“Vede, pois, como ouvis; porque, a qualquer que tiver lhe será dado, e a qualquer que não tiver, até o que parece ter lhe será tirado.” (Lucas 8,18)

Á pergunta, “O que é exactamente a Bíblia?” A maior parte dos cristãos responderia, “É a Palavra Sagrada de Deus, o Seu instrumento especial de comunicação com o homem.”
Então impõe-se perguntar: Se acreditamos que a Bíblia é a Palavra de Deus e é um instrumento de comunicação, será que levamos a Bíblia a sério? Vemos a Escritura como uma reverência Sagrada e dispomos do nosso tempo para adorar e estudar a Palavra de Deus?
Somos como aqueles que Deus estima e chama como em Isaías 66,2: “…eis para quem olharei: para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra”?

Deus procura aqueles que têm uma reverência sagrada para a Sua Palavra e para o Seu plano, para o seu ensino e aplicação. E isto tem tudo haver com o ouvir a voz de Deus. Deus é Comunicador por excelência, a história bíblica não é apenas sobre a redenção, mas é também sobre a história da comunicação e da revelação de Deus.
Para haver uma comunicação efectiva é necessário haver uma escuta efectiva. Por isso o estudo da Bíblia, o tempo de oração e adoração são momentos especiais para realmente ouvir Deus.
Mesmo que Deus utilize o homem como instrumento de comunicação connosco, Paulo diz em 1Tessalonissences 2,13: “Pelo que, também, damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual, também, opera em vós, os que crestes.

Este processo poderá compreender os seguintes passos:

(1) COMUNICAÇÃO: Ouvir Deus

(2) COMPREENSÃO: Entender o que Deus diz

(3) CONFIANÇA: Confiar no que Deus diz

(4) MUDANÇA: transformarmo-nos segundo a Sua Palavra.

Este processo é essencial para o nosso crescimento espiritual.

A importância do “escutar”, mencionada nas Escrituras

A Bíblia enfatiza bastante a questão do ouvir. O que obviamente tem um propósito. Atendamos às seguintes ilustrações:

(1) As palavras “ouvi as Palavras do Senhor” aparecem 50 vezes na Bíblia.

(2) As palavras “escuta” aparecem 52 vezes, “escuta Israel”: 4 vezes, “ouvi”: 1389 vezes.

(3) Encontram-se também expressões como: “inclina os teus ouvidos”, “dá ouvidos”, “toma atenção”.

(4) No Novo Testamento Jesus alerta para o que ouvimos (Marcos 4,24) e como ouvimos (Lucas 8,18).

(5) As palavras “hoje, se ouvirdes a sua voz,” encontram-se 3 vezes na Carta aos Hebreus e uma vez no Velho Testamento (Hebreus 3,7, 15; 4,7; Salmo 95,7).

(6) A frase:”Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas” aparece sete vezes, uma vez em cada carta às sete igrejas, no livro de Apocalipse capítulos 2 e 3.

(7) Em Marcos 4,9 Jesus avisa, “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” e repete novamente no verso 23, “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça”

(8) É também significativo o título grego de logos para Jesus, termo que se refere precisamente a uma forma de comunicação “falar, palavra, discurso”. Um dos títulos de Jesus é Palavra de Deus Viva. Sobre Ele escreveu Moisés em Deuteronomio 18:15, “O Senhor, teu Deus, te despertará um profeta do meio de ti, dos teus irmãos, como eu;a ele ouvireis”.
O ponto principal é o de que Deus tem muito para nos dizer, e porque Ele é Sábio e Soberano e por causa das nossas limitações e fraquezas humanas, torna-se imperativa a escuta atenta da Sua Palavra. Mas como pecadores, mesmo sendo redimidos, somos propícios à distracção deixando-nos levar por outras situações, mesmo tendo as melhores das intenções. Facilmente nos comportamos como Marta, que se ocupava com toda a lida da casa, enquanto a sua irmã Maria estava sentada aos pés de Jesus escutando-O:
Lucas 10:38-42: “E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa; E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém, andava distraída em muitos serviços, e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Diz-lhe que me ajude. E, respondendo Jesus, disse-lhe: “Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, Mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.”

Jesus alerta-nos na parábola do semeador, que nós podemos ser como a terra cheia de espinhos e ervas daninhas, que representam os cuidados do mundo, e que sufocam a Palavra fazendo com que não frutifique na nossa vida:
Marcos 4:18-19: “E outros são os que recebem a semente entre espinhos, os quais ouvem a palavra; Mas, os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera.”

