Da homilia de Bento XVI ao inaugurar o sínodo de 2008

Queridos irmãos e irmãs:

A primeira leitura, tomada do livro do profeta Isaías, assim como a página do Evangelho segundo Mateus, propuseram a nossa assembleia litúrgica uma sugestiva imagem alegórica da Sagrada Escritura: a imagem da vinha. A perícope inicial da narração evangélica faz referência ao “cântico da vinha”, que encontramos em Isaías.

Trata-se de um canto situado no contexto do Outono da vindima: uma pequena obra-prima da poesia judaica, que devia resultar sumamente familiar a quem escutava Jesus, e da qual –como em outras referências dos profetas (Oséias 10, 1; Jeremias 2, 21; Ezequiel 17, 3-0; 19, 10-14; Salmos 79, 9-17)– se compreendia que a vinha fazia referência a Israel. Deus dedica a sua vinha, ao povo que escolheu, os mesmos cuidados que um esposo fiel oferece a sua esposa (Ezequiel 16, 1-14; Efésios 5, 25-33).

A imagem da vinha, junto às bodas, descreve portanto o projecto divino da salvação, e se apresenta como uma comovente alegoria da aliança de Deus com seu povo.

No Evangelho, Jesus retoma o cântico de Isaías, mas adapta-o a quem o escuta e à nova hora da história da salvação. Não se fixa tanto na vinha, mas nos vinhateiros, a quem os “servidores” do dono pedem, em seu nome, o arrendamento. Os servidores são maltratados e inclusive assassinados. Como não pensar nas vicissitudes do povo eleito e na sorte reservada aos profetas enviados por Deus? No final, o proprietário da vinha faz um último intento: manda o seu próprio filho, convencido de que ao menos a ele escutarão. Contudo, sucede o contrário: os vinhateiros matam-no porque é seu filho, ou seja, o herdeiro, convencidos de que se apoderarão definitivamente da vinha.

Trata-se, portanto, de um salto de qualidade frente à acusação de violação da justiça social, como se pode ver no cântico de Isaías. Aqui vemos com clareza como o desprezo pela ordem enviada pelo dono se converte em desprezo dele próprio: não é simples desobediência a um preceito divino, é uma verdadeira rejeição de Deus: aparece o mistério da Cruz.

A denúncia desta página evangélica interpela a nossa maneira de pensar e de actuar. Não fala só da “hora” de Cristo, do mistério da Cruz naquele momento, mas da presença da Cruz em todos os tempos. Interpela, de maneira especial, aos povos que receberam o anúncio do Evangelho.

Se contemplamos a história, vemo-nos obrigados a constatar com frequência a frieza e a rebelião de cristãos incoerentes. Como consequência, Deus, ainda que nunca abandona a sua promessa de salvação, teve de recorrer ao castigo. Neste contexto, o pensamento dirige-se espontaneamente ao primeiro anúncio do Evangelho do qual surgiram comunidades cristãs, num primeiro momento florescentes, que depois desapareceram e que hoje só são recordadas pelos livros de história.

Não poderia suceder o mesmo na nossa época?
Nações que num tempo tinham uma grande riqueza de fé e vocações agora estão a perder a sua identidade, sob a influência deletérea e destrutiva de uma certa cultura moderna. Há quem, havendo decidido que “Deus morreu”, se declara a si mesmo “deus”, considerando-se o único agente do seu próprio destino, o proprietário absoluto do mundo.

Desligando-se de Deus, ao não esperar dele a salvação, o homem crê que pode fazer o que quer e pôr-se como a única medida de si mesmo e de sua acção. Mas quando o homem elimina Deus do seu horizonte, quando declara que Deus “morreu”, é verdadeiramente feliz? É verdadeiramente mais livre? Quando os homens se proclamam proprietários absolutos de si mesmos e únicos donos da criação, podem verdadeiramente construir uma sociedade na qual reinem a liberdade, a justiça e a paz?

Ou não sucede mais – como demonstram quotidianamente as crónicas – que se difundem o poder arbitrário, os interesses egoístas, a injustiça e o abuso, a violência em todas as suas expressões?

Ao final o homem encontra-se mais sozinho e a sociedade mais dividida e confundida. Mas nas palavras de Jesus há uma promessa: a vinha não será destruída. Enquanto abandona ao seu destino os vinhateiros infiéis, o dono não abandona a sua vinha e confia-a a outros servidores fiéis. Isto indica que, se em algumas regiões a fé enfraquece até extinguir-se, sempre haverá outros povos dispostos a acolhê-la. Precisamente por este motivo, Jesus,

citando o salmo 117 [118] –“a pedra rejeitada pelos arquitectos tornou-se a pedra angular” (versículo 22) –, assegura que a sua morte não será a derrota de Deus. Após sua morte, não permanecerá no túmulo, e sim, precisamente o que parecerá um fracasso total será o início de uma vitória definitiva. À sua dolorosa paixão e morte seguirá a glória da ressurreição. A vinha continuará então dando uva e será arrendada pelo dono “a outros lavradores que lhe pagarão o produto em seu tempo” (Mateus 21, 41).

A imagem da vinha, com suas implicações morais, doutrinais e espirituais, voltará no discurso da Última Ceia, quando ao despedir-se dos apóstolos, o Senhor dirá: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto” (João 15, 1-2).

