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A semente é lançada em Portugal2018-08-13T10:25:43+00:00

A SEMENTE É LANÇADA EM PORTUGAL

Primeiros contactos

Para a História do Renovamento Carismático em Portugal
Roma – 1974

Durante o ano lectivo de 1973-1974, fiz, em Roma, na Universidade Gregoriana, uma reciclagem teológica-pastoral. Fiquei hospedado no Seminário Francês, dependente da Conferência Episcopal Francesa mas dirigido pelos Missionários do Espírito Santo.

Após vinte anos de actividade pastoral, na L.I.A.M., na redacção da “Acção Missionária” e na coordenação vocacional (13 anos em Lisboa e 7 anos no Porto) os meus superiores e eu achámos que seria benéfica uma paragem, que entre os religiosos se chama “ano sabático”. Este ano sabático aproveitei-o para aprofundar conhecimentos teológicos e pastorais, fazer cursos e retiros, dentro de vários movimentos: Mundo Melhor, Focolares, Oásis…

Pela primeira vez, em Roma, ouvi falar do Renovamento Carismático (Renouveau Charismatique, em francês). No Seminário Francês, um seminarista e dois sacerdotes ligados ao Renovamento, no grupo Hossana de língua francesa, perguntaram-me:

– O P.e José já ouviu falar e conhece o “Renouveau Charismatique”?…

– Não! Não sei o que isso é, respondi.

E eles interpelaram-me:

– Então o P.e José, Missionário do Espírito Santo, não conhece este “Movimento Pentecostal” que em 1967, depois do Vaticano II, irrompeu na Universidade Espiritana de Duquesne, Pittsburg, Estados Unidos e que, agora, alastra como fogo sagrado por todo o Mundo?!…

Isto aconteceu ao terminar o primeiro trimestre, no dia 13 de Dezembro de 1973. Logo me convidaram para ir com eles participar numa reunião do grupo Hossana.

Uma certa curiosidade me invadiu e como estava em Roma com grande sofreguidão de ver e experimentar novas formas de viver o cristianismo, logo tomei a resolução de, na primeira oportunidade, ir fazer uma experiência carismática.

E respondi-lhes:

– Nesta altura não posso. Até Janeiro, durante as férias de Natal, tenho várias actividades programadas. Comprometi-me a ir com eles em Janeiro de 1974.

As férias do primeiro trimestre passaram. Durante elas fiz um curso sobre o movimento OASIS, na Villa Sorriso, perto de Castelgandolfo.

Recomeçadas as aulas, no principio de Janeiro, quando na Gregoriana se falava por todos os lados nos grupos carismáticos, os meus amigos do Seminário francês, recordaram o meu compromisso.

No dia 8 de Janeiro de 1974, e pela primeira vez, participei numa reunião de um grupo

carismático. Esta reunião de oração realizava-se semanalmente, das 16 às 18h na Casa

Generalícia das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, Via Giusti nº 12 (próxima da

Basílica de Santa Maria Maior).

Os colegas e amigos que me haviam convidado em Dezembro, relembraram-me o meu

compromisso e, como anjos da guarda, acompanharam-me. Ainda me lembro dos seus

nomes: P.e Chataignier, Verchaire, seminarista espiritano e P.e Francis Kohen, actual Conselheiro Pastoral da comunidade Emanuel, em França.

Naquela sala de reunião, após o acolhimento muito cordial, em cadeiras colocadas em semi-círculos, sentaram-se cerca de 100 pessoas: religiosas, sacerdotes, seminaristas e alguns leigos.

Um dos coordenadores saudou a todos, pediu para se apresentarem os que ali estavam pela primeira vez e sublinhou, com palavras muito simples e breves, a presença de Jesus que dará o Seu Espírito a quem Lhe abrir o coração.

Após um cântico ao Espírito Santo e um tempo de louvor inspirado, o ambiente tornou-se de profunda contemplação, entrecortada por breves leituras bíblicas, com ressonâncias espontâneas, cântico em línguas, profecia… Sentia-se que a oração nascia do coração da Assembleia.

O que mais me tocou (e interpelou) foi o chamado cântico em línguas, oração cantada por quase toda a Assembleia que transformou aquele salão num Cenáculo de Pentecostes: a paz, a alegria e uma harmonia indizivel eram o clima daquele espaço. Esse ambiente de paz, de calma e de harmonia invadiram-me, mas eu não era capaz de cantar assim…

Num ambiente de alegria e de descontração foram dados vários e belos testemunhos de vida Nova no Espírito Santo. A Assembleia rezou por algumas intenções especiais e, feitos alguns avisos, a reunião terminou com o Pai Nosso, cantado de mãos dadas…

Discretamente, deixando aquele ambiente de amor e de fraternidade, eu parti sentindo que aquelas duas horas foram para mim um momento de graça. Só uma dúvida me perseguia: mas afinal, que era aquilo de rezar, falar e cantar em línguas?…

Na semana seguinte o responsável informou que, no dia 24 de Fevereiro, se iniciariam os “Seminários de vida Nova no Espírito”. Todos os que quisessem poderiam inscrever-se. Querendo levar esta experiência até às últimas consequências, inscrevi-me, com mais 50 pessoas, para esta caminhada de 7 semanas.

Entretanto fui tomando contacto com os grupos de língua espanhola, mesmo ao lado da Gregoriana, com o Grupo Maria de língua italiana e participei numa grande Assembleia Carismática, com todos os grupos de Roma, na Igreja Trinita dei Monti. As coordenadas destas reuniões e da Assembleia (com mais de 500 pessoas) eram, com tons mais ou menos acentuados, devido à língua, à cultura e ao número de participantes, as mesmas do grupo Hossana. Afectiva e efectivamente senti-me ligado ao grupo de língua francesa, onde até Maio fiz uma caminhada que marcou a minha vida de sacerdote e de missionário.

