Primórdios do Renovamento Carismático na diocese do Porto

 

 

A expansão do Renovamento Carismático em Portugal foi, a todos os títulos, vertiginosa e imprevisível. Os polos de Fátima e de Lisboa, em perfeita sintonia de espírito e de acção tornaram-se, pela acção do Espírito Santo, os instrumentos propulsores para que esta graça de renovo pentecostal lançasse raizes, crescesse e frutificasse em todos os pontos do páis e nas mais variadas latitudes e povos de expressão portuguesa. Os planos e os mistérios de Deus são insondáveis e o Seu Espírito, que enche o universo, sopra, como um novo pentecostes, onde quer, como quer e com quem quer... 

Na revista PNEUMA nº 3, na Páscoa de 1997, se relata, de modo muito sucinto, o modo como germinou e cresceu o Renovamento carismático Católico, no Porto, em Coimbra, em Braga... Os meses de Março, Abril e Maio de 1975 foram o tempo propício para que este fogo novo do Espírito se propagasse no Norte... Os meses e o ano seguintes vão ser o tempo querido por Deus para, em comunhão com a hierarquia e os irmãos já atingidos por este "fogo", iniciar a sementeira nos campos de Setúbal, Algarve e Alentejo, muito convulsionados, ainda, pela "revolução dos cravos"! Não foi por acaso que o Renovamento Carismático Católico, surgiu em Portugal, pouco depois do 25 de Abril de 1974. Nesta data estava eu em Roma, fazendo a caminhada dos Seminários de Vida Nova e saboreando, ainda em lua de mel, a graça da "efusão (baptismo) no Espírito".

No dia 1 de Março de 1975, primeiro sábado do mês, brotou o primeiro grupo do Renovamento Carismático, nas Florinhas do Lar (casa das Irmãs Oblatas do Coração de Jesus), diocese do Porto.
A Irmã Maria de Jesus Brun com sua irmã de sangue Rosa de Jesus Brun, no mês de Julho do ano anterior, haviam feito a experiência da "Efusão do Espírito" em Tours (França). A irmã Rosa, a viver no Colégio das Oblatas, em Lisboa, entrou na onda dos generosos colaboradores do grupo inicial, a funcionar na Casa Espiritana da Estrela. Comunicou à sua irmã Maria de Jesus, a trabalhar nas Florinhas do Lar. Esta ficou entusiasmada em ver que chegara a hora para que o fogo do Espírito, que ardia em seu coração, se começasse a propagar no Porto. Em meados de Fevereiro telefonou-me pedindo para ir ao Porto, para na sua Comunidade se acender a fogueira do Renovamento Carismático. Disse-lhe que aceitava e combinamos o encontro para o dia 1 de Março. Entretanto pedi-lhe para que convocasse um pequeno grupo, com vivência cristã e que invocassem o Espírito Santo para que acontecesse pentecostes na Cidade da Virgem. O Encontro ficou marcado para a tarde do dia 1. Compareceram cerca de trinta pessoas, entre elas, se bem me lembro, além da Irmã Maria de Jesus e da Irmã Rosa que se deslocou de Lisboa, algumas irmãs da Comunidade, o P.e Delfim, a viver no Seminário da Sociedade da Boa Nova, em Valadares, o P.e António Fernandes O.S.B., o casal Silva Lopes, o Angélico com uma miúda pela mão, a sua filha Zélia que mais tarde se consagrou como religiosa nas Irmãs Oblatas. Presentes também o Ângelo, que com o Angélico vão ser preciosos instrumentos para colaborar na difusão do Renovamento através da Equipa de serviço Diocesana. Presentes, também, alguns jovens e outras pessoas convidadas por mim e que estavam ligados à L.I.A.M. (Liga Intensificadora da Acção Missionária) e à Juventude Missionária que eu acompanhava antes de ir para Roma. 


Realização da 1ª reunião

Pelas 15.00h chegaram os convidados, acolhidos cordialmente pelas Irmãs Oblatas. Seguiu-se um tempo de apresentação. Eu e as Irmãs Maria de Jesus e Rosa, depois de uma breve oração invocando o Espírito Santo, apresentamos as linhas mestras da história e dinâmica da oração carismática e testemunhamos um pouco a nossa experiência em Roma e em Tours, nos meses de Março e Julho de 1974.

Depois de um breve intervalo, todo o grupo já ambientado, entrou na Capela das Irmãs para celebrarmos a Eucaristia, ponto central desta tarde de oração. Celebramos a Missa de Nossa Senhora a quem consagramos o Renovamento Carismático Católico na diocese do Porto. A Missa, profundamente vivida e participada por toda a assembleia, constituiu o marco fundamental para o início do Renovamento Carismático na Capital do Norte. Ao concluir a celebração eucaristica, os três que já havíamos feito caminhada, depois de se cantar ao Espírito Santo para que viesse com seus dons, frutos e carismas, rezamos individualmente por todos os presentes que testemunharam ter vivido uma experiência única, inexprimível, inolvidável...

