O TESTEMUNHO DE DAVID

 

 

 

"Confia no Senhor de todo o teu coração e não te fies na tua própria inteligência. Reconhece-O em todos os teus caminhos e Ele endireitará as tuas veredas" (Pr 3, 5-6)

David Mangan nasceu e foi educado no seio de uma boa família católica. Desde muito pequeno, sentiu o amor real de Deus na sua vida e era-lhe inconcebível a ideia de que alguém pudesse viver afastado de Jesus Cristo. Em 1966 licenciou-se em Matemática e Física pela Universidade de Duquesne. Tinha então vinte e um anos e era catequista e um dos membros mais activos na sua paróquia.

Quando se planeou o retiro de 17, 18 e 19 de Fevereiro de 1967, David foi convidado para fazer a primeira de uma série de quatro palestras sobre o Espírito Santo. No entanto, houve duas razões que o levaram a declinar o convite: não só considerava que sabia muito pouco sobre o Espírito Santo, como também tinha sérias dúvidas sobre o modo como o Espírito actuava. A leitura do livro de David Wilkerson "A Cruz e o Punhal", recomendada a todos os que íam participar no retiro, deixara-o algo confuso, sobretudo o dom de línguas, mas fê-lo perceber que o poder de Deus estava ausente da sua vida. Portanto, David foi para o retiro predisposto a aprender mais sobre o Espírito Santo e a deixar que Deus fizesse nele o que tivesse de ser feito.

"Aquele que nos fortalece convosco em Cristo e nos dá a unção é Deus, que nos marcou com o Seu selo e colocou nos nossos corações o penhor do Espírito" ( 2 Cor 1, 22-23)

Estavam previstas quatro palestras para o retiro, uma sobre cada um dos quatro primeiros capítulos dos Actos dos Apóstolos. A primeira e a segunda tocaram-no especialmente. Na primeira, pelas considerações que o conferencista (Paul Gray) teceu à volta do oitavo versículo: "Mas ides receber um poder, o do Espírito Santo, que descerá sobre vós (Act 1, 8a). Paul explicou que a palavra grega para "poder" é a mesma que a língua inglesa usa para "dinamite" e David percebeu que, apesar de ter levado toda uma vida de católico comprometido, dificilmente poderia dizer que a sua vida de fé tinha o poder do dinamite. Então perguntou a si próprio: " Será que o Espírito Santo é realmente assim tão poderoso?" Na segunda palestra, Flo Dodge, a conferencista, leu o segundo capítulo do livro dos Actos e afirmou, com a convicção de quem já tinha experimentado, " isto tudo está a acontecer nos dias de hoje". Insistiu na importância da oração, da fé expectante e da abertura ao dom de línguas. David, como que em desafio, fez duas anotações no seu bloco de apontamentos pessoais: "Quero ouvir alguém a falar em línguas...EU" e "Tenho que ser um tolo para o Senhor". Mal ele sabia que, muito em breve, estas duas coisas iriam mesmo acontecer.

Depois desta segunda palestra, formaram-se grupos de partilha. David continuava a não compreender por que razão a sua vida espiritual não tinha o poder do dinamite, ele que tinha recebido o Espírito Santo no Baptismo e na Confirmação. Por força da sua formação académica, David estava treinado a raciocionar matematicamente, sendo por isso muito analítico. Então, deteve-se a pensar sobre os sacramentos e a sua eficácia. Sabia que a maior ou menor abundância da graça depende das disposições da pessoa que recebe o sacramento e, relembrando o dia da sua Confirmação (era ainda muito criança), constatou que a sua grande preocupação tinha sido saber que prenda iria receber do padrinho. Portanto, concluiu que, agora já adulto, era-lhe necessário renovar a Confirmação para poder receber a plenitude do Espírito. Fez esta proposta aos colegas do grupo mas estes acharam que ele estava a tomar as coisas demasiado a sério. Só a Patti aceitou a sua sugestão. E foram os dois dar uma volta pelos jardins enquanto conversavam sobre o assunto. 

"Homem fraco na fé, porque duvidaste?" (Mt 14, 31)

No final da tarde, houve um problema com a bomba de água que servia a casa onde se encontravam, a água começou a faltar e, caso o abastecimento não fosse restabelecido, teriam que abandonar o edifício. "Não podemos fazer nada!", diziam uns para os outros. Então, um dos professores conselheiros sugeriu que fossem para a capela rezar para que a água viesse. Rezaram durante bastante tempo e, a certa altura, sem saber como e em voz alta, David começou a agradecer a Deus por aquela água. Foi a primeira vez que isto aconteceu na sua vida: agradecer a Deus antecipadamente pela Sua resposta. Só mais tarde aprenderia, no Renovamento Carismático, que é assim mesmo que devemos fazer. Continuou a louvar e a dar graças não só por aquela água que o Senhor acabara de providenciar, mas por todas as águas que existem na terra: regatos, cascatas, fontes, oceanos, chuvas, lagos.

Quando a oração acabou, desceu à cozinha, abriu uma torneira e a água jorrou mais forte do que anteriormente. Exclamou baixinho: "Claro que há água!" E depois de o anunciar aos outros, decidiu que tinha que voltar à capela para agradecer ao Senhor. Logo que entrou, uma força poderosa fê-lo prostrar-se e desatou a chorar como nunca antes lhe acontecera porque era um choro muito forte e sem lágrimas. "A presença de Senhor era tão evidente que se podia esculpir com uma faca", disse . E pensou no tal dinamite. 

