Estamos a viver o tempo litúrgico do advento, o período de preparação espiritual para o Natal, de preparação para a grande festa. Deve ser um tempo de disponibilidade interior e de esperança, marcado pela recordação do nascimento de Jesus e pela expectativa da Sua vinda gloriosa no final dos tempos.

“Desperta, desperta,
Põe-te de pé, Jerusalém, cidade santa…
Sacode de ti a poeira, levanta-te!
Desata as cadeias do teu pescoço.” (Isaías 51, 9; 52, 2)

A este grito profético que acompanhou e antecedeu o retorno do exílio do povo de Israel gemendo como escravos na Babilónia junta-se o grito de despertar paulino: “Desperta, tu que dormes. Levanta-te… e Cristo brilhará para ti” (Ef 5, 11).
Tanto as palavras de Isaías com as de S. Paulo parecem renovar-se com a chegada do advento, “tempo da salvação, momento inteiramente favorável para nos reconciliarmos com Deus, para não deixarmos em vão a graça que d’Ele recebemos” (cf. 2 Cor 5, 20b; 6, 2). E qual foi a graça que d’Ele recebemos? Seu filho Jesus Cristo.

Renovar não implica necessariamente uma mudança; implica, sim, um redespertar, “valorizando as energias latentes no corpo da Igreja”, como disse o Papa Paulo VI num documento conciliar. É preciso, então, decidirmo-nos definitivamente por Jesus e pelo seu evangelho; é preciso renovar o nosso zelo e o nosso fervor, acordar do torpor e da rotina e enfrentar o desafio de andarmos, sem vacilar, atrás de Jesus, para n’Ele e com Ele vivermos o mistério do Pentecostes, para n’Ele e com Ele regressarmos àquele cenáculo que se encontra na origem da Igreja e onde o Espírito Santo se manifestou e continua a manifestar. O Espírito Santo dá-nos verdadeira vida e liberdade (“Eu vim para que tenhais vida e a tenhais em abundância”, disse Jesus e S. Paulo escreveu “Não haveis recebido um espírito de escravidão mas sim de filhos”) e, à medida que caminhamos, vamos sendo chamados a acolher os carismas e a amadurecer na fé para dela retirarmos o impulso que nos conduz a uma nova partida porque o caminho se faz caminhando e, como peregrinos que somos, devemos estar sempre prontos para iniciar uma nova etapa, numa renovação contínua.

O Pe. Raniero Cantalamessa, no seu livro “Preparate le vie del Signore” lembra que alguém disse que os católicos leigos são um gigante adormecido: gigante porque constituem a parte mais consistente do Corpo de Cristo; adormecido porque se mantêm relativamente passivos e inertes na Igreja. Frequentemente esquecemos que a Igreja é constituída por todos nós e que, a partir do Vaticano II, somos chamados, como leigos, a uma intervenção mais activa no despertar primaveril que esse concílio constituiu.

À pergunta do dono da vinha: “Por que ficastes o dia inteiro sem trabalho?”, os operários responderam “É que ninguém nos contratou” (cf. Mt 20, 6ss). Será que hoje responderíamos a mesma coisa? A verdade é que Jesus nos convida a cada momento para entrarmos no reino dos céus mas muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Àqueles trabalhadores, o proprietário da vinha respondeu “Ide também vós para a minha vinha” e pagou aos últimos o mesmo que pagou aos primeiros, o que causou grandes murmúrios entre os que haviam suportado durante todo o dia o cansaço e o calor. Não é o que, também hoje, continua a acontecer entre aqueles que aceitamos o convite do Senhor? Temos inveja dos nossos irmãos, dos seus carismas, queremos ser os primeiros, passar à frente, ganhar mais. Lembremos, a este propósito, uma catequese de São Cirilo de Jerusalém que nos explica que a Igreja é dita católica não apenas porque se encontra em todo o mundo mas também porque ensina todos os dogmas e acolhe em si todas as operações e carismas espirituais, isto é, acolhe tudo o que genuinamente vem do Espírito, fundindo-as em unidade.

Se nós somos o Corpo de Cristo e o Corpo de Cristo é animado pelo Espírito Santo que nos une, ilumina, fortalece e também adorna, concedendo a cada um, segundo a Sua vontade, diversos dons fundamentais para a edificação e divulgação da Igreja, por que razão nos detemos na inveja, na mesquinhez, em vez de louvarmos o Senhor por esses irmãos e pelas graças recebidas e rezar para que lhes seja concedido porem-nas em prática, deste modo manifestando o Espírito em vista do bem comum (cf. 1 Cor 12, 7)?
Neste tempo favorável do advento, abeiremo-nos do sacramento da reconciliação e esforcemo-nos pela nossa conversão diária, dando a Deus e aos irmãos provas de crescimento na fé, de amor e de comunhão, fazendo com que cada homem deixe de ser o homem velho, aceite a mensagem da salvação, acolha o Espírito Santo e acredite que Jesus Cristo está vivo e ressuscitado no meio de nós.

É preciso dar testemunho com a nossa vida, sacudir as massas, provocar conversões.
Vivemos num mundo distraído, alienado do essencial, consumista, vaidoso, doente de barulhos que nos envolvem por todos os lados de necessidades efémeras que nos pressionam, mas é a este mundo de lobos que somos enviados como cordeiros e é nele que temos de vigiar e orar, como o Bom Pastor nos aconselha.
Vigiemos, pois, vivendo segundo o Espírito e não segundo a carne; revistamo-nos da armadura de Deus e mantenhamo-nos firmes, tudo fazendo com amor; aprendamos a estudar as coisas da fé, muito especialmente a Sagrada Escritura; sejamos perseverantes na oração e libertemo-nos de excessos, de preocupações mundanas, de entusiasmos ocos. Como poderemos escutar os acordes harmoniosos do Espírito se o nosso ouvido transbordar de sons terrenos? Como poderemos apreciar as belíssimas cores suaves de um arco-íris que Deus providenciou ao amanhecer se os nossos olhos estiverem cheios de imagens impuras? Como diz o salmista, “desviemos o nosso olhar da ilusão, meditemos nas maravilhas do Senhor, corramos pelas Suas veredas, guardemos os Seus mandamentos” (cf. Sl 119, 37), vivamos o gozo de ser cristãos e a alegria de o transmitirmos ao mundo.

Neste advento, mais do que nunca, lembremos o exemplo de Maria, a serva de Deus, a mulher que humildemente tudo ouvia e guardava no seu coração, sempre vigilante e orante, especialmente no primeiro advento, aquele que antecedeu o nascimento de Jesus. Que tempo tão maravilhoso este para fazermos como Maria, guardando-nos em silêncio e em solidão para o Senhor! É chegada a plenitude dos tempos e te damos graças, Jesus, porque Tu vens aí! Sê bem-vindo à tua terra e toma posse do teu povo.

Aquele tempo de há dois mil anos vai tornar-se o tempo de hoje: por nós, que nada somos, vais descer do céu e o Espírito Santo te ungirá para nos anunciares a boa nova; depois, vais começar a pregar com a força do Espírito Santo e também nós receberemos essa força, sem a qual nunca poderemos proclamar que Tu és o Senhor e nem poderemos gritar”ABBA! PAI!”

Isabel Moraes Marques