Carta ao Padre Lapa

 

 

As pedras da calçada, muito lisas de tão pisadas, e ainda por cima com bocadinhos de musgo a espreitar, levam a que caminhe sem pressa, o que dá tempo para me maravilhar com a beleza da criação. Num ritual de primavera, famílias de andorinhas afadigam-se nos beirais; pares de pombos cinzentos arrulham no parapeito de uma varanda, onde tufos de sardinheiras vermelhas e dálias crescem por entre as grades envelhecidas; mais abaixo, há grandes vasos de manjerico que se alinham ao longo do passeio e, à sua volta, grupos de pardais brincam despreocupadamente. O maior luzeiro começa a brilhar, presidindo àquele dia de Maio, e tudo vai aquecendo, numa harmonia de sons, cores e cheiros.

Entro em casa, subo as escadas e, conforme sempre acontece, paro em meditação frente ao enorme vitral que tão sabiamente alguém pendurou no último patamar. Como há quase quatro mil anos, Jacob ali está a sonhar e a voz do Senhor continua a dizer-nos, hoje, as mesmas palavras que então lhe disse: «Eu estou contigo para te guardar onde quer que andes». Consolada, encaminho-me para a capela - belíssima, acolhedora, banhada de luz dourada pela suave claridade de dois raios de sol que entram pela janela atrás do altar - onde Maria e Jesus me esperam. 

Ajoelho e deixo que passe por mim e para mim aquele fluxo torrencial de amor que sempre corre entre o Coração Imaculado da Mãe e o Sagrado Coração do Filho. Quero ficar naquele lugar e permitir-me sentir que não é ali que estou mas sim no Céu; tento desligar-me do mundo e das coisas materiais; começo a rezar, entro em profunda adoração e a graça de Deus vem abrir no meu coração espaços de luz, de paz e de amor, fazendo fluir silêncios, sentimentos, uma efusão de palavras que tenho de passar à escrita. Em frente do sacrário. 

Padre Lapa, estas palavras são para si. O dia dos seus anos já passou; não vou voltar a dar-lhe os parabéns. Mas os aniversários não passam simplesmente, estão sempre a tempo porque para o dom da vida não existe finitude. E no hoje de agora, o Senhor deixa-me que testemunhe, pública e reconhecidamente, o meu apreço e a minha gratidão ao Pe. Lapa pelo modo generoso e gratuito como com Ele tem colaborado para transformar a minha vida. Não sou especialista em Teologia, nem em Sagrada Escritura. Sou simplesmente uma mulher que gosta de ser mulher e não esquece que, em cada momento decisivo da vida de Jesus, da Anunciação à Ressurreição, há sempre uma mulher que é chamada a ser testemunha e mensageira do mistério revelado; sou simplesmente uma leiga que, apesar de baptizada, crismada, casada pela Igreja e mãe que baptizou os filhos, não esquece que só muito mais tarde despertou verdadeiramente para a fé e tomou consciência de que a vocação do cristão é afirmar o senhorio vivo e actual de Jesus, por meio do Seu Espírito, na Igreja. Tudo isto aprendi através do instrumento precioso de Deus que o Pe. Lapa foi, é e continuará a ser na minha vida; por isso, quero louvar e dar graças ao Senhor porque o escolheu, desde toda a eternidade, para ser um homem do Clero, sacerdote e pastor segundo o Seu coração, a quem confiou o ministério de apascentar o Seu rebanho. 

Neste momento, porque o Senhor está atento e age com amor e solicitude nos acontecimentos da vida de cada dia, o espaço da capela parece dilatar-se no tempo e vejo-me a reviver a noite em que conheci o Pe. Lapa, há quase vinte anos. Foi o início de uma aventura, feita de recordações e de esperanças, com vitórias notáveis, algumas desilusões, muitas hesitações mas, no seu todo, uma sequência fresca e insinuante de degraus que me têm levado a ver o mundo e a tentar viver nele como Jesus, isto é, em termos do amor divino, como diz Isaías: «O orgulho dos homens será abatido, a arrogância humana será humilhada. Nesse dia, somente o Senhor será exaltado».

