Parabéns, Pe. José da Lapa

 

 

Comemorámos, no mês de Maio, o aniversário do Padre José da Lapa, conselheiro espiritual e verdadeiro animador da Comunidade Pneumavita, do Renovamento Carismático Católico, desde há 35 anos. Esta revista foi por ele fundada e dirigida até Fevereiro do ano passado, mês em que aceitámos substituí-lo — melhor, continuá-lo — na direcção, mas com a condição do seu conselho espiritual. Assim tem sido, embora o Padre Lapa tenha procedido connosco como sempre foi seu costume — isto é, entregando com confiança e ficando o mais possível calado. 

Esta é uma das surpreendentes facetas do Padre Lapa, para quem o não conheça: um Padre nada clerical. Talvez por ser missionário e, além disso, carismático. Mas sem dúvida pela sua virtude pessoal, se bem se interpretam alguns sinais. O Padre Lapa é o sacerdote que conhecemos que menos monopoliza a palavra, em todas as circunstâncias, na oração e até na liturgia. A ponto de parecer que prefere não falar para dar tempo aos outros para falarem e para escutarem. 

Nas reuniões de oração semanais do Grupo Pneumavita, desde há dezenas de anos, tirante nas orações litúrgicas canonicamente reservadas aos sacerdotes, quase só fala na introdução inicial, para saudar a assembleia, dar as boas vindas e algumas informações ou orientações breves; e depois entrega aos leigos durante todo o tempo a animação da oração e os testemunhos, participando quase sempre em silêncio. Só prega nas homilias das eucaristias; fora disso, nos ensinamentos catequéticos ou espirituais das reuniões de oração, manda sempre os leigos. Nas missas, não faz longas homilias; pelo contrário, são curtas, embora cheias de sabedoria bíblica e espiritual. Quanto aos ensinamentos, ao longo de vinte e dois anos de estreito convívio, na Comunidade Pneumavita, não nos recordamos de ter aceite fazer nem sequer um único; e convida para os fazer não apenas aqueles que podem parecer mais instruídos e cultivados, mas igualmente os que nunca deram provas de «saber falar», são modestos mas espirituais. Se está um outro sacerdote, dá-lhe sempre a precedência e a homilia.

Nas pequenas introduções das assembleias de oração, únicas que normalmente reserva para si, saúda sempre os que vêm de novo: «Quem está aqui hoje pela primeira vez, levante o braço». Em 22 anos, não nos lembramos de uma só vez sequer em que não se tenham levantado braços. «E quem é que o convidou ou trouxe cá?». E depois da resposta, dirigindo-se ao autor do convite: «Então agora não se esqueça de que é o seu Anjo da Guarda». 

O Padre Lapa só faz aquilo que os leigos não podem fazer, isto é, estritamente o seu ministério sacerdotal. Sendo o sacerdote menos clerical que já conhecemos, tem contudo a sua teimosia natural, que exercita com toda a suavidade e discrição — só dá por ela quem está muito atento e é muito crítico. É com esta combinação de auto-restrição e de efectivo ministério que o Padre Lapa se transformou num Padre autenticamente carismático, que promove a comunidade comandando pouco. 

Para esta modestíssima homenagem, bem gostaríamos de ter podido contar com uma entrevista. Mas não lha conseguimos. Instado a falar-nos da história do Renovamento Carismático em Portugal, remeteu-nos para a revista, onde terá ficado registado o essencial. Claro que o essencial não está todo disponível nos textos publicados; muitas vezes, o testemunho é que vem acrescentar vida a relatos históricos. Só algumas vezes, numa ou outra ocasião, nos contou coisas do passado, quando, parece-nos, estávamos muito fora de avaliar ou decidir fosse o que fosse, conversa solta, sempre breve. 

Mas lendo os primeiros números da revista Pneuma, a gente pode ver como o Padre Lapa, um aparentemente humilde missionário espiritano em Lisboa, esteve presente e activo, com um numeroso grupo de leigos e outros sacerdotes, logo nos mais importantes acontecimentos internacionais dos primeiros anos da arrancada do Renovamento Carismático. O Renovamento surgiu em 1967, nos Estados Unidos da América. Pois logo a partir de 1975, apenas oito anos depois, ele está em Portugal. E arrancando com notável expressão, graças aos muitos contactos que o Padre Lapa tinha por todo o País, porque ele era o grande animador da LIAM: a Liga Missionária dos Espiritanos. Por isso nasceram grupos em vários pontos do País. O que se tornou mais evidenciado foi o de Lisboa, que ele próprio animou e orientou sempre, reunindo todas as terças feiras à noite, inicialmente no velho e pobre salão de reuniões da Casa dos Espiritanos, à Estrela, e depois na Igreja de Santa Isabel, o Grupo Pneumavita, isto é: Pneuma (Espírito Santo) e Vida (Nova no Espírito). Sempre com centenas de pessoas. 

O Padre Lapa não foi o único que trouxe para Portugal esta nova descoberta do Espírito; e, entre outros, contam-se sacerdotes, como o Padre Rocha Monteiro e o Padre Alfredo Neres, que neste número da nossa revista escrevem breves homenagens de aniversário ao Padre Lapa. Mas, como o próprio Padre Neres nos conta, o Padre Lapa tornou-se o grande animador e pastor deste novo movimento, respeitado por todos os demais sacerdotes. 

Em Lisboa, o Padre Lapa foi, logo nos primeiros momentos, falar com o seu Bispo; e só começou a trabalhar com a autorização e o apoio de D. António Ribeiro. Depois, traduziuse o livro dos Seminários, que foi prefaciado pelo Bispo D. Maurílio, Auxiliar em Lisboa, que participou nos entusiasmos destes inícios do Renovamento na Diocese. 

O Padre Lapa trouxe a Portugal todos os grandes nomes do Renovamento. Lançou a revista Pneuma, que foi em Assembleia Nacional aprovada como revista nacional do Renovamento. Lançou uma editorial, já com muitos títulos, entre eles algumas obras de autores muito autorizados, como o Documento de Malines, do cardeal Suenens, um livro do grande teólogo do Renovamento, Heribert Muhlen, e um outro do Cardeal Cordes. Lançou um site e conseguiu uma nova sede para o Pneumavita.

Mas o principal é que ganhou muitos e muitos amigos gratos; porque foi instrumento de muitas graças de conversão e renovação. 

Parabéns, Padre Lapa! Rezamos por si, nesta festa do seu aniversário. Estamos-lhe muito gratos, no Senhor!

 

Mário Pinto

 


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