Adoração e Mística

 

 

 

A adoração é, por excelência, um acto místico.

Muitos têm uma ideia deturpada de mística, pois pensam que os místicos são cristãos  “excêntricos”, fora do mundo, que vivem para a contemplação, em clausura, etc …

Mas um teólogo do sec 20 disse: “Os cristãos do século 21 ou serão místicos ou não serão cristãos”.

O próprio Papa João Paulo II, na sua última carta apostólica “Novo Millenio Inuente” fala da necessidade de contemplarmos o rosto de Cristo, inspirados na Sagrada Escritura (fundamento histórico seguro, do rosto do Nazareno). Só a fé, a mesma fé professada por Pedro, nos levará a penetrar plenamente no mistério do Seu Rosto. O que será um dom revelado pelo Pai, na experiência do silêncio e da oração, como diz o Papa.

 

Contemplar, adorar, namorar Cristo é pois fundamental para crescermos espiritualmente.

Um místico é um cristão que se preocupa seriamente com este crescimento, e que por isso, tenta viver a sua fé em plenitude.

Não é nenhum cristão sobredotado, mas seguramente adquiriu uma intimidade especial com Jesus Cristo, porque se entregou completamente à acção do Espírito.

Todos somos santos, primeiro porque fomos feitos à imagem de Cristo, e depois, porque no baptismo nos tornámos templos do Espírito Santo. Os místicos, tentando avançar sériamente nessa santidade, reconhecem o seu pecado e lutam por uma conversão radical. E é provavelmente nesta ascese, numa tentativa de agradarem a Deus, que os místicos se distinguem. Mantendo os pés bem assentes na terra, conseguem elevar o coração até bem perto do Céu.

Na sua “Noite escura”, S João da Cruz explica este favor, ou dom, como um “conhecimento amoroso infuso, que ilumina e enamora a alma, elevando-a, degrau a degrau, até Deus, o seu Criador”.

Tomar consciência deste favor, penetrar neste dom, é, simplesmente, adorar.

Na adoração toma-se consciência da presença do Cristo Sacramentado, Jesus Emanuel, Deus connosco, que nos deixa estar na Sua presença, e que nos vem envolver com Seu Amor. No reconhecimento humilde da nossa fraqueza, arrependidos do nosso pecado, Jesus, pelo Espírito Santo, ilumina-nos, mostra-nos o essencial, dá-nos o dom da ciência, torna-se o nosso verdadeiro Director Espiritual. Por outro lado, inunda-nos com o Seu Amor, e leva-nos ao enamoramento, à contemplação do Seu Santo e Belo Rosto.

 

Em adoração, Cristo diz-nos muitas vezes “Abri os vossos corações!”, e aqui está contida toda a Sua Lei, todos os Seus Mandamentos! Primeiro, abrir o coração a Deus, para que, neste acto de amor, nos deixemos amar, nos deixemos transformar por esta Graça Santificante. “Amar a Deus sobre todas as coisas, com todas as forças e inteligência” não é um acto primáriamente nosso, pois quem nos ama primeiro é Deus. A nossa força e inteligência está no amor de Deus, e é nessa humildade de criaturas, que nos devemos deixar amar, para que descubramos o Verdadeiro Amor.

Este é, digamos, o cerne da adoração, deixar-se amar, não fechar os  corações.

Mas a abertura do coração não deve ser só para o Alto, mas também para os Irmãos, a condição para o segundo mandamento, isto é, saber partilhar o Amor do Pai, como Cristo O partilhou. Somos comunidade, e partilhar, é condição para comunidade. E assim, Cristo, nós e os outros, em comunidade, crescemos degrau a degrau, ficando cada vez mais perto da Trindade Santa.     

Em adoração, a partilha do Amor de Deus também é feita, na consciência de que pertencemos ao Corpo Místico de Cristo, e assim oramos e intercedemos pelos crentes e não crentes.

Em suma, a prática séria e profunda da fé, começa na oração, nomeadamente na Adoração Eucarística. Aqui pois, começa a mística…

 

ORAÇÃO DE ADORAÇÃO

De Isabel da Trindade

 

“Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, para me estabelecer em Vós. Imóvel e pacífica, como se já a minha alma estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar a minha paz, nem fazer-me sair de vós, ó meu Imutável, mas que cada minuto me leve mais longe nas profundezas do vosso Mistério. Pacificai a minha alma, fazei dela o vosso céu, vossa morada amada e o lugar do vosso repouso. Que nunca aí eu vos deixe só, mas que esteja lá inteiramente, toda acordada na minha fé, perfeita adoradora, toda entregue à vossa acção criadora.”

