M: Sr Padre Neres vimos nas suas informações, que foi ordenado sacerdote em 1971 e é ordenado missionario comboniano aos 21 anos. Gostaríamos de saber, que nos explicasse, porquê missionário comboniano.

PN:  sou missionário comboniano há 50 anos. Há 50 anos que eu fiz a profissão religiosa,e desde o dia 9 de Setembro de 1967 eu sou missionário comboniano. Há 50 anos que eu fiz a profissão de ser missionário comboniano e há 46 anos, quase 47, que eu fui ordenado padre, a partir do dia em que se faz os votos, isso assinala a entrada oficial no instituto. Isso é para todos os institutos.

M:  E porquê missionário?

PN: Isto é uma história muito longa. Quando eu tinha 20 anos, no dia da Ascenção de Jesus ao céu,  ouvi do Evangelho de Marcos 15, 16 a 20  onde Jesus diz         aos discípulos, ide anunciai o evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo, quem não acreditar será condenado. Naquela altura, quando eu escutei esta palavra, tocou-me profundamente o coração. Então eu recebi nesse dia, no dia da Ascenção de Jesus ao céu, em 1959, de ser missionário. Não sabia como havia de ser missionário, mas foi uma decisão radical, eu quero ser missionário, ide e anunciai o evangelho para que as pessoas não se percam. A partir desse dia comecei a tratar das coisas e logo no mesmo ano no dia 8 de Setembro entrei para o seminário dos combonianos.

 

M:  E quando conheceu o renovamento carismático?

PN: O RC eu conheci em 1975 em Itália onde estava a participar no nosso capítulo geral, aí tive o primeiro encontro com o RC no grupo Maria, mas pouco participei porque estava nessa grande assembleia do capítulo geral, não tinha tempo disponível para seguir o RC; fui algumas vezes à reunião do grupo, naquele tempo era aos sábados à tarde. Mas fiquei impressionado com aquilo. Nesse mesmo ano fui para o Congo, e como não tinha tido tempo para seguir os seminários e fazer a efusão do espírito, parti sem a Efusão do Espírito. Mas antes de partir, nesse grupo, rezaram por mim, um grupo de dois senhores e duas senhoras, três leigos e um padre, impuseram-me as mãos e rezaram por mim. Então nessa imposição das mãos houve uma profecia, que o Senhor me ia mandar para Africa, que viam montes africanos em volta de mim, mas que me preparasse para o martírio. Outro senhor confirmou e disse que não seria um martírio de sangue mas um martírio incruento. Prepara-te para esse martírio incruento. Bom, de facto isso passou-se na África até agora, portanto não há dúvida que isso foi uma verdadeira profecia. Também nessa profecia leram o capitulo primeiro de Jeremias, em que Deus diz a Jeremias, “Eu escolhi-te desde o seio materno” E eu senti verdadeiramente, fazendo uma releitura da minha vida, desde o que me recordava, desde pequenino até ali, dei conta que o Senhor me chamava para isso sem que eu me apercebesse. No seio materno, os meus pais rezavam sempre para terem um filho padre, e depois do meu nascimento eles continuavam a rezar para terem um filho padre, e viram esse seu desejo realizado quando fui ordenado padre, no dia 8 de Abril de 1971. Foi nesse dia que o meu pai disse a toda a gente, este é o dia maior da nossa vida, porque desde que nos casámos estávamos a rezar todos os dias para ter um filho padre. Hoje realizou-se o nosso pedido.

 

 

M: Qual foi a sua caminhada Sr Padre até reconhecer que tem os carismas que todos lhe conhecemos?