Provérbios 22:17-19: “Inclina o teu ouvido e ouve as palavras dos sábios, e aplica o teu coração à minha ciência. Porque é coisa suave, se as guardares nas tuas entranhas, se aplicares todas elas aos teus lábios. Para que a tua confiança esteja no Senhor….”

A lição é clara:devemos escutar para que aprendamos a confiar no Senhor. Não escutar, demonstra a nossa determinação em seguirmos com a nossa vida através dos nossos próprios recursos, estratégias e disparates.

Deus ensina-nos como o devemos escutar.

(1) Deus comunica através da Bíblia

A Bíblia é o nosso guia para todas as outras formas pelas quais Deus comunica. Se queremos escutar Deus e discernir a Sua Voz nos outros canais de comunicação, então temos 1º de ouvir a Sua Palavra: a Bíblia.
Deus também comunica através daqueles que proclamam, aconselham, exortam e encorajam, através da musica e de canções, livros, vídeos, filmes, etc. Contudo, a forma primeira e institucional da igreja, é a proclamação da Palavra em assembleia, envolvendo simultaneamente outras formas de comunicação: como a oração, o louvor, o canto, a eucaristia.
2 Tessalonicenses 2,15: “…irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa…”
1 Timóteo 4,13: “Persiste em ler, exortar e ensinar.”

(2) Deus comunica através do Espírito Santo

O Espírito Santo é o professor residente, enviado pelo Pai através do Seu Filho amado, e que habita em cada crente neotestamentário. Ele é a unção celeste que nos ensina e faz discernir as verdades da Palavra tornando-as reais para os nossos coração e mente.
Efésios 3,16-19: “Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados, com poder, pelo seu Espírito, no homem interior; Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de que, estando arraigados e fundados em amor, Possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.”

(3) Deus comunica através de acontecimentos

Momentos especiais de adoração, nomeadamente a adoração do Santíssimo.
Bênçãos que manifestam claramente o Seu amor e graça.
Tribulações, provações, irritações, instrumentos pelos quais Deus nos chama a atenção, edifica o nosso carácter, ou se serve para sermos suas testemunhas; claro que destas situações só tiramos proveito se estivermos atentos, ouvirmos e aprendermos a relacionar o que nos está a acontecer com o propósito de Deus, confiando nas suas promessas e nos princípios da Escritura.

(4) Deus comunica através de pessoas

A Bíblia está cheia de ilustrações de como Deus usa pessoas para comunicar o Seu amor, misericórdia e graça. Isto manifesta-se de muitas formas: encorajamento, exemplos, ou chamadas de atenção.

1 Tessalonicenses 5,11: “Pelo que exortai-vos, uns aos outros, e edificai-vos, uns aos outros, como, também, o fazeis.”

Provérbios 27,17: “Como o ferro com o ferro se aguça, assim o homem afia o rosto do seu amigo.”

João 13,34-35: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros…”

Malaquias 3,16: “Então, aqueles que temem ao Senhor falam cada um com o seu companheiro; e o Senhor atenta e ouve; e há um memorial escrito diante dele, para os que temem ao Senhor, e para os que se lembram do seu nome.”

Efésios 5,19-20: “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração; Dando sempre graças por tudo ao nosso Deus e Pai, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo;”

1 Timóteo 5,1-2: “Não repreendas asperamente os anciãos, mas admoesta-os como a pais, aos mancebos como a irmãos, Às mulheres idosas, como a mães, às moças, como a irmãs, em toda a pureza.”

Efésios 6,4: “E vós, pais, não provoqueis a ira aos vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.”

Gálatas 6,1-2: “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas, também, tentado. Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.”

Primeira questão: como é que Deus comunica connosco através da Sua Palavra e do Espírito Santo, principalmente nos momentos de adoração? Qual é o significado desta comunicação em termos de como escutamos o Senhor? Atendamos a dois pontos:

(1) Escutar Deus tem necessariamente de envolver o trabalho conjunto da Palavra de Deus e do Espírito Santo no nosso coração e na nossa mente. Mesmo usando pessoas e circunstâncias, temos de considerar o que Deus nos diz à luz da Sua infalível Palavra.

(2) Escutar Deus, ouvir realmente o que Ele tem para nos dizer, exige: uma preparação espiritual e uma participação activa da nossa parte! De facto, para ouvirmos temos de estar preparados para ouvir.
E como ouvir o Senhor é necessariamente um acto espiritual é essencial atendermos: à nossa atitude mental e ao nosso estado espiritual, ou seja, COMO ouvimos e adoramos.

