Primeiros contactos

 

 

Para a História do Renovamento Carismático em Portugal

 

ROMA - 1974




Uma semente acolhida, uma experiência inesquecível, um testemunho partilhado

 

Durante o ano lectivo de 1973-1974, fiz, em Roma, na Universidade Gregoriana, uma reciclagem teológica-pastoral. Fiquei hospedado no Seminário Francês, dependente da Conferência Episcopal Francesa mas dirigido pelos Missionários do Espírito Santo.

Após vinte anos de actividade pastoral, na L.I.A.M., na redacção da "Acção Missionária" e na coordenação vocacional (13 anos em Lisboa e 7 anos no Porto) os meus superiores e eu achámos que seria benéfica uma paragem, que entre os religiosos se chama "ano sabático". Este ano sabático aproveitei-o para aprofundar conhecimentos teológicos e pastorais, fazer cursos e retiros, dentro de vários movimentos: Mundo Melhor, Focolares, Oásis...

Pela primeira vez, em Roma, ouvi falar do Renovamento Carismático (Renouveau Charismatique, em francês). No Seminário Francês, um seminarista e dois sacerdotes ligados ao Renovamento, no grupo Hossana de língua francesa, perguntaram-me:

- O P.e José já ouviu falar e conhece o "Renouveau Charismatique"?...

- Não! Não sei o que isso é, respondi.

E eles interpelaram-me:

- Então o P.e José, Missionário do Espírito Santo, não conhece este "Movimento Pentecostal" que em 1967, depois do Vaticano II, irrompeu na Universidade Espiritana de Duquesne, Pittsburg, Estados Unidos e que, agora, alastra como fogo sagrado por todo o Mundo?!...

Isto aconteceu ao terminar o primeiro trimestre, no dia 13 de Dezembro de 1973. Logo me convidaram para ir com eles participar numa reunião do grupo Hossana.

Uma certa curiosidade me invadiu e como estava em Roma com grande sofreguidão de ver e experimentar novas formas de viver o cristianismo, logo tomei a resolução de, na primeira oportunidade, ir fazer uma experiência carismática.

E respondi-lhes:

- Nesta altura não posso. Até Janeiro, durante as férias de Natal, tenho várias actividades programadas. Comprometi-me a ir com eles em Janeiro de 1974.

 

As férias do primeiro trimestre passaram. Durante elas fiz um curso sobre o movimento OASIS, na Villa Sorriso, perto de Castelgandolfo.

Recomeçadas as aulas, no principio de Janeiro, quando na Gregoriana se falava por todos os lados nos grupos carismáticos, os meus amigos do Seminário francês, recordaram o meu compromisso.

 

 

O meu primeiro contacto com um grupo carismático

 

 

 

    No dia 8 de Janeiro de 1974, e pela primeira vez, participei numa reunião de um grupo  

    carismático. Esta reunião de oração realizava-se semanalmente, das 16 às 18h na Casa

    Generalícia das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, Via Giusti nº 12 (próxima da

    Basílica de Santa Maria Maior).

    Os colegas e amigos que me haviam convidado em Dezembro, relembraram-me o meu

    compromisso e, como anjos da guarda, acompanharam-me. Ainda me lembro dos seus

   nomes: P.e Chataignier, Verchaire, seminarista espiritano e P.e Francis Kohen, actual Conselheiro Pastoral da comunidade Emanuel, em França.

Naquela sala de reunião, após o acolhimento muito cordial, em cadeiras colocadas em semi-círculos, sentaram-se cerca de 100 pessoas: religiosas, sacerdotes, seminaristas e alguns leigos.

Um dos coordenadores saudou a todos, pediu para se apresentarem os que ali estavam pela primeira vez e sublinhou, com palavras muito simples e breves, a presença de Jesus que dará o Seu Espírito a quem Lhe abrir o coração.

Após um cântico ao Espírito Santo e um tempo de louvor inspirado, o ambiente tornou-se de profunda contemplação, entrecortada por breves leituras bíblicas, com ressonâncias espontâneas, cântico em línguas, profecia... Sentia-se que a oração nascia do coração da Assembleia.

O que mais me tocou (e interpelou) foi o chamado cântico em línguas, oração cantada por quase toda a Assembleia que transformou aquele salão num Cenáculo de Pentecostes: a paz, a alegria e uma harmonia indizivel eram o clima daquele espaço. Esse ambiente de paz, de calma e de harmonia invadiram-me, mas eu não era capaz de cantar assim...

Num ambiente de alegria e de descontração foram dados vários e belos testemunhos de vida Nova no Espírito Santo. A Assembleia rezou por algumas intenções especiais e, feitos alguns avisos, a reunião terminou com o Pai Nosso, cantado de mãos dadas...

Discretamente, deixando aquele ambiente de amor e de fraternidade, eu parti sentindo que aquelas duas horas foram para mim um momento de graça. Só uma dúvida me perseguia: mas afinal, que era aquilo de rezar, falar e cantar em línguas?...

 

Na semana seguinte o responsável informou que, no dia 24 de Fevereiro, se iniciariam os "Seminários de vida Nova no Espírito". Todos os que quisessem poderiam inscrever-se. Querendo levar esta experiência até às últimas consequências, inscrevi-me, com mais 50 pessoas, para esta caminhada de 7 semanas.

Entretanto fui tomando contacto com os grupos de língua espanhola, mesmo ao lado da Gregoriana, com o Grupo Maria de língua italiana e participei numa grande Assembleia Carismática, com todos os grupos de Roma, na Igreja Trinita dei Monti. As coordenadas destas reuniões e da Assembleia (com mais de 500 pessoas) eram, com tons mais ou menos acentuados, devido à língua, à cultura e ao número de participantes, as mesmas do grupo Hossana. Afectiva e efectivamente senti-me ligado ao grupo de língua francesa, onde até Maio fiz uma caminhada que marcou a minha vida de sacerdote e de missionário.

 

 

Lisboa , 24 de Março de 2001

P.e José da Lapa

Missionário do Espírito Santo

 

 

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