, tendo-se estendido como fogo a todas as aldeias da missão.

Ao chegar de novo a Portugal, não pude esconder-me. O Pe. Lapa começou logo a contactar-me, quer para ir algumas vezes a Santa Isabel, rezar com o grupo, quer para me pôr ao corrente do desenvolvimento do RCC em Portugal. Fico-lhe sempre muito grato por esta sua solicitude. Assim, não só continuei unido a ele e à Comunidade Pneuma Vita, mas também fiquei a conhecer o novo dinamismo do RCC em Portugal. 

Em 2006, o Pe. Lapa convidou-me para ir a Fátima às duas assembleias do XXXII aniversário do Renovamento Carismático em Portugal. Embora não me sentisse à altura de tamanha responsabilidade, não tive coragem de dizer que não. 

Mas, entretanto, em Junho desse ano, os meus superiores destinaram-me de novo ao Congo, como formador nos nossos escolásticos (seminaristas de teologia), para onde devia partir imediatamente. Fiquei contente em poder voltar para as missões e disse de mim para mim: desta vez, o P. Lapa não vai conseguir apanhar-me. Mas, quando lhe comuniquei esta decisão dos meus superiores e, consequentemente, a minha impossibilidade de estar em Novembro em Fátima, o Pe. Lapa disse-me imediatamente: «Desta vez não consegues fugir. Diz aos teus superiores que já estás comprometido e que não podes faltar ao compromisso. Vamos rezar ao Espírito Santo, que Ele ilumine o teu Padre Geral, para te deixar vir. Que ele não se preocupe com as viagens que isso fica à nossa conta». Vi nessa afirmação a fé do P. Lapa e a sua confiança inabalável na força do Espírito Santo. Quando comuniquei isto ao meu Superior Geral, de quem dependo neste serviço, a sua resposta foi: «Diz a esse Padre que arranje outra pessoa para o teu lugar, mas se vês que ele não consegue, aceita». Ao transmitir esta resposta ao Pe. Lapa, ele disse imediatamente: «Não te tinha dito que o Espírito Santo ia iluminar o teu Padre Geral para te deixar vir?» E assim foi. 


6 – Assembleias do XXXV aniversário do RCC em Portugal, Novembro de 2009 

Mais uma confirmação da fé do P. Lapa. Escreveu-me um e-mail para Kinshasa a pedir-me para ir às Assembleias do XXXV aniversário do RCC em Portugal. A minha primeira resposta foi «não». Sendo durante o ano lectivo e num momento de fortes actividades de formação, disse-lhe que não podia aceitar, porque os superiores, como norma, não permitem que um formador se ausente da casa de formação durante o ano lectivo. Este norma é muito justa, tendo presente a nossa responsabilidade na formação dos futuros padres missionários. 

O P. Lapa respondeu-me imediatamente, dizendo mais ou menos isto: «Estamos a rezar ao Espírito Santo, para que Ele diga aos teus superiores que te deixem vir. Portanto, fala lá com eles e vais ver que te dão licença para vires a Fátima». Para minha grande surpresa, tendo mandado e-mails ao Pe. Geral e ao Provincial, responderam-me imediatamente que não se opunham, mas que procurasse não ficar muito tempo fora do seminário. Mais uma vez, a fé do Pe. Lapa venceu. 

Sempre que estou em Portugal e ele quer que vá rezar a Santa Isabel, não me pergunta se posso ir ou não, mas diz-me simplesmente: «Terça-feira contamos contigo em Santa Isabel». Dada a nossa grande amizade, nunca consigo dizer-lhe não. 

Haveria tantas outras coisas a dizer, mas já me alonguei demais. Dou graças a Deus por me ter posto o Pe. Lapa no meu caminho e por ele me ter ajudado a seguir os passos de Jesus, guiado pelo Espírito Santo.

 

 

Pe. Alfredo Neres, mccj

 


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