O problema: podemos simplesmente acompanhar o processo da actividade religiosa e enganarmo-nos a nós próprios, tal como Tiago alerta na sua epístola, capítulo 1.
Assim encenamos o teatro da missa e entramos na rotina da “vénia a Deus” colocando na nossa aparência física o que está espiritualmente ausente. E qual é o resultado? Não chegamos nem perto de ouvir a voz de Deus. Simplesmente porque o nosso coração não está em Deus! Tornamo-nos ouvintes passivos porque não estamos realmente preparados física, mental e espiritualmente para ouvir Deus. “Ir à missa” é neste caso uma rotina que temos na nossa vida apenas para continuarmos a viver de acordo com…o nosso plano. Neste caso é como se tivéssemos uma apólice de seguro -uma protecção para a nossa vida. Claro isto só na nossa cabeça.
Eclesiastes 5,1-2: Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus; e inclina-te mais a ouvir do que a oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal. Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; pelo que, sejam poucas as tuas palavras.”
Isaías 29,13: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído …”

A questão fundamental: O que é necessário para efectivamente ouvirmos o Senhor? O que podemos fazer para prepararmos os nossos corações para podermos ouvir o que o Senhor nos quer revelar ou comunicar, ou seja, compreender a sua mensagem e responder com fé e obediência, quer a mensagem venha num hino de louvor, num testemunho ou num ensinamento da Palavra?

(1) Preparação Espiritual

A preparação espiritual é necessária na medida em que a comunicação de Deus através da Sua Palavra envolve o ministério do Espírito Santo. As seguintes passagens ilustram este ponto:
1 Coríntios 2,9-3:3: “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus…ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espíri-to do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais…o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido…nós temos a mente de Cristo. E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo…ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois, porventura, carnais, e não andais segundo os homens?”
Este relacionamento com o Espírito Santo deverá assentar numa base de total confiança Nele, na Sua presença e na dependência Dele para o discernimento da Palavra, tanto no que diz respeito ao entendimento como à sua aplicação pessoal.
Mas como está escrito, o crente carnal, aquele que não faz a penitência e reconciliação do pecado, não pode e não escuta a mensagem de Deus. Este crente torna-se apático e simplesmente não entende, e muito menos responde às coisas de Deus. E isto porque o pecado efectivo: atitudes erradas (inveja, ciúmes, ressentimento, orgulho, desconfiança, egoísmo), estilo de vida auto-protector, indiferença ou apatia para com Deus, preocupação com outras coisas, e outras formas de pecado (nomeadamente, consulta de bruxos, astrólogos, reiki…) entristecem a Pessoa do divino Espírito (Efésios 4:30) e indubitavelmente constrangem, impedem o Seu ministério de ensinamento e de manifestação de outras bênçãos espirituais (como por exemplo: a cura), 1Tessalonisences 5:19: “Não extingais o Espírito”. Assim nas palavras de Jesus: Marcos 4:19 “…os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera.”

(2) Um Coração Aberto

Salmo 139,23-24: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.”
1 Cor. 11,28f: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálix. Porque, o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados.”
O propósito da auto-avaliação é simplesmente a necessidade de sermos honestos com Deus, o que implica a confissão sentida profundamente num espírito de arrependimento. Deus vê os nossos corações e rejeita qualquer adoração que não seja em espírito e em verdade, simplesmente porque neste caso o nosso coração não está em Deus.
Nas seguintes passagens é referido explicitamente que a bênção espiritual através da Palavra passa 1º pela nossa atitude honesta para com Deus relativamente ao pecado.
Jeremias 17,5: “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!”
Provérbios 28,13-14: “O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia. Bem-aventurado o homem que continuamente teme: mas o que endurece o seu coração virá a cair no mal.”
1 João 1,9: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não pecámos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”

(3) Participação Activa

A escuta activa é frequentemente mencionada na Bíblia.
1 Coríntios 2,15: “Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido.”
Paulo diz é que o homem espiritual, ou seja, que é controlado pelo Espírito Santo (o Espírito Santo trabalha livremente no seu coração e na sua mente) sendo obediente à Sua acção e respondendo ao Seu ministério, ie, espiritualmente maduro, este homem é capaz de discernir, ou seja, efectivamente perceber e aplicar a Palavra de Deus.
Tiago 1,22-25: “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao varão que contempla ao espelho o seu rosto natural; Porque se contempla a si mesmo, e foi-se, e logo se esqueceu de que tal era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecediço, mas o fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.”
Tiago depois de nos ter alertado para a necessidade de sermos honestos com Deus sobre o nosso pecado, por forma a nos livrarmos do que é um obstáculo entre nós e o Pai, e por isso entre nós e a Sua Palavra, alerta também para a diferença entre a escuta superficial e a substantiva. Ou seja, avisa-nos sobre o perigo da escuta não preparada, passiva e não participativa. O que Tiago ensina é que a escuta activa é diligente para compreender e responder à Palavra de Deus para que a verdade da Palavra toque o nosso coração para começar nele uma transformação, uma mudança, não na sua própria força, mas pelo poder do Espírito Santo que habita em nós.
É de notar o verso seguinte: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina, persevera nestas coisas…”, ou seja, o estudo da Bíblia e a escuta da Palavra de Deus tem como objectivo a nossa aplicação pessoal para promoção da mudança do nosso eu-interior, e porque a mudança manifesta-se de dentro para fora.