"O Todo Poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o Seu nome" (Lc 1, 49)

Saíu da capela a cambalear e, meio zonzo, começou a descer ao andar de baixo porque estava na altura de começar uma breve vigília bíblica, a que se seguiria uma pequena festa para celebrar o aniversário de vários participantes, incluindo o do seu irmão Tom, que todos conheciam muito bem mas que se encontrava em serviço no Peace Corps na Turquia. 

Enquanto descia, ía dizendo para si mesmo: "David, os matemáticos não se descontrolam desta maneira. Será que isto foi mesmo real? Tu não és emotivo, não te deixas convencer com facilidade, também habitualmente não choras. Nada disto parece teu. Vamos ver se volta a acontecer." Entrou de novo na capela e voltou a ir de cara ao chão, com os braços abertos em cruz. A sensação do amor de Deus era de tal modo avassaladora que David começou a rezar sem pensar nas palavras que dizia. Jesus estava ali, vivo e ressuscitado, e David sentia-O junto a si. 

Continuou a rezar por uns instantes, saíu, a dúvida voltou a surgir, entrou na capela e tudo se repetiu. Entretanto, David viu que alguém tinha entrado na capela e estava ali a rezar. Olhou, era uma das alunas. David, sem poder conter a enorme felicidade que sentia, disse-lhe: "Amo-te muito!" e pediu-lhe que lesse qualquer coisa na Bíblia. Ouvindo a rapariga ler, teve um encontro com Cristo ainda mais forte do que o anterior. Quando tentou falar com outros colegas que entretanto tinham chegado, percebeu que só lhe saíam sons esquisitos que ninguém entendia. Invadia-o um sentimento muito forte do amor de Deus e ali se deixou ficar naquela amena inquietude, naquele gozo e naquela certeza de que o Espírito Santo tinha descido sobre si. O tempo passou e quando, profundamente em paz, conseguiu falar, só foi capaz de dizer: "Isto é a verdade que eu vim procurar".

Dormiu muito pouco nessa noite mas, ao acordar, estava tão repousado como se tivesse dormido longas horas. Era domingo e, conforme programado, houve uma terceira palestra. No momento de oração que se seguiu, David voltou a encontrar-se pessoalmente com Deus. O Senhor tinha verdadeiramente tomado conta de si, conhecia as suas necessidades e tinha-lhe mostrado quão fraca era a sua fé.

Descobriu que a maior parte do presentes tinha também recebido o Espírito Santo. Nessa experiência notável Deus revelara-se-lhes duma maneira totalmente nova, dando uma outra dimensão à sua vida de cristãos.

"Felizes sois se sofreis injúrias por causa do nome de Cristo, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus repousa sobre vós" (1 Ped 4, 14)

Terminado o fim de semana, David começou a passar pelas dificuldades e incompreensões que se geraram à volta dos que tinham, então, recebido a efusão do Espírito. Naquela época, era muito impopular ser "carismático" e, por isso, David era constantemente importunado com situações e perguntas desafiadoras que tentavam pôr em causa a credibilidade daquela experiência pentecostal que ele tinha vivido, bem como a sua permanência pessoal na Igreja. Mas, quanto mais difíceis eram as situações, maior era a força com que Deus pegava na sua mão para o guiar, assim como era cada vez maior a gratidão que sentia pela Igreja Católica. Fora no seio da Igreja Católica que David não só tinha conhecido, desde criança, o amor de Deus, como também experienciara a Sua presença real e o poder do Seu Espírito. 

Quando David compreendeu, com toda a certeza, que era na Igreja Católica que o Senhor queria que ele continuasse a caminhar, teve a plena consciência de que só nesta altura se tinha tornado um católico adulto, e a partir daí assumiu-se verdadeiramente um soldado de Cristo, capacitado para toda uma vida de oração e de serviço. Depois de passar por uma fase de fascínio pelos dons do Senhor, passou à fase de total fascínio pelo Senhor dos dons. Não mais se deixou intimidar pelas opiniões dos outros e a sua única preocupação passou a ser a obediência à vontade divina. 

Sobre o seu crescimento na aceitação da vontade de Deus, David conta o episódio que se segue. Era necessário escolher um novo coordenador para o grupo de oração, pelo que entraram num tempo de oração e de jejum. Durante a oração, David sentiu que o Senhor lhe dizia: "És tu". David respondeu: "Senhor, nem penses nisso. Não imaginas como sou ignorante e imaturo". Mas, porque o Senhor voltou a dizer: "És tu", David ouviu o seu coração responder: "Senhor, se Tu quiseres que isso aconteça, a bola está no Teu campo e a jogada é Tua". Quando, mais tarde, o grupo de oração veio partilhar o discernimento que tinham estado a fazer, apontaram para ele e disseram: " Deus quer que o David seja o nosso novo coordenador". E David aceitou, por ser a vontade de Deus.

"Ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: "Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles, eles serão o Seu povo e Ele, Deus com eles, será o seu Deus"(Ap 21, 3)

Olhando para trás, David guarda aquele fim de semana como um tesouro precioso que jamais teria alcançado sem a acção do divino Espírito Santo e a partir do qual toda a sua vida se transformou. Convicto de que "os velhos tempos felizes que não voltam mais" são os dias de hoje, porque o Espírito continua a actuar como então, vive cada vez mais na certeza de que o Renovamento Carismático Católico é um instrumento privilegiado que Deus inspirou para construirmos, com Ele, um povo que produza abundantes frutos, que O ame e que se ame. Assim o Reino crescerá até atingir a plenitude no final dos tempos, quando Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, tudo entregar ao Pai, a fim de que Deus seja tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 24-28). 

 

 

Isabel Moraes Marques

 

 

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