O TESTEMUNHO DE MARYANN SPRINGEL E PAUL GRAY

 

 

"Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito. Não me afastes da Tua presença, nem me prives do Teu Santo Espírito"(Sl 51, 12-13)

A Sociedade Chi Rho estava a atravessar um momento difícil: muitos dos seus membros queriam deixar a Igreja Católica e outros já tinham mesmo começado a voltar as costas para Deus. Por isso, um grupo de alunos mais preocupados queria que o retiro quaresmal daquele ano de 1967 fosse programado com um cuidado acrescido. Maryann Springel e Paul Gray, que estavam noivos, pertenciam a este grupo. 

Houve uma reunião para organizar o retiro e, por sugestão dos dois professores conselheiros da Chi Rho, o tema anteriormente definido ("O Sermão da Montanha e as Bem Aventuranças") foi alterado para "Os Actos dos Apóstolos". Paul ficou encarregue de fazer o primeiro ensinamento, que seria sobre o primeiro capítulo dos Actos, na manhã de sábado, e a Maryann coube o terceiro ensinamento, sobre o terceiro capítulo, no domingo, também de manhã. 

"Que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens mas sobre o poder de Deus" (1 Cor 2, 5) 

Após a reunião, Paul, que já tinha acabado o curso de Teologia em Duquesne, partiu para Nova Iorque, onde ia começar um mestrado em Teologia na Universidade de Fordham. Logo que chegou, começou a preparar o ensinamento e, durante as três semanas que o separavam do início do retiro, ocupou integralmente o seu tempo a consultar a imensa bibliografia disponível e a fazer pesquisas, tendo recolhido um tal volume de informações que não teve tempo para as organizar para o ensinamento.

Assim, quando chegou a Pittsburgh para o retiro, sentia-se duplamente ansioso: por um lado, o prazer de reencontrar a noiva e os amigos da Chi Rho; por outro, a insegurança de não ter preparado devidamente a palestra. Os nervos foram-se acastelando de tal maneira que, ao pequeno almoço de sábado, não conseguiu comer nada. E quando ocupou o seu lugar na sala de conferências, sentiu-se totalmente incapaz de coordenar as ideias. 

Conforme combinado, o "Veni, Creator Spiritus" marcou o início daquela e de todas as outras conferências. À medida que os presentes entoavam o hino, Paul passou por uma experiência extraordinária: uma serenidade crescente foi substituindo a insegurança, as mãos foram aquecendo e, quando o cântico terminou, começou logo a falar. E Paul surpreendeu-se a si próprio, não só porque as ideias se foram desenvolvendo com toda a calma e coerência, mas sobretudo porque disse coisas de que nunca tinha ouvido falar e que não constavam dos seus apontamentos. Quando acabou, teve a certeza de que não merecia os elogios que lhe deram pela qualidade do ensinamento; o mérito era totalmente de Jesus. Porque a sabedoria quer sempre deixar-se encontrar por aqueles que a buscam com sinceridade de coração (cf. Sb 1, 1-2).

"Digo-vos ainda: se dois de entre vós se unirem na terra para pedir qualquer coisa, hão-de obtê-la de meu Pai que está no céu"(Mt 18, 19)

Maryann e Paul já tinham ouvido falar da efusão do Espírito Santo num serão em casa de amigos da universidade, onde também se encontrava um dos professores conselheiros da Chi Rho (este professor era Ralph Keifer, que também estava no retiro). Quando, no segundo ensinamento de sábado, a conferencista falou sobre o Pentecostes e os dons carismáticos como ocorrências que ela própria já tinha experimentado na sua vida, os dois noivos sentiram uma profunda vontade de também eles receberem essa graça. Enquanto esperavam pela hora de jantar, foram pedir a Ralph Keifer que orasse por eles. Subiram ao primeiro andar e ali, num quarto cheio de sacos-cama e de pijamas, ajoelharam-se e o professor, impondo as mãos sobre as suas cabeças, começou a rezar, primeiro em inglês e, depois, numa língua que nunca tinham ouvido. 

Maryann e Paul entregaram as suas vidas a Jesus e o Senhor enviou-lhes o Seu Espírito. Totalmente mergulhados no amor de Deus, Jesus vivo e ressuscitado estava ali presente, era quase possível tocá-l'O. Maryann sentiu-se como se tivesse dentro de si um balão que se enchia e a enchia de uma alegria tão grande que lhe explodia na garganta, fazendo-a sorrir para Jesus e entrar num louvor contínuo; Paul, sentindo a lingua a mover-se para cima e para baixo e a produzir uns barulhinhos estranhos, começou a ceder a esta nova linguagem, isto é, abriu-se ao dom de línguas. Cheios do Espírito, voltaram para o grupo, mas não contaram nada sobre o que lhes tinha acontecido.

"Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos e eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Paráclito, para que fique eternamente convosco" (Jo 14, 15-16)

Já depois do jantar, Maryann e Paul estavam a sair da capela, onde tinham estado a rezar, quando viram o David entrar e cair de cara no chão. Logo a seguir, eles próprios cairam também. Sentiram crescer dentro de si um tão grande e santo temor de Deus que não eram capazes de olhar para cima. "Deus estava pessoalmente presente e nós temíamos ser amados de mais", disse Paul. "Era como se Ele, brilhante e esplendoroso, tivesse entrado na sala e enchesse tudo e todos". Ao mesmo tempo, o Senhor trouxe-lhes o entendimento completo do episódio da sarça ardente no Horab. E ajoelharam-se em adoração, nada mais existindo para além deles e do Senhor. 