(4) Um tipo de participação bíblica

Actos 17,11: “Ora estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalónica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia, nas Escrituras, se estas coisas eram assim.”
A nobreza a que Paulo se refere dos judeus de Bereia, contrasta com os judeus de Tessalónica, porque queriam aprender, estavam abertos à Palavra.
(5) Preparação física
Em Lucas 22,7-14, o Senhor envia Pedro e João para fazerem as preparações para a refeição da Páscoa que se aproximava. O verbo preparar é usado 3 vezes nos versos 9, 12, 13, pois o Senhor procurou que tudo estivesse preparado para a que a celebração da Páscoa com os seus discípulos decorresse como Ele queria. A adoração e a escuta da Palavra de Deus exige também uma preparação física para além da espiritual. Embora sem a preparação espiritual a melhor das preparações físicas pouco alcança. Mas a preparação física faz parte da preparação espiritual que temos de fazer.
(1) Barulho, pessoas a passar, pouca iluminação, e outras condições físicas são factores de distracção ou limitadores da nossa capacidade de concentração.
(2) O cansaço físico, o não dormir o suficiente, são situações que podem verdadeiramente bloquear uma boa escuta.
(3) Uma preparação antecipada que começa em casa sem pressas nem conflitos é determinante para a nossa capacidade de escuta.
O ponto é que ouvir Deus não é um assunto de pouca importância. Quem não está preparado para ouvir, não responderá de coração ao nosso Deus e Senhor, e é precisamente a partir daqui que as nossas actividades religiosas se tornam pura e simplesmente fúteis.

“Depende de nós escutar com os ouvidos e cantar com o coração. Se nos recusarmos a isso, comportamo-nos neste templo como traficantes, que vendem e compram, ie, buscam o seu interesse. Estamos na igreja, mas não fazemos o que agrada a Deus.”(S. Agostinho)

 “Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor…” (1 Tessalonicenses 1,6)

Para imitar Cristo temos de pensar como Cristo, o que é vital para podermos responder ao chamamento de Deus e ao desafio que Ele nos propõe de glorificação do Seu nome.

A igreja é desafiada para o entendimento sobre “quem é” e “o que” Deus pretende dela.

Lucas 10,25: “E eis que um certo doutor da lei se levantou e disse para experimentá-lo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Ele disse: Que está escrito na lei? Como lês? Ele, então, respondeu: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. E disse-lhe (Jesus): Respondeste correctamente; faz isso, e viverás.”

(1) Meditar na Palavra de Deus dá-nos força e coragem para obedecer ao seu chamamento, num mundo que não o reconhece e se lhe opõe.

Josué 1,8: “Que o livro desta lei esteja sempre nos teus lábios: medita nele, dia e noite, para que tenhas o cuidado de agir de acordo com tudo que está escrito nele. Assim serás bem sucedido nas tuas realizações e alcançarás êxito.”

Romanos 12,1-2: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereceis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom agradável e perfeito.”

(2) Meditar na Palavra de Deus faz crescer o nosso entendimento de Cristo.

1 Coríntios 2,16: “Pois quem conheceu o pensamento do Senhor, para poder instruí-lo? Nós porém temos o pensamento de Cristo.”

Filipenses 2:5: “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus…”

Não é por sermos crentes que ficamos protegidos das mensagens de tentação da nossa sociedade, nem tão pouco, estamos imunes ao intoxicante desprezo que nos rodeia. Provavelmente, até conseguiremos resistir a essas pressões bem mais do que pensamos. Até, porque senão resistíssemos, seria fácil a um espírito do mundo, entrar nos nossos seres.

Jesus disse-nos para sermos o sal e a luz do mundo (Mateus 5,13-16). Mas o sal pode perder o seu sabor, e a luz pode diminuir de intensidade. É possível que experimentemos uma perda do poder espiritual, porque não nos deixamos guiar pelo Espírito Santo de forma continuada, diariamente, mas somente aos solavancos. Assim, não é de admirar que percamos alguma salinidade e luminosidade. Não conseguimos mudar o mundo, porque nos mantemos demasiado parecidos com o mundo!