Numa terça-feira de inverno, vou pela primeira vez a uma reunião da Assembleia Pneumavita, no salão dos Missionários do Espírito Santo, pela mão de uma amiga que já partiu para o Pai. Começo por gostar do ambiente leve e alegre, depois sou tocada pela profundidade das orações e é-me dada a graça de sentir a presença viva do Senhor no meio de nós. Acabado o cântico final, o Pe. Lapa, ainda de alva e como de costume, vai à porta despedir-se à medida que vamos saindo. Chegada a minha vez, diz-me qualquer coisa que já não recordo; ao responder-lhe, trato-o cerimoniosamente, como fazia com os outros padres, por Senhor Padre Lapa. E o Pe. Lapa, com uma autoridade cheia de unção, levanta a mão direita e, apontando para cima com o dedo indicador, diz as palavras que, para mim, se tornam o principal ensinamento da noite: «Senhor há só um e está no Céu; eu sou apenas o Padre Lapa». Pelo que hoje me é dado saber, e porque o Espírito sopra quando quer, como quer e onde quer, a efusão do Espírito Santo acontece-me naquele momento. E assim começa na minha vida uma nova caminhada, em que o servir toma todo um outro sentido, o sentido evangélico da partilha e do amor fraterno, fundamentalmente centrado na entrega aos mais desfavorecidos. 

Desde então, Pe. Lapa, em quantas coisas belas nos temos acompanhado! Não quero alongar-me, por isso relembro apenas três ou quatro: a ida à 1ª Assembleia Diocesana do Funchal, a pedido da equipa de serviço local e em que o orador convidado era o Pe. Tardif, para os ajudarmos na organização do evento. Foi após esta assembleia que o Pe. Lapa me pediu que fizesse a respectiva reportagem para a Revista Pneuma, dando início a uma colaboração que nunca mais parou; as nossas tardes de domingo, nas Irmãs Oblatas do Sagrado Coração de Jesus, em que fomos, juntamente com a Irmã Zélia, o ninho de onde mais tarde iria nascer o grupo de jovens «Amigos de Jesus»; as viagens de camioneta a Braga, nas várias etapas de início da vida religiosa da Irmã Inês na Ordem da Visitação; lembro ainda a maneira tão espiritual e gozosa como, ao longo de todos estes anos, temos festejado o fim do ano: numa Missa presidida pelo Pe. Lapa, em que passamos a meia-noite a trocar entre todos o abraço da paz; no final, há um forte momento de adoração ao Santíssimo Sacramento e depois, à maneira das primeiras comunidades cristãs, uma simples refeição partilhada.

A fechar este álbum de recordações, vou destacar a celebração dos seus cinquenta anos de ordenação. Festejámo-los no Seminário da Torre d’Aguilha e também na sua terra natal, na mesma igreja onde o Pe. Lapa recebeu o sacramento do Baptismo. Desta vez, foi demasiado exíguo o espaço para lá cabermos: uma pequena representação dos seus confrades, dos seus familiares, dos seus amigos mas, sobretudo, daqueles cuja vida foi tocada pelo Espírito Santo através do seu agir (e que somos muitos milhares). Aquele rapazinho de Sedielos, de uma família pobre mas muito crente e que desde pequeno sentiu o chamamento de Deus, entrou para o seminário, foi ordenado, e anos depois irá ser mais uma prova de que o Senhor é surpreendentemente fiel na Sua especial preferência pelos mais humildes, pelos mais pequenos, pelos que se fazem servos. De facto, tal como fez com David, que escolheu e ungiu para uma missão especial, Deus também confiou ao Pe. Lapa uma grande missão: trazer para Portugal o Renovamento Carismático Católico, espiritualidade pentecostal definida pelo Cardeal Suenens como «uma corrente de graça destinada a toda a Igreja». Tendo em conta o desafio cada vez maior de uma sociedade onde a secularização não pára de crescer, a Igreja precisa cada vez mais de ser renovada na força e no poder do Espírito Santo: novos campos de apostolado, uma re-evangelização mais adequada, mais empenhada, mais carismática e mais testemunhal, numa maior experiência pessoal na fé. Plenamente consciente da importância da missão de que foi incumbido, o Pe. Lapa a ela se tem dedicado incansavelmente, numa adesão incondicional à vontade de Senhor; verdadeiro homem de Deus, guardião de uma fé firme e sábia, fala pouco (nunca lhe ouvi um ensinamento) mas faz muito porque, pelas suas palavras ungidas, tudo nos ensina; através delas e do seu exemplo perpassa o sopro santificador e renovador do poder do Espírito Santo que nos toca e transforma, fazendo de nós homens e mulheres novos. 