No fim da Celebração eucarística as Irmãs Oblatas presentearam todo o grupo com um lanche de confraternização o que sensibilizou muito esta pequenina comunidade nascente...


Como em Fátima e em Lisboa todos perguntavam:

Quando podemos ter novo encontro? Ficou combinado que além de pequenos encontros de oração com a Irmã Maria de Jesus, na comunidade das Florinhas do Lar, até ao Verão, se realizariam tardes de oração nos segundos domingos do mês, das 15.00h às 18.00h. Eu prometi que tudo faria para vir participar nos domingos em que pudesse deslocar-me de Lisboa ao Porto. Entretando o P.e Delfim e o P.e António Fernandes O.S.B. prometeram colaborar para ajudar espiritualmente o grupo central e os grupos que, passado pouco, começaram a germinar na cidade e noutros pontos da Diocese.


Expansão do Renovamento Carismático na Diocese do Porto

Da fogueira acesa no dia 1 de Março de 1975, nas Florinhas do Lar, como noutras partes e quase espontaneamente, os participantes da primeira reunião começaram a reunir, em várias partes iniciando pequenos grupos de oração, dentro do espírito e dinâmica do Renovamento Carismático Católico. A Irmã Maria de Jesus, com os Padres Delfim e António Fernandes informaram o Senhor D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto. Em audiência particular, pelo que me contaram, o Senhor D. António recebeu-os cordialmente e, em diálogo fraterno, deu-lhes orientação pastoral e incentivou-os a acompanhar e a orientar espiritualmente os grupos nascentes para que progredissem e não se desviassem da fé católica e do espírito e vida do Renovamento, já então abençoado e aprovado pelo Papa Paulo VI. Como sinal de benção, de aprovação e de apreço o Senhor D. António Ferreira Gomes, conhecedor deste fenómento religioso moderno, fruto do Vaticano II em que ele participou, dignou-se presidir à 2ª Assembleia Nacional deste "renovo espiritual" (como ele gostava de designar o Renovamento) em Vila Nova de Gaia, no ano de 1978, proferindo uma das mais belas homilias sobre a "Igreja de Cristo essencialemte hierárquica e essencialmente carismática" (Cf Revista Pneuma, Abril de 1978).

O Porto, foi nos primórdios, a diocese onde o Renovamento Carismático mais depressa cresceu e se desenvolveu. Na cidade e arredores germinaram, cresceram e frutificaram vários grupos dos quais saltaram faúlhas deste fogo novo para os 4 pontos cardeais. Aponto, como referências fundamentais, além do grupo inicial nas Florinhas, o grupo Tabernáculo de Santa Maria (Hospital de Santa Maria), Fermento de Vida Nova (Casa-Cenáculo, Rua do Vale Formoso), Ora et Labora (Singeverga), Comunidade de Vida (Colégio dos Orfãos), Àgua Viva (Foz), Paz e Bem (Casa de Saúde da Boavista), Grupo Santíssimo Sacramento (na paróquia do mesmo nome) etc.


A maternidade e o berço do Renovamento no Porto

A Casa das Irmãs Oblatas, foi a "maternidade" o "ninho" que o Espírito Santo escolheu para iniciar no Porto o Renovamento Carismático. Passados meses, organizada já uma pequena equipa de serviço para orar, disdernir e coordenar, apareceu, providencialmente, uma casa grande do casal Bella (Maria de Fátima e Capitão Joaquim Bella) já marcados com o selo desta vida nova no Espírito. Este casal pôs a sua casa à disposição para ali se realizarem encontros de refexão e orações carismáticas para os responsáveis dos vários grupos. Esta casa, durante vários anos, vai tornar-se o "berço", a "creche" o "ginásio" e o Secretariado provisório do Renovamento Carismático do Porto. Nas muitas vezes que, nos primeiros anos, me desloquei ao Porto para colaborar, como sacerdote e amigo, nos encontros dos Segundos Domingos que reuniam centenas de pessoas, no colégio das Irmãs Escravas do Coração de Jesus, ou no Colégio da Paz, das Irmãs Doroteias, ou noutros lugares, era na Casa Cenáculo da Rua do Vale Formoso que, em oração, partilha e convívio fraterno, se preparavam os Econtros dos Segundos Domingos, se reviam as actividades realizadas e se preparavam futuros eventos.

Naquele Cenáculo eu sentia-me em família e parecia-me ver ali uma cópia perfeita da Comunidade modelo de Jerusalém em que "os primeiros cristãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e ás orações" (Act 2,42).

Assim germinou, cresceu e começou a frutificar o Renovamento Carismático na Diocese do Porto.

 


P.e José da Lapa
Missionário do Espírito Santo

 

 

 

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