As nossas mentes têm um papel preponderante na nossa vida como cristãos. E é nas nossas mentes que se passam algumas das batalhas espirituais mais terríveis e determinantes, para uma comunhão efectiva com Deus. É de notar as seguintes passagens, que dizem respeito às nossas responsabilidades no mundo como crentes em Cristo Jesus:

Filipenses 1,27: “Somente vivei vida digna do evangelho de Cristo, para que… ouça dizer de vós que estais num só espírito, lutando junto com uma só alma, pela fé do evangelho, e que em nada vos deixais atemorizar pelos vossos adversários…”

“Num mesmo espírito” significa ter a mente de Cristo trabalhar em unidade de propósito, de objectivos, promovendo o Evangelho de Cristo e agindo no mundo com o amor de Cristo.

1 Pedro 1,13: “Por isso, com prontidão de espírito, sede sóbrios e ponde toda a vossa esperança na graça que vos será trazida por ocasião da Revelação de Jesus Cristo.”

Noutras palavras, não devemos permitir que o padrão velho e as tentações do mundo nos empurrem para a vida antiga, a que era dominada pelos valores errados.

Ambas as passagens centram o nosso pensamento “no que” e “no como” pensar, porque precisamente isso é determinante para o nosso agir na comunhão com Deus.

Hoje em dia, os cristãos enfrentam um problema considerável à comunhão com Deus: recebem demasiada informação do mundo e muito pouca das várias fontes bíblicas. Cerca de 90% da informação que recebemos nas nossas mentes é baseada em critérios antiéticos do ponto de vista cristão. Uma forma de contrariar este facto, é passar mais tempo em encontros genuínos, de companheirismo com outros crentes e esforçarmo-nos por mais e cada vez melhores experiências na nossa vida devocional.

Josué 1,1-9, é uma passagem que se relaciona directamente com o desenvolvimento e a renovação da nossa mente em Cristo, tendo por base a firmeza (fé) e a coragem necessárias para responder ao chamamento e ao desafio que Deus opera nas nossas vidas.

Nos versos 1-5 lemos sobre o chamamento e a comissão que Deus fez a Josué. E é exactamente o mesmo que Deus faz a todos os cristãos, somos chamados a sermos como Josué, em nos envolvermos no chamamento de outros e na sua liderança para as riquezas de Cristo.

Josué 1,1-5: “…o Senhor falou a Josué, filho de Nun, servo de Moisés, dizendo: Moisés, meu servo, morreu; agora, levanta-te! Atravessa este Jordão, tu e todo este povo, para a terra que dou aos filhos de Israel. Todo o lugar que a planta dos vossos pés pisar eu vo-lo dou, como disse a Moisés… Ninguém te poderá resistir durante toda a tua vida; assim, como estive com Moisés, estarei contigo: jamais te abandonarei, nem te desampararei.”

Nos versos 6-9 lemos sobre o desafio de Deus para a firmeza e a coragem, para a aceitação do chamamento com sucesso: “Sê firme e corajoso; porque tu farás a este povo herdar a terra que a seus pais jurei dar-lhes. Tão-somente sê de facto firme e corajoso, para teres o cuidado de agir segundo toda a lei que te ordenou Moisés, meu servo. Não te apartes dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que triunfes em todas as tuas realizações. Que o livro desta lei esteja sempre nos teus lábios: medita nele dia e noite, para que tenhas o cuidado de agir de acordo com o que está escrito nele. Assim, serás bem sucedido nas tuas realizações e alcançarás êxito. Não te ordenei: sê firme e corajoso? Não temas e não te apavores, porque Iahweh teu Deus está contido por onde queres que andes.”

Nesta passagem concluímos que a firmeza e a coragem, resultam necessariamente de quatro pontos:

(1) Compreender a Palavra de Deus – a Sua vontade e o Seu chamamento (1,1-2).

(2) Acreditar nas promessas da Palavra de Deus (1,2b-6).

(3) Renovar a nossa mente (entendimento) nos princípios da Palavra de Deus (1,7-8).

(4) Reconhecer a presença da Pessoa de Deus (1,9).

O ponto essencial é o facto de a revelação divina se fazer numa contínua comunicação e comunhão, diárias, com o Deus Vivo.

É de notar que cada um destes versos lida com duas situações: a revelação de Deus e a resposta de Josué.

Nos versos 1-5 o chamamento baseia-se na revelação de Deus – a Sua Palavra.

No verso 6 o chamamento para a coragem assenta na promessa de Deus – a Sua Palavra.

Nos versos 7-8 o chamamento para a coragem assenta na necessidade do conhecimento da Lei de Moisés – a Sua Palavra.

No verso 9 o chamamento para a coragem assenta no facto de Deus ter falado a Josué – a Sua Palavra.