Mas nesta festa, porque a vida renovada pelo Espírito Santo é uma festa perene, também há lugar para o sofrimento e Deus não só sabe resolver todos os nossos problemas, como também nos ensina a viver com os problemas não resolvidos. A medicação que sara ou pelo menos alivia o nosso jugo, e que é sinal da presença do Reino, é o amor em nós infundido mediante o Espírito. Quantos momentos de sofrimento temos partilhado, Pe. Lapa! A partida para o Pai não só de amigos comuns mas também de familiares directos, e a dolorosa saudade que fica; doenças físicas e espirituais; injustiças e traições, silêncios e desertos, desprezos e incompreensões. Nesta questão do sofrimento, sinto que de si muito tenho recebido e pouco lhe tenho dado. Apesar de às vezes também estar a sofrer, tem uma capacidade notável de se compadecer com a nossa dor porque, à semelhança de Jesus trespassado, só quem muito sofreu é capaz de sentir compaixão; quantas vezes, enxugando as minhas lágrimas, me lembrou as lágrimas que Nossa Senhora não chorou; quantas vezes me falou no Sermão da Montanha, que só fora do contexto pode soar a ingenuidade ou alienação, porque esse contexto existe verdadeiramente: é o amor eterno e sempre activo do Pai misericordioso que, como uma onda imensa, vem à nossa praia e nos abraça, liberta e consola. 

Um dia destes, também eu fiz anos e o Pe. Lapa telefonou-me; nunca se esquece. Disse poucas palavras mas disse-me tudo: «Isabel, parabéns! Hoje a Missa é por si». Graças ao Pe. Lapa, agora sou capaz de reconhecer que tudo o que tenho é um dom, começando pela minha existência, e que as pessoas que encontro não vêm por acaso, são-me enviadas como bênçãos. Como agradecer devidamente ao Senhor? «Orai sem cessar. Em tudo dai graças», aconselha São Paulo. Jesus apreciava muito a gratidão e, em casa do fariseu Simão, aceitou as lágrimas que lhe caíram sobre os pés, lágrimas de gratidão de uma mulher a quem Ele tudo perdoara. Aquelas suas palavras ao telefone, Pe. Lapa, vieram na oportunidade como um bálsamo divino, como uma fonte de água viva no meio do deserto escaldante, porque foram a prova de Jesus vivo e solidário com a minha dor; na verdade, durante todo o dia sentira o meu coração arder de angústia e de saudade pelo meu pai, que o Senhor chamou a Si há nove anos. Conta a minha mãe que ele chorou de felicidade quando me viu pela primeira vez, quase acabada de nascer e esperando a sua visita, com um lacinho cor-de-rosa nos caracóis alourados.

Mestre Eckhart, frade, teólogo e um dos mais fecundos pensadores medievais, disse num dos seus sermões: «Se a única oração que eu fizesse fosse ‘Obrigado’…isso seria suficiente». Esta é a oração que eu lhe quero deixar: Obrigada, Padre Lapa. E através de si para Nossa Senhora, a quem o Pe. Lapa consagrou o seu sacerdócio, e consagrou o Renovamento desde a primeira hora, vai parte de uma maravilhosa oração escrita por Paul Claudel: 

É meio-dia. Vejo a igreja aberta. Preciso de entrar. 
Mãe de Jesus Cristo, não venho para rezar. 
Não tenho nada para te oferecer e nada para mendigar. 
Venho somente, ó Mãe, para te olhar.
Olhar-te e chorar de felicidade. 
Sem dizer nada, o teu rosto contemplar, na minha boca, deixar o coração cantar. 
Nada dizer porque o coração está cheio; somente cantar.

 

 

Isabel Moraes Marques
Casa Pneumabetel, no Dia da Visitação da Virgem Maria

 

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