Entretanto, mais alunos foram chegando à capela e foram caindo de joelhos, a cantar, a louvar, a chorar, de tal modo era devastadora e magnificente a presença do Senhor. Os professores conselheiros também chegaram e moviam-se entre os alunos, impondo as mãos e pedindo a efusão do Espírito Santo para cada um. Maryann e Paul olhavam-se e olhavam para os outros cheios de uma gloriosa admiração porque todos pareciam transfigurados. E naquele ninho de bem aventuranças, as suas vozes continuavam a subir em clamores: "Jesus, eu amo-te", "Sim, Pai", "Meu Deus, meu Deus". Começaram a ouvir-se orações e cânticos em línguas à medida que o calor aumentava. Maryann e Paul sentiram que se estava a repetir o Pentecostes de Jerusalém e ali ficaram até de madrugada.

"A sabedoria encherá toda a casa com os bens que produz e os celeiros com os seus tesouros" (Ecli 1, 17)

Logo que chegou ao quarto, Maryann só pensou no ensinamento que iria fazer no dia seguinte de manhã. Queria muito impressionar favoravelmente não só os colegas, mas sobretudo o noivo, e a verdade é que ainda não tinha nada pronto, nem nas mãos, nem na cabeça. Pronto apenas estava um bonito vestido que levara horas a escolher, bem como um par de sapatos de salto alto que tencionava usar naquela altura.

Quando acordou, o seu primeiro pensamento foi "Louvado seja o Senhor"; o segundo foi "Ó meu Deus, tenho que fazer o ensinamento"; e começou a vestir-se com um terceiro pensamento: "Tenho que ir bonita para impressionar o Paul". Olhou, então, para as roupas que tinha usado na véspera e que estavam todas amachucadas dentro da mala. De imediato sentiu os olhos de Deus postos em si, fixando-a, cingindo-a, porque Ele, conhecendo bem a futilidade dos pensamentos humanos, logo foi em seu socorro e põs no seu coração sentenças justas. Amparada pela bondade de Deus, Maryann ouviu-se rogar: "Senhor, não consigo deixar de ser vaidosa e de me preocupar com o que os outros pensam da minha aparência. Senhor, quero ser outra pessoa e é só conTigo que me quero preocupar. É a Ti que quero oferecer o meu ensinamento. É por Ti que vou usar as roupas amachucadas para veres como preciso da Tua ajuda e da Tua misericórdia". Mal vestida entre as amigas bem vestidas, Maryann foi tomar o pequeno almoço mas sempre muito nervosa porque se aproximava a hora da palestra. 

Enquanto cantavam o hino ao Espírito Santo, o medo frio e húmido cedeu lugar a um calor que a inundou totalmente e começou a falar com uma sabedoria que não era a sua. Nesta altura percebeu como a graça a tinha vindo salvar e o Espírito Santo descera sobre ela. Várias vezes foi interrompida por orações e louvores e o longo aplauso no final serviu, não para seu gozo próprio, mas para dar força à vontade que sentia de tudo agradecer Àquele que tudo providenciara. E quando abriu a boca para louvar e dar graças, foi em línguas que falou. 

Insondáveis são os caminhos do Senhor e preciosos são os Seus desígnios. Para estes noivos, decerto para se sentirem mais fortalecidos na sua união e na fé que os unia, Deus escolheu actuar de um modo semelhante, isto é, tomando posse deles e pondo nas suas bocas as palavras que tinham que ser ditas.

"Com efeito, Cristo Jesus é a nossa paz. Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade. Porque é por Ele que uns e outros, num só Espírito, temos acesso ao Pai"( Ef 2, 13-14, 18)

Após o retiro, Maryann e Paul sentiram uma profunda transformação na qualidade da sua fé: de um nível intelectual, de saberes aprendidos nos livros e que se contenta com palavras e ideologia, a fé passou para o nível do coração, do concreto, da experiência vivida, esperando pacientemente na certeza dos frutos do Senhor, que sempre lavra e semeia na altura própria. 

Regressado a Nova Iorque, Paul encetou uma vasta campanha testemunhal em todos os locais possíveis. A pedido do reverendo Harald Bredsen, o seu relato e experiência do fim de semana de Duquesne estendeu-se também a vários grupos de protestantes, para lhes dar a conhecer o que Deus estava a fazer no âmbito da Igreja Católica. E surpreendeu-se ao constatar o entusiasmo com que estas notícias eram recebidas. Maryann, que ficou em Pittsburgh, começou a aprender sobre reuniões de oração carismáticas e também sobre a vida em comunidade.

Durante o verão, foram fazer uma experiência de vida comunitária na paróquia do reverendo Bredsen em Nova Iorque, juntamente com outros estudantes de Duquesne, onde perceberam, por meio de profecias e de palavras de conhecimento, qual era a vontade do Senhor para ambos: trabalhar numa dimensão ecuménica, restabelecendo a união e a harmonia entre várias igrejas cristãs. O Senhor pedia-lhes que fossem apóstolos dos valores universais do Evangelho, promovendo a unidade pela fonte que é o Espírito Santo. Era o Renovamento Carismático Católico a operar como fermento de reconciliação e profeticamente virado para as questões ecuménicas, que tanto têm feito a diferença no pontificado de João Paulo II.

Maryann e Paul entregaram-se a esta missão e continuam, nos dias de hoje, a sentir o poder e o amor de Deus a actuar, derrubando muralhas, renovando corações, criando paz e unidade entre igrejas de várias denominações. Por esta união rezou Jesus instantemente na oração da última ceia (Jo 17).

 


Isabel Moraes Marques

 

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