A cruz e o Punhal

 

 

Em Agosto de 1966 realizou-se em Kansas City, no estado de Missouri, EUA, a Convenção Nacional dos Cursilhos de Cristandade, na qual estiveram presentes Ralph Keifer e William Storey, dois professores leigos da Universidade do Espírito Santo de Duquesne. Aqui encontraram os seus amigos Ralph Martin e Steve Clark, também eles cursilhistas, convidados para fazer as palestras de abertura e de encerramento da convenção. Ralph Martin e Steve Clark tinham acabado de ler o livro "A Cruz e o Punhal" e aconselharam vivamente a sua leitura aos dois professores de Duquesne, que o leram logo que regressaram a casa.

 

"A Cruz e o Punhal" é o testemunho autobiográfico de um pastor pentecostal no meio das quadrilhas mais perigosas de Nova Iorque e de como as vidas destes jovens marginais ficavam totalmente transformadas depois de receberem a efusão do Espírito Santo. Do ministério deste pastor irá nascer o Centro de Reabilitação "Teen Challenge", hoje com filiais nas principais cidades do mundo.

A leitura de "A Cruz e o Punhal" foi pedida a todos quantos iam participar no retiro do fim de semana de Duquesne e, através dos testemunhos prestados, sabemos como este livro despertou neles uma profunda fome espiritual, fazendo crescer mais e mais o desejo de que o poder misericordioso do Espírito Santo actuasse nas suas vidas. Afinal, o mesmo Espírito que, dois mil anos atrás, de um grupo de homens cheios de medo constituira intrépidos apóstolos, lançando-os para a diáspora do Evangelho de Jesus Cristo. 

No propósito de continuar a divulgar os primórdios do Renovamento Carismático na Igreja Católica, iniciamos um breve resumo desse interpelante registo que foi, é e continuará a ser "A Cruz e o Punhal". 

 


"Pela fé conquistaram reinos, exerceram a justiça, conseguiram as promessas, taparam as fauces dos leões, extinguiram a violência do fogo...hauriram força da própria fraqueza" (Hb 11, 35ss)

O reverendo David Wilkerson servia a Igreja Pentecostal em Philipsburgh, uma cidadezinha do interior no estado da Pensilvânia, a cerca de seiscentos quilómetros de Nova Iorque. Naquela comunidade de pessoas humildes, honestas e tementes a Deus, o trabalho do Rev. David desenvolvia-se com muito sucesso: foram construídas uma igreja nova e a casa paroquial, o orçamento missionário aumentava semana a semana e era cada vez maior o número de fiéis. 

Através da oração, David procurava sempre conhecer a vontade de Deus para a sua vida e agir em conformidade. No entanto, a partir de certa altura, começou a sentir uma crescente insatisfação espiritual e, numa noite de Fevereiro de 1958, resolveu vender o seu televisor (era o único na família que costumava ver televisão) e passar, em oração, aquelas duas horas a seguir à meia-noite que diariamente gastava em frente do écran. Fechado no seu escritório, David aprendeu como é importante fazer a diferença entre oração de petição e oração de louvor; como é maravilhoso passar uma hora inteira louvando e dando graças; como é frutuoso uma leitura sistemática da Bíblia.

 

Numa destas noites, em que se sentia particularmente agitado (sem que para tal houvesse razão, pensava ele) e após várias hesitações (o quê, cair na armadilha de ler uma revista enquanto devia estar em oração ?!), o Senhor fê-lo pegar num exemplar da revista "Life". Ao folheá-la, David deu com um desenho sobre um julgamento que se estava a realizar na cidade de Nova Iorque: sete membros de uma famosa quadrilha de adolescentes, "Os Dragões", estavam a ser julgados pelo brutal assassínio de Michael Farmes, um jovem paralítico de quinze anos. 

Ao olhar os seus rostos, onde se estampava uma expressão mista de espanto, ódio e desespero, David começou a chorar e o Senhor pôs repetidamente no seu coração estas palavras: "Vai a Nova Iorque e ajuda estes meninos". David ainda respondeu: " Senhor, Nova Iorque, tão longe, nunca lá estive! E sabes que eu não entendo nada de crianças!" Mas o Senhor continuava a insistir: "Vai a Nova Iorque e ajuda estes meninos". David compreendeu que tinha de partir imediatamente para Nova Iorque.

No dia seguinte, reuniu a comunidade, mostrou-lhes aquela página da revista e, perante a incredulidade dos fiéis (Quem é que não sentia aversão por aqueles drogados?) manifestou a sua vontade de ir a Nova Iorque e pediu-lhes dinheiro para a viagem. Apesar de não perceberem as razões do pastor, vieram silenciosamente à frente e, um a um, colocaram as suas ofertas sobre a mesa da comunhão: 75 dólares, quase o suficiente para ir a Nova Iorque de automóvel e voltar. Telefonou para Gwen, a sua mulher, a passar uns dias com os filhos em casa dos avós, e partiu para Nova Iorque, acompanhado por Miles Hoover, o responsável pelos jovens da sua igreja. Na mão, aquela página arrancada da revista "Life".

