O Renovamento Carismático Católico propaga-se em Lísboa

 

 

"Eu vim trazer fogo à terra e o meu maior desejo é que ele se propague!" (Jesus no Evangelho) 

Fortalecido e apoiado na aprovação do Senhor Cardeal Patriarca e com a luz verde do meu Superior Religioso, a palavra de Jesus no Evangelho "Eu vim trazer fogo à terra e o meu maior desejo é que ele se propague" bailava continuamente no meu espírito e aquecia o meu coração, transmitindo-me força, dinamismo para que o fogo do Pentecostes penetrasse não só a actividade missionária que eu continuava a desenvolver mas atingisse também toda a Igreja, nestes tempos difíceis após o Concílio e a revolução do 25 de Abril.

Antes de viajar para outros pontos do País, aonde o Senhor me vai chamar para atear este fogo novo, hoje quero limitar-me a relatar como o Renovamento no Espírito Santo se começou a propagar em Lisboa.

As reuniões na Casa Espiritana da Estrela, com Assembleias mensais nos primeiros domingos, cada vez mais concorridas e animadas, continuaram a realizar-se até às férias de Verão. Entretanto, o Espírito Santo providenciava para que outras pessoas qualificadas aparecessem para colaborar na difusão desta corrente de graça, que Paulo VI designou, na 2ª feira de Pentecostes de 1975, "une chance" uma graça, uma oportunidade para toda a Igreja. 


Irmãs Oblatas do Coração de Jesus

As Irmãs Oblatas do Coração de Jesus do Colégio da Rua das Praças, com a Irmã Rosa Brun à frente (ela havia feito a experiência carismática em Tours (França) no mês de Julho de 1974), estão na primeira linha da difusão deste "movimento", não só participando nas mais diversas actividades mas também facilitando-nos a capela e o ginásio para aí se realizarem encontros de jovens, celebrações litúgicas e, durante muitos anos, Seminários de Vida Nova no Espírito, especificamente para a Comunidade Pneumavita... Em capítulos anteriores já a elas me referi. 


Servas de Nª Senhora de Fátima

Precioso contributo ao Renovamento Carismático deram as Irmãs Servas de Nossa Senhora de Fátima. A Irmã Maria Gonçalves, que comigo colaborou, foi (como já se relatou) o instrumento de que Nossa Senhora se serviu para iniciar o Renovamento Carismático Católico, em Fátima. Ela foi o elo de ligação entre o polo de Fátima e o polo de Lisboa. Além das irmãs que mais de perto colaboraram com a Irmã Maria, no Santuário de Fátima, onde nasceu e se começou a desenvolver o Renovamento, em Lisboa, várias irmãs da Casa Generalícia, junto da Igreja de S. Mamede, deram um preciso e precioso contributo para a consolidação e difusão do Renovamento Carismático. Tendo participado em algumas reuniões, em Fátima, e depois nas Assembleias dos primeiros domingos na Casa Espiritana da Estrela, apaixonaram-se por esta espiritualidade carismática que as marcou indelevelmente e, como Servas, abriram não só as portas da Comunidade S. Mamede como se disponibilizaram para colaborar nas actividades que o grupo inicial (na Rua de Santo Amaro à Estrela) ia programando. Na impossibilidade de a todas me referir, quero sublinhar e prestar sincera homenagem de amizade e gratidão à Irmã Aurélia, na altura, Secretária Geral da Congregação (que Deus já chamou ao Seu Reino) e à Irmã Zulmira, antiga mestra de Noviças e naquele tempo Superiora da Comunidade. Uma e outra apaixonaram-se, verdadeiramente, pelo Renovamento Carismático Católico ao qual deram não só entusiasmo mas sobretudo amor e colaboração generosa. Foi na Casa das Servas de S. Mamede que os dois primeiros números da Revista PNEUMA, arquitectados pela equipa coordenadora, em máquina fotocopiadora (o melhor que havia a essa data) foram impressos, o nº 1 no Pentecostes de 1976 e o 2º no Natal do mesmo ano. A Irmã Zulmira, conhecida em todo o país pela sua dedicação à obra dos ciganos, viu no Renovamento uma graça extraordinária para, nos mais variados campos, evangelizar com os dons, os carismas e os frutos do Espírito Santo. Pôs a casa das irmãs ao serviço do Renovamento. Também lá se realizaram seminários de iniciação e de aprofundamento, muitas vezes com a presença do Senhor D. Maurílio de Gouveia, Arcebispo de Mitilene e Auxiliar de Lisboa.

O grupo que aqui se iniciou em 1976, rebento pujante do grupo inicial, foi baptizado com o nome "Emanuel". Durante muitos anos este grupo funcionou na Casa das Irmãs, em S. Mamede, e, depois de várias estações, continua vivo e activo na Capela do Centro comercial das Amoreiras. Deste grupo, fiel ao espírito do Renovamento, surgiram outros pequenos grupos ramificados por várias zonas de Lisboa. 