PN: Como eu parti para o Congo sem ter aprofundado o renovamento, cheguei ao Congo a uma diocese a uma paroquia aonde ainda não tinha chegado o RC. Eu fiquei lá 5 anos sem poder entrar em contacto direto com o RC. Ao fim de 5 anos eu voltei, chamaram-me para Portugal para ser mestre de noviços e tive que passar por Roma um ano para me preparar para esse serviço de mestre de noviços. Foi então aí que eu entrei em profundidade com o RC e no dia 8 Dez 1981 eu recebi a Efusão do Espírito, depois de um retiro de cinco dias. Era um grupo bastante grande que recebeu a Efusão, entre os quais havia alguns padres. Foi aí que me reconheceram alguns carismas. Não sei exactamente o que é que sucedeu, quando um amigo que estava no fundo da sala me veio dizer “O Senhor ouviu a tua oração. Já recebeste o dom que estavas a pedir no teu coração”, que era o autodomínio. Nesse dia houve um grande tremor de terra e eu não dei por nada, só me disseram depois. Depois quando cheguei aqui em 1982, aqui em Fátima, no hotel dos 3 Pastorinhos, veio aqui um grupo de Espanha, se não me engano, havia 4 padres e 3 leigas, , mas já passaram tantos anos que não tenho a certeza, mas foi esse grupo que rezou por nós. Eles chamaram todos os responsáveis das dioceses, e eu nessa altura era o assistente espiritual da diocese de Santarém, e participei nesse encontro. Eles evocaram o Espírito Santo sobre nós e evocaram os dons da cura e libertação sobre nós. Depois de evocarem estes dons, perguntaram quem estava ali com dores no corpo naquele momento. Muita gente levantou a mão, então eles mandavam cada um a rezar por uma pessoa. Entre essas pessoas estava o P Lapa, que sofria de reumatismo, ele era muito atacado por reumatismo, nos pés, nos joelhos, nas ancas, nas mãos. Então disseram-me a mim, tu reza aí pelo P Lapa e deram-me um papelinho de como eu devia fazer essa oração. Fiz a oração segundo o papelinho que eles me deram, e nunca mais vi esse papelinho, não sei o que é feito dele… A partir daí então, terminada a oração, o P Lapa ficou completamente curado. Então eles disseram “tu tens o dom das curas” Foi a partir daí que começou esta aventura.

 

M: O Sr P Neres transmite-nos aquele fogo que nós sabemos que é próprio das pessoas que têm toda a disponibilidade para trabalhar na vinha do Senhor. O que é que lhe dá coragem para manter esse fogo? Ou também tem quebras nessa coragem? É que nós sentimos a sua coragem.

PN  Pois isso antes de mais é a oração quotidiana. Dedico todos os dias um tempo bastante longo à oração. Como norma dedico todos os dias 4 horas à oração, incluindo a missa, breviário, o terço, tudo isso e adoração, a não ser que eu esteja numa situação em que é absolutamente impossível. Todos os dias, 4 horas à oração, e é nesse tempo de oração, tendo em conta esta disponibilidade. Além disso, há dois anos, dois anos e meio para cá, temos lá no Congo aquilo a que chamamos os pequenos cenáculos de oração, onde há aquelas pessoas que têm o dom da locução, onde Deus nos fala continuamente, e ali Ele tem me dito muitas coisas, entre as quais, que esse dom de cura e libertação, é um dom para O representar autenticamente. Deus disse-me, um dia através de uma senhora que se chama Cecília, “Nós concedemos-te estes dons para que tu Nos representes autenticamente. Muitas pessoas têm problemas diabólicos. Reza por elas. Tu estás a Nos representar”. É uma caminhada que está a ser feita há trinta e tal anos, e isso vai aumentado nestas grandes assembleias, aqui e lá no Congo com 20, 30 mil pessoas, a ultima até com 38 mil pessoas. E lá eu faço sempre esta oração de cura e libertação para toda a gente em geral, como fazemos aqui.

 

M:  O Sr P neres tem tido contactos aqui em Portugal com grupos de oração carismática.   Como acha que estão a caminhar esses grupos, tem alguma opinião?