Já a rolar pela estrada, David pediu a Miles que abrisse a Bíblia ao acaso, pousasse o dedo e lesse. Durante muito tempo, essas palavras do Senhor irão ser o seu único estímulo: " Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão. À ida, vão a chorar carregando e lançando as sementes; no regresso, cantam de alegria transportando os feixes de espigas " (Sl 126, 5-6).

"Sem mim nada podeis fazer" (Rm 3, 21)

 

Chegado a Nova Iorque, David tentou, em vão, contactar o promotor de justiça. Conseguiu saber, no entanto, que a única pessoa que poderia autorizar a visita àqueles sete jovens era o próprio juíz Davidson, que estaria presente no julgamento no dia seguinte, de manhã cedo. Sem pequeno almoço, chegaram na manhã seguinte ao tribunal: havia já uma fila de quarenta pessoas para entrarem e apenas quarenta e dois lugares disponíveis para o público; David e Miles ocuparam, pois, os dois últimos lugares.

Dentro de grandes medidas de segurança (temia-se um ataque ao juíz Davidson por parte de elementos da quadrilha "Os Dragões", que o haviam ameaçado), os jovens entraram, algemados a um guarda, deu-se início ao julgamento e a manhã passou-se com a audição de várias testemunhas. Quando a sessão foi dada por terminada, David, pressentindo que iria perder a única oportunidade de falar pessoalmente com o juíz, fez uma oração rápida e correu para a frente da sala com a Bíblia na mão. Foi agarrado pelos guardas, levado para fora da sala, identificado e revistado. Alguns jornalistas e fotógrafos ali presentes conseguiram uma surpreendente notícia de primeira página: um pregador com os olhos arregalados, o cabelo desalinhado e acenando com a Bíblia, tinha interrompido e sido expulso do julgamento do homicídio de Michael Farmes.

Logo que os deixaram sair com a promessa de não voltarem, David e Miles correram para o carro, partiram e David chorou sem parar durante vinte minutos, questionando-se sobre qual era realmente a vontade de Deus. Será que não se tinha enganado? Mas as palavras do salmo fizeram-se presentes com todo o seu poder.

 

De regresso a Philipsburgh, David quis passar primeiro por casa dos pais. Como uma criança quando se magoa, queria chorar um pouco no seu ombro. E pensava: "Qual será a sua atitude quando virem a notícia no jornal?" Afinal , o nome deles também fora exposto ao ridículo. Os pais acolheram-no com muita alegria, ainda que preocupados porque aquele acto podia fazer com que David perdesse a sua posição na igreja. À partida, a mãe deu-lhe um conselho no qual pensou durante todo o resto do caminho: "Quando chegares a casa, não te apresses a dizer que estavas errado. O Senhor trabalha de maneiras misteriosas para executar as Suas maravilhas. É possível que tudo isto faça parte de um plano que tu ainda não conheces." Foi difícil enfrentar a população de Philipsburgh e muito mais difícil foi enfrentar a sua comunidade de fiéis no primeiro domingo, mas todos compreenderam que, apesar de ter agido como um tolo, as intenções do pastor eram boas.

"E destes factos somos testemunhas nós e o Espírito Santo que Deus concedeu aos que se submetem a Ele"( Act 5, 31)

David retomou os afazeres usuais mas, na sua oração nocturna, David começou novamente a ouvir uma ordem do Senhor para que voltasse a Nova Iorque. Desta vez, a ordem vinha acompanhada por um versículo: "Sabei que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito". David não tinha dinheiro e não queria voltar a pedir aos membros da sua igreja. Mas um dia, sem saber como, levantou-se do seu lugar e pediu. A oferta dos fiéis dava precisamente para ir a Nova Iorque. E de novo David partiu com Miles.

Ao entrar na cidade, David rezou assim: "Senhor, não faço a mínima ideia porque permitiste que acontecesse o que aconteceu na semana passada, nem por que razão estou a voltar para esta confusão. Não peço que me reveles os Teus propósitos; apenas que guies os meus passos." A certa altura, David sentiu que devia descer do carro e, por isso, estacionaram logo que apareceu um lugar vago. Mal começara a caminhar, ouviu uma voz: "Olá, David. O senhor não é aquele pregador que foi expulso do julgamento? Vi a sua fotografia no jornal." Era Tomé, o presidente da quadrilha "Os Rebeldes". Tomé apresentou-o aos restantes membros da quadrilha e levou-o também a conhecer uma outra quadrilha, "Os Grandes Bandidos", reunidos num lugar escuro, frio e mal cheiroso. Neste ambiente promíscuo, de rapazes e raparigas de olhar parado e com os braços totalmente picados, David pregou o seu primeiro sermão em Nova Iorque. Disse-lhes simplesmente que Deus os amava muito e que queria dar-lhes tudo aquilo que as coisas do mundo nunca conseguiriam: uma vida renovada e em liberdade, plena de paz e de alegria.

 

De regresso ao automóvel, David ficou arrepiado, como sempre lhe acontecia quando sentia os perfeitos desígnios de Deus. Afinal, aquela notícia nos jornais que tanto o amargurara fora a porta aberta para as quadrilhas de jovens, que o aceitaram e passaram a considerar como "um dos nossos" visto que a polícia não gostava deles e também não gostava do pregador.