Qual é o ensinamento? O sucesso na obediência ao chamamento de Deus depende de ouvir, conhecer e obedecer a Palavra de Deus, mas nos versos 7-8 está a chave para a capacidade de Josué responder com sucesso, e nós também!

vs. 6, “Sê firme e corajoso”

vs. 9, “Sê firme e corajoso”

vss. 7-8, “Tão somente sê de facto firme e corajoso”, reforçando a necessidade de Josué ter de se manter fiel à Palavra de Deus

O verso 7 reflecte uma exortação mais forte porque realça a maior prioridade e o maior perigo:

– É prioritário: ter uma comunhão diária com a Palavra de Deus.

– O maior perigo: o nosso insucesso na meditação da Sua Palavra e no vivê-la.

Para terminar tomemos em conta um estudo de saúde mental e maturidade, feito entre jovens seminaristas nos Estados Unidos, realizado por Paul Meier, concluindo os seguintes pontos:

1. Mesmo sabendo que crer em Jesus é suficiente para termos a vida eterna, experimentar a vida em abundância, tal como Cristo a prometeu (João 10,10) e viver os frutos do Espírito (amor, alegria, paz) em vez de amargura, depressão e ansiedade, estão dependentes da renovação da mente.

2. A renovação da mente é possível através de várias fontes: o Espírito Santo (o Conselheiro por excelência), leitura e meditação diária da Palavra, o perdão dos outros, a caridade cristã.

3. A renovação da mente é um processo contínuo, uma santificação progressiva que exige uma continuada, diária, comunhão com a Palavra de Deus.

4. A meditação diária das Escrituras acompanhada da necessária aplicação à vida pessoal é a forma mais eficiente e eficaz de se obter a alegria pessoal (contentamento interior), a paz e a maturidade emocional.

5. Em média são necessários cerca de 3 anos de meditação diária das Escrituras para que os padrões e os comportamentos e o modo de pensar do crente se modifiquem o suficiente para produzir uma saúde mental e uma felicidade estatisticamente superiores. (33)

Conclusão

Sem uma meditação nas Escrituras os crentes podem cair na religiosidade vazia, porque precisamente tudo fica na mesma nas suas vidas. Deus não nos chama para a conformidade nem tão pouco para um conjunto de normas morais, padrões e acções de serviço. Ele chama-nos para uma relação sincera, de coração, com Ele, através de Jesus Cristo, através da Sua Palavra e do poder do Espírito Santo. Isto significa necessariamente uma mudança nas nossas vidas de dentro para fora, mudanças essas de: valores, fontes de confiança, objectivos de vida, e da maneira como vivemos.

 

“A fim de caminhardes de modo digno do Senhor, para seu total agrado: dai frutos em toda a espécie de boas obras e progredi no conhecimento de Deus, deixai-vos fortalecer plenamente pelo poder da sua glória, para chegardes a uma constância e paciência total com alegria, dai graças ao Pai…” (Colossenses 1, 10-12a)

Nesta passagem Paulo descreve as 4 direcções a tomar no caminho digno de Deus.

1. Frutificar em toda a boa obra
2. Crescer no conhecimento de Deus
3. Fortalecer pelo poder da sua glória
4. Dar graças ao Pai.

O uso da metáfora da “árvore-que-dá-fruto” como figura do crescimento espiritual é frequente em todo o Novo Testamento. Nos Evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos, Lucas), as acções humanas e as suas palavras são vistas como frutos que crescem do carácter do crente.
No Evangelho de João e nas epístolas de Paulo, este conceito de frutificação é visto numa perspectiva ligeiramente diferente, não como o produto resultante do carácter do crente, mas como o produto do trabalho de Deus em nós, através do discipulado: por meio do Espírito Santo e da Sua Palavra.
É de notar que o carácter do crente é visto na Bíblia como o produto do trabalho de Deus em nós, contudo, João e Paulo enfocam na dinâmica espiritual interior.

1. “Dai frutos em toda a boa obra” (1, 10b)

Frutificar descreve o produto resultante da vida espiritual no eu-interior, tal como a árvore dá fruto pela vida dentro de si. Nesta imagem está inerente o maravilhoso conceito do Novo Testamento, que é a união do crente a Cristo, no corpo místico que é a igreja.
O trabalho do Pai, como nosso Viticultor espiritual, operando constantemente em nós, levando-nos de um estádio de ausência de fruto, ao fruto, e a ainda mais fruto, e a cada vez mais fruto, dado que Ele procura que estejamos cada vez mais na Videira, que é Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

João 15, 1-6a: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda…Eu sou a videira, vós os ramos. Quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca.”
Todos sabemos que o trabalho operado em nós pelo Agricultor é doloroso, pela poda que frequentemente Ele nos sujeita. Mas se queremos que as nossas vidas abundem em fruto por toda a eternidade, e se queremos amadurecer, as tribulações e as provações são uma parte necessária na nossa vida.
Em toda a boa obra” demarca a esfera da nossa frutificação. Por um lado, devemos notar que “a maior parte das árvores produzem a partir do seu género, ora este tipo de árvore é omnífera, porque possui todas as virtudes do fruto do Espírito” (Gálatas 5, 22-23).