PN Este ano, depois que cheguei concretamente, estive na assembleia diocesana de Viseu, do Algarve, de Beja, de Portalegre, de castelo Branco, e depois estive aqui em Lisboa na Escola de Evangelização em Carnaxide, e tenho tido encontros com outros pequenos grupos, por aqui e por além. Os pequenos grupos, daquilo que eu vejo, estão entusiastas, agora aquilo que fiquei um pouco impressionado, é que o número de pessoas diminuiu, quando devia de ser o contrário. O número de pessoas devia aumentar de dia para dia. Eu penso que ali existe diminuição da caridade fraterna e da fé. As pessoas têm medo, ou têm vergonha, ou não sei o quê, de rezar pelos outros. Foi isso que me tocou profundamente em Roma. Os primeiros contactos que eu tive com o RC era exatamente isso. A gente ia à reunião do grupo, naquele tempo era às 5ªs feiras. Depois da reunião do grupo, os lideres perguntavam quem estava doente. Os doentes vinham ali e eles distribuíam-nos a nós, àqueles que já tinham tido a Efusão do Espírito, distribuíam-nos e diziam vós os 3 rezai por aquela pessoa. Nós rezávamos por todos e havia pessoas que voltavam para casa curadas. Isso foi uma coisa que me tocou desde os primeiros tempos, ainda antes que me fosse dito que eu tinha esse dom. Eu já estava muito tocado por isso, por ver as pessoas que eram curadas continuamente. Eu quando estive em Santarém, quando fiz a Efusão do Espírito, fui para Santarém onde estive 8 anos, foi lá que assistente diocesano do renovamento carismático, nomeado pelo Bispo de Santarém, lá percorremos a diocese toda a fundar grupos do RC, fomos até Castelo Branco, até Abrantes, Alferrarede,  para formar e fundar grupos do RC, porque havia um fogo muito grande, em mim e nos outros membros que estavam lá na equipa diocesana de Santarém.

 

M: No fundo o que aconselha é mais caridade nos grupos

PN: Mais unidade, mais caridade entre nós, mais partilha. Porque eu vi no inicio em Portalegre, quando vim para Portugal em 1982, vi que havia um amor enorme entre nós, a alegria de ser do renovamento carismático, uma alegria que contagiava. E essa alegria parece que diminuiu. As pessoas deviam sentir que nós temos uma alegria enorme, que é muito maior que nos outros, e que devia contagiar os outros. Alegria, amor, esperança, que habita em nós e que é superior às pessoas que não estão no renovamento. Eu penso que se esses dons forem aumentando, os grupos vão crescendo.

 

M: Acha que era importante organizar Seminários de Vida Nova no Espírito para sacerdotes?

PN: Sem dúvida, se eles aceitarem participar. Mesmo que não sejam muitos e sejam só um grupo.  Eu tenho falado com muitos padres disto, mas eu acho que muitos padres estão abertos, mas têm receio, têm medo, vergonha ou não sei quê, sobretudo que sejam revelados os seus pecados. Isso é muito perigoso. Ora no RC ninguém vai revelar os pecados dos outros. Sejam padres ou sejam leigos, Deus nunca revela os pecados dos outros. Não devemos ter medo por causa disso. Nós somos todos pecadores, nós os padres, os leigos e as leigas somos todos pecadores, mas Deus perdoa-nos através do sacramento da confissão, e Deus nunca revela os pecados que uma pessoa cometeu, por isso ninguém deve ter medo disso.

 

 

M: Para terminar e não maçar mais, o seu tesouro espiritual que tem vindo a guardar e a fazer crescer, o que nos quer deixar como conselho, que possa ser aproveitado para nós todos, para melhorarmos as nossas vidas.