 

 Lisboa , 24 de Março de 2001

P.e José da Lapa

Missionário do Espírito Santo

Seminário de Vida Nova no Espírito

No dia 24 de Fevereiro, com mais 50 neófitos, iniciei esta caminhada de 7 semanas, no meio da qual se celebrou para todos a cerimónia da“Efusão (Baptismo) do Espírito”, coração do Renovamento Carismático.

As sessões realizavam-se aos Domingos, das 17h às 21h e compreendiam: Acolhimento, Oração, Ensinamentos (Amor de Deus, Conversão, Vida Nova no Espírito, Recebendo o Dom de Deus, Carismas, Efusão do Espírito, Comunidade, Transformação…). Vários destes ensinamentos foram ministrados por professores da Gregoriana. A seguir ao ensinamento realizava-se uma reunião em pequenos grupos, coordenados por irmãos e irmãs com maior experiência carismática. Esta reunião servia para partilhar e sublinhar alguns aspectos de ensinamento e para um tempo de perguntas e respostas.

O meu grupo (Espiríto de Vida), composto por 7 neófitos, era coordenado por uma Senhora dos seus 60 anos, chamada Thérese Dupuy, mulher de profunda vida carismática. Quando ela perguntou se alguém tinha alguma dificuldade ou queria fazer perguntas, eu levantei o braço e disse:

– Eu gostei muito do ensinamento sobre o Amor de Deus mas não compreendo, nem acredito nisto a que chamam dom de línguas!

Madame Thérese fitou-me e disse-me, com muita simplicidade e delicadeza:

– P.e José. Certamente conhece o capítulo 12 da I Carta de S. Paulo aos Coríntios. Aí S. Paulo fala dos vários carismas que os primeiros cristãos usavam como ferramentas para edificar a comunidade.

E, respondendo-me com um argumento “ad hominem” que eu nunca mais esqueci, acrescentou:

– Muito me admira que o P.e José, sendo Missionário do Espírito Santo, não aceite nem acredite neste dom do Espírito Santo, que é sem dúvida o mais pequeno, mas que é fundamental para a oração e para receber outros dons…

O argumento fez-me calar, mas não me convenceu. Foi na Gregoriana, num curso ministrado pelo P. Sulivam, Jesuita, que falando de carismas explicou um pouco o que é o dom de línguas. A exposição convenceu a meu intelecto. Agora só faltava abrir o coração, e tagarelar para Deus como criança que tagarela para os pais.

Foi no dia 24 de Março de 1974 que, ao meio da caminhada dos Seminários , se realizou a celebração para a “Efusão (Baptismo) do Espírito”.

Depois da oração inicial e do ensinamento sobre a “Efusão do Espírito”, em consonância com a Bíblia, a Teologia e a prática na Igreja dos primeiros tempos, houve uma hora de oração pessoal. Cada um, com a liberdade que o Espírito dá, era livre de dar o passo em frente, renunciando a todo o pecado e aceitando Jesus como Salvador e Senhor de sua vida. Fez-se a renovação das promessas do Baptismo, já que a “Efusão” é uma graça que, pela fé dos crentes e pela oração da comunidade, renova, reanima e dinamiza a vida baptismal, abrindo caminho para libertar e deixar actuar livremente o Espírito Santo.

Em pequenos grupos, irmãos e irmãs do grupo Hossana e de outros grupos de Roma, rezaram e impuseram as mãos sobre cada um dos 50 neófitos que, como eu, aceitaram na fé e na humildade fazer esta experiência de vida nova.

Uma experiência espiritual não se pode descrever. Pode sim, viver-se e testemunhar-se pelos frutos.

Este dia e esta graça da Efusão sinalizam uma nova fase da minha vida, como cristão, sacerdote e missionário. Alguns dias antes tive consciência profunda que algo de novo ia acontecer na minha vida…

Duante a oração algo aconteceu de profundo, de belo, de maravilhoso que não sei descrever, mas que me penetrou até ao mais fundo do meu ser. Naquele momento, eu poderia dizer que o Espírito Santo veio sobre mim e me deu uma consciência viva de que Deus me habitava.

Durante a cerimónia, e em muitos dias que se seguiram, a presença de Deus fazia-se sentir na paz, na alegria, na harmonia, no amor. O Espírito de Jesus deu-me consciência clara que a semente da Palavra de Deus estava lançada e a germinar no meu coração, para rezar sem cessar, amar Deus e os irmãos, tirando de mim todas as fronteiras de indiferença, de ressentimentos… Jesus havia operado no meu coração ferido a graça da conversão e do entusiasmo missionário. Outros frutos se foram manifestando: um grande amor à Eucaristia, aos Sacramentos e uma maior devoção a Nossa Senhora… Senti que aconteceu um Pentecostes pessoal que, como faúlha do Espírito, uma vez criadas as condições, quer crescer e propagar-se…

A experiência da “Efusão” que gera a vida nova no Espírito é muito mais vasta e profunda e não há palavras no dicionário para explicar o “inexprimível” em linguagem humana…

A semente foi lançada e acolhida em Roma, cabeça e coração da Igreja de Cristo, essencialmente hierárquica e essencialmente carismática.

Esta semente de Vida Nova no Espírito irá germinar, em Fátima, florir e frutificar em Portugal, como se relatará em posteriores edições.

Lisboa , 24 de Março de 2001
P.e José da Lapa
Missionário do Espírito Santo