Por outro lado, a frutificação na vida cristã inclui 3 áreas:

o O cultivo da nossa própria vida espiritual em virtudes cristãs, como o auto-controlo, a mansidão, a humildade, a paciência e a fidelidade.

o O cultivo da adoração- a confissão, o louvor, a oração, a acção de graças, e a adoração de Deus no cântico de salmos, no canto e na melodia dos nossos corações para o Senhor.

o O cultivo do amor e do serviço aos outros- testemunhando, ensinando, encorajando-nos uns aos outros, ajudando-nos com acções de gentileza e compaixão, dando, chorando com os que choram, rejubilando com os que rejubilam, em hospitalidade, etc.

“Frutificando em toda a boa obra” não é só uma chamada para sermos equilibrados e produtivos em várias áreas de serviço, mas é também, uma chamada de atenção para o nosso envolvimento em “boas obras”-sem-a-genuína-frutificação. É triste, mas é verdade que as nossas boas obras podem ser obras mortas! Precisamente por serem obras da carne, feitas com a nossa energia, mas pelos motivos errados. Todas as obras feitas pelos motivos errados (para nosso próprio prazer, para impressionar os outros, para competir com os outros, etc.) não agradam a Deus, precisamente porque Ele não é nem a fonte nem a energia por detrás dessas obras. A comparação de 1Tessalonicenses 1, 3 com Apocalipse 2, 1-4 chama-nos a atenção para a importância da fonte do nosso fruto.
1Tessalonicenses 1, 3: “A vosso respeito, guardamos na memória, a actividade da fé, o esforço da caridade e a constância da esperança, que vêm de Senhor Jesus Cristo…”
Nesta passagem Paulo sumariza a essência da obra: fé, amor e esperança. Estas qualidades cristãs são sentimentos de Cristo, e são também frutos da vivência espiritual, sendo absolutamente essenciais à nossa obra, produzindo a verdadeira frutificação. É por causa disto que Jesus exorta a igreja de Éfeso com um aviso duro em relação à sua obra e ministério.
Em Apocalipse 2, 2, Jesus diz: “Conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância…No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primitivo amor. Lembra-te, pois, de onde caíste arrepende-te, e torna proceder como ao princípio.”
Faltava o importante…Jesus notou a falta da fé, de amor e de esperança.
Neste ponto as Sagradas Escrituras deixam mais que claro que a fé, o amor e a esperança por seu lado resultam da obra do Espírito Santo e da Palavra de Deus no coração e na vida dos crentes. Daí o principio defendido por Paulo: as obras são o fruto, não a raiz: crer em Jesus, a condução do crente pelo Espírito Santo, e a vivência da Palavra pelo cristão, constituem a raiz que possibilitam a frutificação em toda a boa obra.

2. “Progredir no conhecimento de Deus” (1, 10c)

Nesta passagem Paulo dá-nos a entender o significado de “crescer” sob 2 perspectivas complementares. Por um lado, a qualitativa, referindo-se ao crescimento espiritual, no que diz respeito ás várias áreas de frutificação, vistas em passagens como, João 15 e Gálatas 5, 22-26.
Por outro lado, a perspectiva quantitativa do crescimento, no sentido da evangelização da Palavra. O crescimento espiritual do crente levá-lo-á à preocupação com os que estão perdidos, e por isso mesmo testemunhará sobre o Salvador.
Ainda nesta passagem, Paulo realça o elemento determinante no crescimento espiritual e na frutificação, o agente: que é o conhecimento de Deus, que tem a sua fonte na Vida -Jesus, gerando ribeiros de água viva, que é a Palavra. É ela que vivificante e poderosa (energizante), contem em si o poder de transformar a vida do crente.
Hebreus 4, 12 “Na verdade a Palavra de Deus é viva, eficaz, e mais afiada que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, e das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração.”