A partir do acontecimento pascal, a história da salvação experimentará, portanto, um volte de face decisivo, e os novos lavradores que, enxertados em Cristo, levarão frutos abundantes de vida eterna. Entre estes “lavradores” encontramo-nos nós, inseridos em Cristo, que quis converter-se Ele mesmo na “verdadeira vinha”. Peçamos ao Senhor, que entregou o seu sangue por nós, que nos ajude a “dar fruto” para a vida eterna e para nosso tempo.

A consoladora mensagem que recolhemos destes textos bíblicos é a certeza de que o mal e a morte não têm a última palavra, mas que ao final Cristo vence. Sempre!

A Igreja não se cansa de proclamar esta Boa Nova, como sucede também hoje, nesta basílica dedicada ao apóstolo dos povos, que se converteu no primeiro a difundir o Evangelho em grandes regiões da Ásia Menor e Europa. Renovaremos significativamente este anúncio durante a XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que tem por tema: “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.

Quero saudar com afecto cordial a todos vós, venerados padres sinodais, e aos que participam neste encontro como especialistas, auditores e convidados especiais. Acolho também com alegria os delegados fraternos de outras igrejas e comunidades eclesiais. Ao secretário-geral do Sínodo dos Bispos e a seus colaboradores expresso o reconhecimento de todos pelo comprometedor trabalho que realizaram nestes meses e pelo cansaço que os espera nas próximas semanas.

Quando Deus fala, sempre exige uma resposta; sua acção de salvação exige a cooperação humana; seu amor espera ser correspondido. Que não suceda nunca, queridos irmãos e irmãs, o que narra o texto bíblico sobre a vinha: “E contava com uma colheita de uvas, mas ela só produziu agraço” (Isaías 5, 2).

Só a Palavra de Deus pode mudar profundamente o coração do homem, por isso é importante que entremos em uma intimidade cada vez maior com ela, tanto cada um dos crentes como as comunidades.

A assembleia sinodal dirigirá sua atenção a esta verdade fundamental para a vida e a missão da Igreja. Alimentar-se da Palavra de Deus é para ela sua primeira e fundamental tarefa. De fato, se o anúncio do Evangelho constitui sua razão de ser e sua missão, é indispensável que a Igreja conheça e viva o que anuncia, para que sua pregação seja crível, apesar das fraquezas e pobrezas dos homens que a formam. Sabemos, ademais, que o anúncio da Palavra, seguindo a Cristo, tem como conteúdo o Reino de Deus (Cf. Marcos 1, 14-15), mas o Reino de Deus é a mesma pessoa de Jesus, que com suas palavras e obras oferece a salvação aos homens de todas as épocas. Nesse sentido, é interessante a consideração de São Jerónimo: “Quem não conhece as Escrituras, não conhece a potência de Deus nem sua sabedoria. Ignorar as Escrituras significa ignorar a Cristo”.

Neste Ano Paulino escutaremos ressoar com particular urgência o grito do apóstolo dos povos: “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1 Coríntios 9, 16): grito que para cada cristão se converte em um convite insistente a colocar-se ao serviço de Cristo. “A messe é grande” (Mateus 9, 37), repete também hoje o Mestre divino: muitos ainda não o encontraram e estão à espera do primeiro anúncio de seu Evangelho; outros, apesar de que receberam uma formação cristã, perderam o entusiasmo e só mantêm um contacto superficial com a Palavra de Deus; outros afastaram-se da prática da fé e têm necessidade de uma nova evangelização.

Não faltam, também, pessoas de recta consciência que se propõem perguntas essenciais sobre o sentido da vida e da morte, perguntas às quais só Cristo pode oferecer respostas convincentes. Faz-se então indispensável que os cristãos de todo o continente estejam dispostos a responder a quem peça razão da esperança que lhes habita (1 Pedro 3, 15), anunciando com alegria a Palavra de Deus e vivendo comprometidamente o Evangelho.

Venerados e queridos irmãos, que o Senhor nos ajude a observar juntos, durante as próximas semanas das sessões sinodais, como fazer cada vez mais eficaz o anúncio do Evangelho em nosso mundo. Todos experimentamos a necessidade de colocar no centro de nossa vida a Palavra de Deus, de acolher a Cristo como nosso único Redentor, como Reino de Deus em pessoa, para fazer que sua luz ilumine todos os âmbitos da humanidade: desde a família até a escola, desde a cultura até o trabalho, desde o tempo livre até os demais sectores da sociedade e de nossa vida. Ao participar na celebração eucarística, experimentamos cada vez mais o íntimo laço que se dá entre o anúncio da Palavra de Deus e o Sacrifício eucarístico:

é o mesmo Mistério que se nos oferece à nossa contemplação. Por este motivo, “a Igreja –como sublinha o Concílio Vaticano II– venerou sempre as Sagradas Escrituras como o próprio Corpo do Senhor, não deixando de tomar da mesa e de distribuir aos fiéis o pão da vida, tanto da palavra de Deus como do Corpo de Cristo, sobretudo na Sagrada Liturgia”.Que o Senhor nos permita aproximar-nos com fé da dupla mesa da Palavra e do Corpo e do Sangue de Cristo.

Traduzido por Zenit