Irmãs Doroteias, do Colégio da Rua Artilharia Um

Naquele tempo, não só leigos mas também religiosos/as e sacerdotes, por necessidade ou curiosidade, compareciam em grande número nas Assembleias para participarem numa celebração carismática. Também as Irmãs Doroteias, do Colégio da Artilharia Um vinham participar na oração carismática, na Casa dos Missionários do Espírito Santo. Entre elas quero re-lembrar a Irmã Maria de Lourdes Silva, que, logo na primeira Assembleia em que participou, ficou de tal modo inebriada, envolvida e possuida pelo Espírito de Deus que, até à sua morte inesperada, em 4 de Julho de 1988, nunca mais abandonou a oração carismática, tornando-se, com o Dr. Manuel Teixeira, falecido no ano anterior, um verdadeiro pilar na construção do grupo/comunidade que já na altura se chamava "PNEUMA-ESPÍRITO E VIDA". Além de um profundo dom de oração e de contemplação, a Irmã Maria de Lourdes, modelo de simplicidade, descrição e generosa colaboração, era reconhecida por todos como tendo o dom da arte decorativa ao enfeitar, não só o altar para as celebrações litúrgicas, como também de embelezar, com gosto original, as salas onde se realizavam as diversas activiades carismáticas. Através dela a sua Superiora e muitas irmãs não só participavam nas reuniões carismáticas como nos abriram as portas do Colégio para ali realizarmos celebrações eucaristícas, cursos de aprofundamento e encontros de confraternização... 


Frei Fernando Faria O. Carmo, uma surpresa do Espírito

Por experiência própira, nestes anos (já passaram 31 anos desde que o Espírito Santo me envolveu nesta aventura) posso afirmar que, quando a obra é de Deus, no momento próprio Ele providencia, enviando as pessoas e proporcionando os meios necessários para a realização da Sua Obra. O Frei Fernando, teólogo-professo da Ordem do Carmo, a viver aqui ao lado, na Comunidade dos Carmelitas, junto da Igreja de Santa Isabel, ouviu falar nas Assembleias Carismáticas na Casa dos Missionários do Espírito Santo. Apareceu aqui no primeiro domingo do mês de Abril de 1975. Foi uma surpresa do Espírito, pois logo reconheci nele não só um jovem talentoso mas sobretudo um místico. No fim da Assembleia falamos longamente e logo se ofereceu para colaborar. Dei graças a Deus por esta surpresa do Espírito. No mês seguinte, o Frei Fernando apareceu acompanhado por um jovem que ia acompanhando espiritualmente, pois se tratava de um aspirante à vida carmelitana.

Este jovem de 15 anos, depois da ordenação sacerdotal de Frei Fernando, nomeado Mestre de Noviços, entrou no Noviciado, professou, ordenou-se sacerdote: chama-se Frei Pedro Bravo, também ele, depois da morte de Frei Fernando, Mestre de Noviços da sua Ordem.

Frei Fernando, ainda Seminarista de Teologia, foi um grande amigo e um fiel colaborador, não só na expansão mas também no aprofundamento do Renovamento Carismático em Lisboa. A sua experiência mística, enriquecida pela "efusão do Espírito", mostrou-lhe os horizontes infinitos da graça que é o Renovamento Carismático para a renovação da Igreja.

Como veremos adiante, foi nos meses de Março, Abril e Maio que este fogo de um novo Pentecostes se propagou para o Porto, Coimbra, Braga, Setúbal... O Senhor D. António Ribeiro, Patriarca de Lisboa, a meu pedido, dissera-me que iria delegar num Bispo Auxiliar do Patriarcado para acompanhar o Renovamento Pentecostal. Isto aconteceu em Novembro de 1975. Entretanto era necessário dar um mínimo de acompanhamento aos grupos que surgiam por toda a parte. Confiando totalmente na ortodoxia e competência espiritual de Frei Fernando, pedi-lhe para acompanhar mais de perto os grupos que germinaram em Lisboa, enquanto eu continuaria a coordenar o grupo/comunidade mãe, na Casa Espiritana da Estrela e acompanharia, tanto quanto possível, os grupos no resto do País. Deliberamos isto, com o grupo central, em oração e todos concordaram. Vivendo em Lisboa o Frei Fernando, com relativa facilidade, poderia ajudar os grupos que precisassem. Eu que estava encarregado da animação missionária e tinha meio de transporte, facilmente me poderia deslocar a Fátima, Porto, Coimbra etc.

O Renovamento Carismático em Lisboa e no País alastrava cada vez mais. Em Lisboa, além dos grupos já mencionados, (Oblatas do Sagrado Coração de Jesus, Servas de Nossa Senhora de Fátima, Doroteias) novos grupos germinaram: grupos de Arroios, Amadora, Falagueira, Buraca Bº de Santa Cruz de Benfica, Damaia, Ribamar, Lourinhã, Rio de Mouro, Sintra, Igreja de Fátima, SS. Sacramento etc. Todos os meses para todos os grupos de Lisboa, havia, na Casa dos Espiritanos ou numa das Casas Religiosas mencionadas, uma Assembleia de louvor, ensinamentos, testemunhos. Sempre havia Eucaristia e frequentemente, tempos fortes de adoração ao Santíssimo.

Nos primórdios do Renovamento, o espírito que nos unia a todos era, à maneira dos primerios cristãos de "UM SÓ CORAÇÃO E UMA SÓ ALMA". Este clima de fraternidade que se vivia em Lisboa tomava proporções, de maré alta, nos encontros de todas as Equipas Diocesanas que periodicamente se começaram a realizar em Fátima, como posteriormente relatarei.

 


P.e José da Lapa
Missionário do Espírito Santo

 

 

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