 

TESTEMUNHO DE ADORAÇÃO

 

“Antes de descobrir o Renovamento, adoração para mim significava aborrecimento e distracção, e tinha dificuldade em fazê-lo.

A adoração é tida, em geral, como um acto individual. Nas nossas igrejas, em comunidade, rezam-se verbalmente algumas orações, pré-estabelecidas, por vezes lidas, e depois, fica-se em silêncio, em adoração individual interior. Por vezes reza-se o terço, outras canta-se.

Foi, neste espírito, que começei a adorar em grupo.

Mas felizmente, era um grupo do renovamento carismático. Isto, leva a pensar em louvor, profecia, mas também, em palmas, alegria, alguma agitação e ruído.

O pequeno grupo de oração onde estou, tem vindo a caminhar em adoração, no sentido de se encontrar a si próprio e de encontrar Deus. Isto leva a deixarmos o orgulho e a vaidade lá fora e a ficarmos num clima de humildade e simplicidade. Nota-se este espírito na seguinte oração que fiz em adoração:

 

“Obrigado Senhor por me aceitares assim de mansinho, devagarinho, junto de Ti, na minha condição de querer ser humilde e insignificante ao pé de Ti. Só Tu, com o teu amor, podes baixar o Teu olhar e pores a Tua mão na nossa cabeça, deixando passar toda essa Paz para nós. Nós Te agradecemos isso Senhor. Nós Te adoramos, Te louvamos, Te bendizemos pelo Teu Amor, pela Tua Paz. Bendito Sejas Senhor!”

 

 Por vezes penso que, em adoração, se fala demais, mas tudo é feito numa partilha sincera das nossas preocupações, do nosso louvor, da nossa confiança em Cristo. Só tenho a agradecer essa graça!

 

“Te agradeço Senhor a oração dos meus irmãos. O Teu amor através das suas vozes é como mel que chega ao meu coração. Que bom seria se fizéssemos uma tenda e ficássemos aqui para sempre, Senhor!””

 

Uma vez tido um encontro forte com Cristo, como o foi a minha Efusão do Espírito, torna-se vital estar com Ele, quer a sós, quer em partilha com os irmãos.

Sinto que nesta partilha, o grupo faz discernimento e mesmo direcção espiritual, em ambiente de oração, guiados pelo Espírito Santo.

Louvar em comunidade é fantástico, e enche-nos duma alegria indiscritível. Louvar em grupo em línguas é uma oração que nos eleva muito, pela sua simplicidade, harmonia e pela entrega com que o fazemos.

Acho que, por vezes, tenho experimentado a chamada “oração de quietude”, que, como diz Santa Teresa, é como que uma paragem dos sentidos, ao mesmo tempo que se sente a alma a dilatar-se, invadida por uma Paz interior profunda.

Alguns de nós choram, o “dom das lágrimas”, dizem.

Uma vez, a seguir a um choro profundo e apaziguante, rezei esta oração:

 

“Meu Bem-Amado, meu Jesus, meu Bem-Amado.

Tu arrebatas a minha alma com tanta doçura…

Faz-me sentir sempre esta fome por Ti, Senhor.

Faz-nos sentir sempre esta fome. Durante o dia, durante a noite, que nós tenhamos sempre esta fome, que Tu encostes o Teu Rosto ao rosto da nossa alma, que Tu ponhas as mãos à volta da cintura da nossa alma e a chegues a Ti.

Deixa-nos ficar, Senhor, nesta intimidade.

Dá-nos Senhor, fome desta intimidade”   

 

O Espírito vai-nos transformando nestas adorações comunitárias, disso todos temos a certeza! Um dos frutos imediatos é a alegria. Quando acabamos (com dificuldade e pena!) temos sempre que cantar um ou mais cânticos alegres, e ao sair, todos os outros notam a nossa algazarra, as nossas piadas alegres, seguramente a “embriaguez do Espírito!”.