3. “Fortalecer plenamente pelo poder da sua glória, para chegardes a uma constância e paciência total” (1,11)

A nossa necessidade: nada menos que a força do Senhor para a batalha.
Temos tendência para confiar em nós mesmos, por aquilo que temos, as nossas capacidades e talentos, o nosso dinheiro, a nossa educação, a nossa experiência e a nossa história, ou até outros recursos humanos que nos lembremos; somos expeditos a recorrermos ás nossas estratégias humanas para nos safarmos das dificuldades da vida. Ou falhamos em olhar para Deus pela nossa força, porque a nossa fé é simplesmente fraca. Neste caso, a nossa fé é mais teórica do que pratica.
Ou falhamos em olhar para Deus pela sua força, por medo do conflito; porque sabemos que se confiarmos no Senhor, por vezes teremos de andar na corda bamba ou expormo-nos a um significativo sofrimento.
“Fortalecer plenamente pelo poder da sua glória” enfatiza o que está disponível para nós em Cristo, e aponta para o que Deus quer que experimentemos. Paulo coloca, assim, a tónica na necessidade que temos do poder inerente de Deus, acessível para nós, em Cristo e por meio de Cristo.
O objectivo: a capacidade de perseverar (ser paciente) e continuar em frente (ser longânimo).
“Paciência” é a palavra grega hupomone, que quer dizer “perseverança, firmeza, determinação, persistência”, procura ilustrar a ideia de permanecer em tribulação sem desistir, reflecte a capacidade de aguentar independentemente da intensidade e da duração da provação. E é usada na Bíblia em relação a uma variedade de tribulações, como doenças, dor, perdas financeiras, morte de entes queridos, guerras, fraquezas físicas e espirituais, ataques satânicos, e perseguições.
Uma vez que a fé vem de ouvir a Palavra de Deus, perseverar requer que procuremos, conheçamos e permaneçamos em Deus à luz da Sua Palavra. Romanos 10, 17: “Portanto, a fé surge da pregação, e a pregação surge pela palavra de Cristo.”
Assim permanecer firme na fé implica: agradar e glorificar o Senhor (Salmo 40, 16), experimentar a Sua força como substituta da nossa fraqueza (2 Coríntios 12, 8-9), confortar os outros (2 Coríntios 1, 3-9), crescer na fé transformando-nos em imagens de Cristo (1 Pedro 1, 6-7; Romanos 8, 28-29).
Constância ou longanimidade” vem da palavra grega makrothumia, que quer dizer “sofredor, compassivo, ter temperança, no sentido, de não ser provocável por palavras, não ser vingativo ou retaliador”, e aplica-se para pessoas ou relacionamentos. É uma das virtudes do fruto do Espírito (Gálatas 5, 22-23) e é o produto do amor, porque o amor é longânimo (1 Coríntios 13, 4).

4. “Dai graças ao Pai” (1, 12a)

A cereja no topo do bolo: “com alegria dai graças“, reflecte o caminho que coroa os 3 anteriores. Grande parte da força de Deus para perseverarmos e sermos longânimos vem do louvor e da acção de graças a Deus pela Sua insubstituível graça, só possível pelo enfoque em Deus, e só Nele.
A caminhada que agrada a Deus é aquela que agradece, reconhece e dedica-se a Deus-Pai, em Cristo Jesus, reconhecendo-se e esperando Nele como fonte de vida eterna e benfeitor misericordioso.
Romanos 11, 36: “Porque é dele, por Ele, e para Ele que tudo existe. Glória a Ele pelos séculos. Ámen.”

Conclusão

Provavelmente não é surpre-endente o facto de termos a responsabilidade de frutificar em toda a boa acção e de crescer no conhecimento de Deus. Mas o conceito de sermos fortalecidos pela manifestação da paciência e da longanimidade pode ser surpreendente para alguns. Porquê? Porque a paciência e a longanimidade não são propriamente as qualidades que muitos cristãos procurem na força de Deus. Mas sim, procuram: a cura de doenças, a restauração miraculosa de relacionamentos, a libertação dos padrões de vida dominadores, e acima de tudo a eliminação completa e total de todos os seus problemas e de toda a dor inerente. E quando querem que isso aconteça? Bem, JÁ, claro! De facto até era preferível que tivesse sido ontem!!
Infelizmente como cristãos somos demasiadas vezes indiferentes aos propósitos de Deus, quer seja no sofrimento próprio, quer seja no dos outros. Contudo, o princípio é este: Deus é o Agricultor e o nosso Pai celeste, e em ambos os papéis Ele está determinado em edificar-nos um carácter espiritual igual ao do Seu Filho! Assim, Ele poda-nos como ramos para nos tornar mais produtivos na frutificação e amorosos, como Ele o é.
Romanos 8, 28-29: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus…os predestinou para serem uma imagem idêntica à do seu Filho, de tal modo que Ele é o primogénito de muitos irmãos.”

J. Hampton Keathley III
Traduzido e adaptado por Ana Paula Barata