PN  Queria falar ainda destes pequenos cenáculos, porque isto foi uma ordem que recebi antes de sair do Congo e vir para cá de férias, para eu falar em toda a parte desses pequenos cenáculos. Porque Deus quer falar com os seus filhos e filhas. Infelizmente, muitas vezes, não estamos disponíveis para o acolher, e quando Ele fala as pessoas dizem que é o diabo que fala. Isso faz sofrer muito a Deus, que quer ter um contacto. Ele diz como outrora nós falamos com Adão e Eva no paraíso, com Abraão, Moisés, como falámos com toda essa gente, hoje também queremos continuar a falar com os nossos filhos. Ele diz, o diabo fala com os seus filhos, e há muita gente que segue o diabo porque através dessas seitas satânicas, espiritismo, maçonaria, ele revela-se aos seus filhos, mas Deus quer também revelar-se aos Seus filhos, quer falar com eles, os Seus filhos. E como Ele quer falar connosco, nós devíamos estar abertos para o acolher, para que Ele fale, porque isso é uma grande dor para Deus de não poder falar com os seus filhos, comeEle quer falar. Como nós estamos a falar um com o outro, Deus quer falar connosco, e nós costumamos dialogar com Ele, como estamos aqui a dialogar, a mesma coisa. Isso é uma alegria, eu vejo lá, essas pessoas que fazem parte desses pequenos cenáculos, são sempre pequenos cenáculos, cinco a dez pessoas, não são grupos numerosos, mas há uma alegria tão grande entre nós, quando a gente faz parte de um cenáculo, mas pode ir participar noutro, dá para continuar a usufruir desta alegria. Portanto, a meu ver é isto: deixar que Deus nos fale. E quando nós deixamos que Deus nos fale, e quando deixamos que Deus nos fale entramos neste diálogo, ( a gente fala com Deus como estamos aqui a falar, falamos com Deus desta maneira) quando nós falamos com Deus num diálogo aberto, seja com o Pai, com o Filho ou com o Espírito Santo, ou com Nossa Senhora, com um Arcanjo ou com um Santo, então nós sentimos verdadeiramente a alegria de ser cristãos. Sentimos esta alegria de nos sentirmos filhos e filhas de Deus. Percebermos que Deus gosta de falar connosco, de se entreter connosco. Isto enche-nos o coração, saber quando Deus fala. Dizer bom dia meus filhos, minhas filhas, dizer mesmo o nome, bom dia meu filho Alfredo, bom dia meu filho, João, José, bom dia minha filha Maria, Cristina. Ele fala com as pessoas assim, e Ele quer que nós falemos com Ele da mesma maneira.

 

Deus não é complicado, Deus é muito simples. Ele quer que nós falemos com Ele com a mesma simplicidade. É por isso que Deus nesses momentos sagrados fala através de pessoas muito simples e muito humildes, pessoas que se apresentam dignamente. Deus disse, nós não falamos através de pessoas sujas e esfarrapadas, nem através de mendigos. Nós falamos através de pessoas dignas, limpas, porque nós também somos assim. Eu creio que esta seria a grande novidade para o renovamento. Deus está aberto a falar com todos, não só no renovamento, mas abrir-nos assim a este diálogo. Quando temos este diálogo com Ele, sentimos que o nosso coração se aquece, como diziam os discípulos de Emaús. Escutar Deus com disponibilidade. Às vezes Ele pede-nos coisas difíceis, mas quando Ele nos pede coisas difíceis, Ele está connosco para as realizar. Ele está lá para nos ajudar a realizar essas coisas. Uma coisa que Nossa Senhora disse em Medjugorge, foi que, Deus não escolhe os mais santos ou a mais santas para estas revelações íntimas, mas escolhe aqueles e aquelas que são capazes de O ajudar a realizar o Seu plano. Muitas vezes a gente pensa ah eles são uns santinhos, umas santinhas. Deus fala às pessoas que são capazes de O ajudar nos Seus planos. Muitas vezes não são as mais santas, mas sim as mais disponíveis.

M: Sr P Neres queria lhe agradecer muito esta pequena entrevista para a nossa revista ...