ADVENTO: ESPERANDO POR DEUS

Reflexão para PNEUMAVITA Igreja da Conceição, Rato, aos 10 / 12 / 2019

Promessa: a palavra vem do Latim: pro+mettere: enviar para frente, em direção de … Uma flecha, uma vez tirada, não pode ser chamada de volta. Tem de ir em direção ao alvo. A promessa de Deus é irrevogável: tem de chegar ao alvo. Somos nós que podemos falhar, não acreditando, ou não esperando.

Um tempo de esperança é um tempo em que olhamos para o futuro com o desejo de receber algo de bom, ou a solução de um problema, ou melhores condições de vida ou uma melhora no relacionamento com os outros etc. Ora, isto pressupõe um VAZIO, uma situação dolorosa ou não satisfatória. E a espera custa, porque não temos a certeza: será que a situação vai ficar come está, ou será que vai melhorar? Quando alguém bom e de confiança nos faz uma PROMESSA, a espera está cheia de esperança. Ora, Deus fez uma promessa ao velho Abraão: de um filho pela sua esposa Sara, uma terra e uma bênção para os seus descendentes e para o mundo inteiro. Ele e Sara esperaram anos e anos – e finalmente o filho chegou: era Isaac. Mas a terra prometida só veio séculos depois da morte de Abraão, Isaac e Jacob quando Israel ocupou a terra de Palestina. Depois de uns anos de independência nos reinados de David e Salomão, houve guerra civil e a divisão do território. Depois, vieram nações mais poderosas e oprimiram o povo, ocuparam a terra deles e tentaram eliminar a sua cultura e a sua religião. Os séculos foram passando sem haver uma melhora e a maioria do povo de Israel abandonou a fé em Deus: adoptaram a religião pagã dos vizinhos. Contudo, um pequeno grupo de fiéis – um pequeno resto – continuou a esperar, convencido de que Deus cumpriria a sua promessa um dia. O pequeno resto era composto de pessoas humildes, sem poder e muitas vezes pobres. Os anos foram passando. E de repente Deus interveio. S. Lucas começa o seu evangelho com algumas destes humildes fiéis: Maria e José, Zacarias e Isabel, Simeão e Ana.

 Zacarias e Isabel esperavam toda a vida para ter um filho, mas nada: Isabel estava estéril. Já eram velhos, quando, um dia, Zacarias entrou no templo para oferecer sacrifícios. De repente, o anjo Gabriel veio e anunciou que eles iam ter um filho. Zacarias, surpreendido, duvidou. Ficou silenciado pela sua falta de fé. O filho João veio. E Zacarias começou a falar, louvando a Deus que honra a sua promessa proclamada pela boca dos santos profetas, e o juramento que fez “ao nosso pai Abraão”.

Maria, uma jovem desposada com José, está ocupada nos seus afazeres diários, quando o anjo Gabriel aparece. Anuncia-lhe que vai ter um filho que será o salvador tão esperado. Maria não está à espera de um bebé, está à espera de se juntar com o seu noivo e então o casamento será ratificado. Perturbada, pergunta como é que isto vai se cumprir. “Pela força do Espírito Santo”, responde Gabriel. Deus espera a resposta de Maria; não obriga ninguém. Maria responde à anunciação do anjo com a sua anunciação: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.” Maria abandona o seu desejo para adoptar o desejo de Deus.

As mães que esperam: Maria e Isabel

Gabriel deu à Maria um exemplo do poder de Deus: a sua velha e estéril parente Isabel já está no sexto mês. Maria vai ao seu encontro. João Batista salta de alegria no seio da sua mão com o som da voz de Maria, e o Espírito Santo enche Isabel, que proclama: “Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.” Deus cumpre a sua promessa. Valia a pena os séculos de espera e de esperança! Maria glorifica o Senhor dizendo: “Pôs os olhos na humildade da sua serva, o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas; santo é o seu nome.” Isabel e Maria representam toda a Escritura. O velho testamento e o novo testamento se reúnem na saudação da mulher velha e da mulher nova.

Simeão e Ana

Oito dias depois do nascimento de Jesus, os pais o levam ao templo, onde encontram duas pessoas à espera, Simeão e Ana. Eles passaram a vida na ânsia de ver o cumprimento das promessas de Deus. São idosos fora do comum, porque a sua preocupação é inteiramente com o futuro. Não vivem para trás, mas para a frente. Algo ainda para acontecer dá-lhes a sua razão de viver. Vivem com expectativa e esperança, aguardando aquele que será o consolo do seu próprio povo e a luz dos gentios. São idosos totalmente abertos: têm fome do cumprimento da promessa e esperam o dia em que o possam ver por si. Ana “pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.”

ADVENTO

Zacarias e Isabel, Simeão e Ana, esses velhos são os nossos mestres: são os que resistem, os que andam por aí, os que vivem na esperança obstinada da boa nova. O tempo de Advento lembra-nos de que devemos esperar juntos por Deus dentro de uma comunidade na expectativa. O Advento nos recorda nossa pobreza radical diante de Deus. Orienta cada ano litúrgico teologicamente, lembrando-nos que não podemos compreender Deus, não podemos possuir Deus, não podemos ver Deus. Como os anciãos no início do evangelho de Lucas, só podemos esperar que Deus se faça conhecer. E quando esperamos por Deus, não é apenas uma confissão do carácter incompleto da nossa vida, mas um reconhecimento de que Deus tem sempre mais do que aquilo que podemos imaginar, crer ou sentir. Nesse reconhecimento há uma proclamação de esperança na majestosa bondade de Deus: ao esperar, declaramos nossa confiança nos propósitos bondosos de Deus.

“Os sonhos mais belas conquistam-se com esperança, paciência e empenho, renunciando às pressas.” (Papa Francisco, nº 142 CRISTO VIVE)                

James Flynn